
As recentes mudanças na regulamentação do uso da cannabis no Brasil começaram a produzir efeitos diretos nas universidades públicas, especialmente no campo da pesquisa científica. Na UENF, os impactos já são perceptíveis em diferentes áreas do conhecimento, que vão da saúde à sociologia, passando pela agronomia, biotecnologia e políticas públicas.
Segundo a socióloga Luciana Barbosa, doutora em Sociologia Política pela UENF, o tema da cannabis medicinal envolve múltiplas dimensões e exige um esforço interdisciplinar.
— Quando falamos de pesquisas sobre cannabis para fins medicinais, nos referimos às diversas áreas de conhecimento, uma vez que o tema envolve questões sociais, políticas, culturais, práticas médicas, agronômicas, biotecnológicas, dentre outras. Portanto, são necessárias pesquisas em diversas áreas de conhecimento a fim de promover um arcabouço suficiente para implementar essa nova política de saúde — explica.
Com os avanços políticos e científicos recentes, somados às demandas sociais, os medicamentos à base de cannabis passaram a ser prescritos e fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que, segundo Luciana, torna indispensável à produção de conhecimento científico para sustentar essa nova política pública de saúde.
Mudanças na regulamentação e impactos diretos
Entre os efeitos mais imediatos da nova regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), destacam-se as pesquisas que dependem diretamente da planta, como aquelas voltadas para o cultivo e análises fitoquímicas. A principal alteração está no processo de autorização: antes, cada projeto precisava solicitar permissão individualmente; agora, as instituições podem obter uma autorização geral, válida por um período determinado.
Dificuldades persistem para pesquisadores e estudantes
Apesar dos avanços, estudar cannabis no ambiente universitário ainda apresenta obstáculos significativos. No caso das pesquisas que envolvem o cultivo da planta, a exigência de altos investimentos em controle e segurança encarece os projetos e dificulta sua execução. Além disso, o processo de autorização pode levar meses, o que muitas vezes inviabiliza pesquisas de pós-graduação, que têm prazos limitados.

Já em áreas como sociologia, ciência política e saúde pública, os principais desafios estão relacionados ao baixo investimento e à falta de interesse das entidades de fomento, mesmo sendo um tema atual e urgente no debate público.
Avanços, mas ainda com limitações
Para Luciana Barbosa, as mudanças recentes representam um avanço em relação ao cenário anterior, mas não eliminam as limitações. A pesquisa com cannabis continua sendo consideravelmente dispendiosa e burocrática para as universidades públicas. Além da autorização da Anvisa, o acesso à planta ou a seus insumos ainda exige investimentos elevados, seja por meio da importação ou da produção em território nacional.
Segurança e debate acadêmico
No que diz respeito à realização de eventos acadêmicos, Luciana acredita que as novas regulamentações trazem avanços, mas o desafio central não é a segurança jurídica desses encontros.
— O maior problema não tem sido a segurança para realizar eventos, mas o interesse público, especialmente dos profissionais da saúde — afirma.
Ela lembra que a cannabis esteve envolta, durante quase um século, em controvérsias morais, políticas e raciais, o que ainda gera resistência e desinformação. Mesmo com o acesso à cannabis pelo SUS, muitos profissionais da saúde não se sentem preparados para lidar com o tema.
O papel da universidade
Nesse contexto, a universidade pública assume um papel estratégico no combate ao estigma e à desinformação. Para Luciana, é fundamental que pesquisadores e gestores se engajem não apenas na produção científica, mas também na divulgação dos resultados e na formação profissional.
Foi com esse objetivo que a UENF sediou duas edições do Seminário sobre Cannabis para Fins Medicinais do Norte Fluminense, em 2019 e 2025. A edição mais recente incluiu, inclusive, um curso de formação para profissionais da saúde, impulsionado pela legislação municipal que aprovou o fornecimento de cannabis via SUS em Campos dos Goytacazes.
(Texto: Giovanna Toledo, estagiária, sob supervisão da jornalista Fúlvia D’Alessandri– ASCOM/UENF/ Fotografia: Divulgação )



