26/07/19

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Campos dos Goytacazes, sexta-feira, 26 de julho de 2019 – nº 3.917

Prevendo catástrofes

Foto: Adelson Pedro da Silva (G1)

Laboratório de Meteorologia UENF trabalha em cooperação com instituições de todo o planeta para prever eventos climáticos

O clima do planeta já não é mais o mesmo. Eventos climáticos intensos a cada dia se tornam mais frequentes, como consequência direta do aquecimento global. Neste cenário, a meteorologia ganha um papel primordial ao estudar a atmosfera, prever o seu comportamento e, desta forma, contribuir para a minimização dos efeitos adversos causados pelos fenômenos climáticos.

Situado em Macaé, o Laboratório de Meteorologia da UENF (LAMET) vem contribuindo com esta área de estudos, que hoje funciona de forma integrada por todo o planeta. O professor Isimar de Azevedo Santos, do LAMET, conta que, sem essa integração, seria impossível fazer previsões do tempo acertadas. “As previsões requerem o conhecimento do que está acontecendo em todo o globo terrestre. Só assim podemos ter êxito, porque os movimentos são relativamente rápidos, as massas de ar se locomovem sobre o globo com certa rapidez”, diz.

Segundo Isimar, o compartilhamento de informações já é uma rotina entre os diversos órgãos que trabalham com meteorologia em todo o mundo. Isto é feito através de redes de telecomunicação específicas, às quais a UENF está interligada. “O trabalho de meteorologia inclui essa capacidade de rapidamente compartilhar informação com outros órgãos e com o mundo inteiro. A meteorologia só trabalha quando há essa cooperação”, afirma.

“A atmosfera não é uma coisa divisível, por isso a meteorologia é trabalhada de uma maneira global”, diz a professora Maria Gertrudes Alvarez Justi da Silva, chefe do LAMET, lembrando que a Organização Meteorológica Mundial foi criada em 1873 já devido à necessidade de cooperação mundial nesta área. “Hoje a preocupação em relação à evolução das características do clima mostra com ainda mais força que essa integração é necessária. É bom lembrar que o que um pais coloca na atmosfera num momento impacta gerações e gerações e causa alterações em nível de tempo e clima em  lugares remotos”, afirma.

Isimar de Azevedo Santos

Parte das pesquisas que vêm sendo feitas na UENF têm por objetivo descobrir como sistemas remotos podem afetar a região Norte Fluminense, o que é chamado de estudo das teleconexões. “Recentemente, demonstramos que as modificações no Ártico estão afetando as chuvas na América do Sul e Sudeste do Brasil. Nosso interesse é saber se teremos condições mais ou menos favoráveis nos próximos anos para a agricultura. O clima afeta muito as plantas, pois elas são muito sensíveis a qualquer modificação climática”, diz.

Apesar dos avanços na área de meteorologia, Justi afirma que a previsão climática de longo prazo ainda é um desafio em todo o mundo. “A previsão de clima para a próxima estação, por exemplo, ainda é um desafio. A meteorologia mundial está na fronteira do conhecimento tentando responder a isso. Por exemplo: você planta e quer saber se vai chover na época certa, mas ainda não é possível responder a isso”.

Segundo Isimar, a melhoria da previsão de curto prazo se deve à velocidade da computação e à melhoria dos programas que transformam as equações da dinâmica e da termodinâmica em previsão do tempo. “A previsão do tempo é uma simulação de como a atmosfera vai se comportar no futuro a partir do que está acontecendo no presente. E isso só ocorre quando se alimentam modelos computacionais”, afirma.

Justi observa que a previsão de fenômenos climáticos intensos, que têm uma vida menor — como as fortes tempestades que ocorrem no Brasil, por exemplo — normalmente é feita com menos de sete horas de antecedência. Para tanto, foi crucial a compra de dois radares meteorológicos para o Estado do Rio de Janeiro — um dos quais está instalado no campus da UENF em Macaé, a partir de um convênio com o Instituto Estadual do Ambiente (INEA). Segundo ela, o que motivou a compra dos dois radares foram as chuvas de 2010 (Morro do Bumba) e 2011 (Região Serrana), que tiveram inúmeras vítimas.

Maria Gertrudes Alvarez Justi da Silva

“Com os radares, é possível acompanhar o sistema que vai chegando e prever com precisão a sua intensidade. Não é só a quantidade de chuva, mas também as correntes de compensação que provocam a destruição das árvores, a derrubada de estruturas etc. Tais fenômenos mais intensos nada mais são que aglomerados de nuvens cumulonimbus profundas, que levam a chuvas intensas, rajadas de ventos fortes e precipitação de granizos. Isso se faz de seis horas a uma hora antes do evento, dependendo da intensidade do fenômeno. É necessário um meteorologista ou profissional qualificado acompanhando em tempo real a chegada desses eventos que têm uma vida menor”, explica a professora.

Segundo Isimar, o radar é capaz de observar num raio de 300 a 400 quilômetros a intensidade das nuvens, a quantidade de gelo e gotículas que existem nessas nuvens. “As nuvens evoluem a partir de gotas pequenas e vão aumentando à medida que o sistema evolui. Muitas vezes, quando passa de 5 mil metros de altura, essas gotas que trafegam por dentro das nuvens se tornam gelo”, explica.

Ventos fortes e poda mal feita: receita para queda das árvores

Poda mal feita na Praça Santo Antônio, em Campos dos Goytacazes (RJ).

Um dos fenômenos climáticos da atualidade é o aumento da velocidade dos ventos, que tem provocado muitos estragos em várias partes do mundo. A explicação para isso, segundo Isimar, está no aumento de dióxido de carbono na atmosfera. “O sistema climático vive do calor do sol. Quando se aumenta esse calor, através do efeito estufa, o sistema climático recebe mais energia. O vento é parte da maneira como a natureza gasta essa energia que ela recebe”, afirma.

Segundo Justi, tanto os fenômenos meteorológicos quanto a circulação da atmosfera foram feitas para compensar as distribuições erradas ou desiguais de energia. “Se há muito aquecimento em um lugar e no outro está mais frio, rapidamente forma-se um maior número de frentes frias para tentar compensar isso. Se essa movimentação das massas de ar não é suficiente para compensar, forma-se o maior número de furacões, que são tempestades mais intensas e que tentam misturar essas desigualdades. Se isso não der jeito, há os tornados. Então, temos uma escala de fenômenos meteorológicos que vão tentando compensar as desigualdades”, explica.

Com os ventos mais fortes, um dos efeitos comuns das tempestades tem sido a queda de árvores nas áreas urbanas.   O que muita gente não sabe é que, sozinhos, ventos e chuvas fortes dificilmente  conseguiriam arrancar árvores que não tivessem sua estrutura já previamente comprometida. Segundo a professora Janie Jasmin, do Laboratório de Fitotecnia do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da UENF, uma das formas de comprometer a estrutura das árvores é a poda mal feita.

Janie observa que qualquer poda da copa das árvores produz impactos na raiz da planta. “Se você cortou um pedaço da copa, as raízes vão reduzir de forma proporcional ao que foi cortado ali . Então, se foi reduzido, por exemplo, um terço da copa, vai haver uma morte de um terço das raízes. E todos sabem que, além de absorver água e nutrientes, as raízes têm a função de ancoramento das árvores. Se você diminuiu a quantidade de raízes, naturalmente você vai reduzir para ela a possibilidade de se manter em pé”, explica.

Poda drástica da copa da árvore desestabiliza a estrutura

Ela explica que é na parte aérea da planta que ocorre a fotossíntese. Ali é produzido todo o carbono, toda fonte de energia para todas as funções metabólicas, crescimento, desenvolvimento. “As raízes absorvem água e nutrientes que vão ser utilizados nisso também, mas o carbono que vai para as raízes, a sua estrutura na forma de carboidratos, ele vai ser fabricado na copa. É a copa da árvore que vai manter isso”.

Janie chama a atenção para a necessidade de se fazer as podas somente em caso de necessidade e, ainda assim, com muito cuidado para não prejudicar a firmeza da árvore. “Temos presenciado em diversos locais do mundo eventos climáticos intensos, com velocidades altíssimas de ventos. Se o vegetal está enfraquecido na sua estrutura, que permite o seu ancoramento, obviamente, ele vai tender a cair”. A poda mal feita, segundo ela, também pode servir para a entrada de microrganismos que podem causar doenças às plantas.

“Em condições naturais, como uma floresta, é muito comum que as árvores tenham  um certo período de vida em que caem e surgem outras em seu lugar. Nas cidades estamos despreparados para esse acompanhamento da evolução natural das árvores. Precisamos entender como o clima afeta a vida vegetal e nos prepararmos para que as árvores sejam substituídas, sejam tratadas em relação a suas doenças e possam viver mais tempo”, diz Isimar.

Na opinião de Justi, as cidades não estão preparadas para os eventos climáticos intensos. “O Rio de Janeiro recentemente recebeu uma chuva muito forte, se comparada com os outros anos, mas ela só teve tanto efeito porque a cidade não fica preparada, chove e não tem escoamento, tem lixo. É importante juntar o que se sabe da atmosfera, de tempo e clima, com quem tem a capacidade de planejar e dimensionar adequadamente as cidades para receber esses impactos. É importante a cooperação entre estas áreas”, conclui.

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