“Descoberta” científica de Marcelo de Oliveira Souza busca impactar crianças e jovens para interesse por ciência

Considerado o primeiro livro de ficção científica, “Da Terra à Lua”, foi publicado em 1865. A obra do francês Júlio Verne imagina uma nave lançada por um canhão de guerra, com base na Flórida, Estados Unidos, com destino à Lua. Esta iniciativa parecia pura ficção científica na segunda metade do século XIX.
A este livro, “Da Terra à Lua”, seguiu-se a publicação três décadas depois, em 1895, do livro “Marte”, de Percival Lowell, que publicaria ainda no início do século XX mais duas obras, “Marte e seus canais” (1906) e “Marte como morada da vida”. O autor demonstrava em suas observações que Marte teria tido formas de “vida inteligente”.
Também no começo do século XX, em 1901, foi publicado o livro “O Primeiro Homem na Lua”, do britânico H. G. Wells. No ano seguinte,1902, foi lançado o filme “Viagem à Lua”, do francês Georges Méliès, considerado o primeiro filme de ficção científica e que mostra humanos tripulando uma nave em viagem à esfera lunar.
Lua e Marte se tornaram por ora um objeto de admiração do ser humano, mas até então a conquista do espaço parecia obra de ficção. A Lua só viria a ser explorada pelo ser humano pela primeira vez em 20 de julho de 1969, com a missão Apollo 11 Moon Landing da National Aeronautics and Space Administration (NASA), quando os astronautas americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram na superfície lunar após tripularem a nave lançada da Flórida quatro dias antes.
Homem que pisou na Lua esteve em Campos dos Goytacazes-RJ
Nas comemorações dos 40 anos da Missão Apolo 11, em 2009, o astronauta Buzz Aldrin esteve em Campos dos Goytacazes-RJ para participar do Encontro Internacional de Astronomia e Astronáutica, evento organizado pelo pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), o astrônomo brasileiro Marcelo de Oliveira Souza.
Se a Lua foi bem explorada, como recentemente na missão Artemis II, em meio a vários focos de guerras, uma viagem a Marte permanece como um dos grandes desafios das agências espaciais. Algumas missões interplanetárias da NASA já chegaram à órbita do chamado “Planeta Vermelho”.
Da literatura ao cinema, passando pela música, espaço é assunto frequente das artes

Nestas denominadas “transferências interplanetárias”, o tempo mínimo do voo para deslocamento da Terra até a órbita de Marte foi de seis meses e 17 dias, segundo a NASA. E esta missão, considerada a “mais rápida” até hoje, foi a Mars Odyssey, lançada em 7 de abril de 2001, ano emblemático que intitula o livro “2001, uma Odisséia no Espaço”, de Arthur C. Clarke, escrito durante a produção do clássico filme homônimo do americano Stanley Kubrick, lançado em 1968, em plena Guerra Fria e um ano antes da real viagem à Lua.
No ano de 1980, Elis Regina cantava “Alô, alô, Marciano”: “Aqui quem fala é da Terra/ Para variar estamos em guerra”, música de Rita Lee e Roberto de Carvalho, que permanece contemporânea.
Em 2015, ano em que foi lançado o filme “Perdido em Marte”, do britânico Ridley Scott, o pesquisador da UENF, Marcelo de Oliveira Souza, identificou um asteroide que tinha a previsão de uma trajetória em 2020, que passava próximo da Terra e próximo de Marte.
Após 10 anos de pesquisas, cientista brasileiro chegou à “descoberta”

O astrônomo brasileiro imaginou que esta observação poderia ser uma referência para uma viagem “mais rápida” para Marte. Desde então, Marcelo tentou por diversas vezes encontrar uma possível trajetória que satisfizesse essa condição.
Enfim, 10 anos depois do início dos cálculos e de muita perspicácia, em 2025, vieram os resultados dos cálculos matemáticos: o pesquisador da UENF encontrou a solução para uma viagem próxima da oposição da Terra com Marte, prevista para 2031.
Os resultados do estudo foram publicados agora em 2026 na revista científica Acta Astronautica, disponível no link abaixo: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0094576526002456
Trajetória viável de viagem de ida e volta Terra-Marte-Terra é de 56 dias, ou em caso extremo de 153 dias no total

De acordo com a pesquisa do astrônomo brasileiro, “foram identificadas duas trajetórias para Marte: uma trajetória rápida de 33 dias e uma trajetória viável de 56 dias, cada uma combinada com trechos de retorno dinamicamente coerentes para formar arquiteturas completas de viagem de ida e volta Terra-Marte-Terra”.
A viagem de ida e volta extrema é de 153 dias no total, sendo 33 dias da Terra a Marte, 30 dias de estadia em Marte e 90 dias de viagem de Marte a Terra. A data de partida da Terra está prevista para 20 de abril de 2031. A nova rota orbital ainda precisa de validação e testes para uso real em missões espaciais.

O pesquisador da UENF disse que utilizou a geometria da trajetória de um asteroide nominado CA21 como referência para identificar regiões do espaço onde é possível definir trajetórias mais rápidas da Terra para Marte.
— Esses corredores geométricos são caminhos onde essa geometria reduz o tempo de viagem, permitindo missões muito mais rápidas do que as normalmente encontradas em análises tradicionais — informou.
Marcelo conta que utilizou Inteligência Artificial(IA) como uma ferramenta de apoio, principalmente para revisar o texto, organizar as ideias e fazer ajustes de código, mas que a ideia original, o desenvolvimento e a verificação dos resultados foram realizados por ele próprio.
Tecnologias mais avançadas, como a propulsão nuclear ou elétrica, podem tornar viagem mais rápida e eficiente
Sobre as tecnologias que permitirão que o ser humano vá a Marte, o pesquisador da UENF destacou as seguintes: um sistema de propulsão potente para sair da Terra e viajar pelo espaço, proteção para os astronautas contra radiação e temperaturas extremas, e sistemas de suporte à vida que funcionem por muitos meses.
— Hoje, já temos motores baseados em reações químicas, como os foguetes atuais, que permitem essa viagem. Mas tecnologias mais avançadas, como a propulsão nuclear ou elétrica, podem torná-la mais rápida e eficiente — considerou.
Marcelo observou que, do ponto de vista científico e tecnológico, já se sabe como enviar seres humanos a Marte.
— O desafio hoje é fazer isso com segurança e garantir os recursos necessários, que envolvem investimento, desenvolvimento tecnológico e infraestrutura para sustentar uma missão longa no espaço. Missões tripuladas provavelmente devem acontecer nas próximas décadas. O que pesquisas como a minha mostram é que existem maneiras de tornar essas viagens mais rápidas, o que pode reduzir os riscos para os astronautas — ressaltou.
Repercussão do artigo científico pode motivar crianças e jovens a se interessarem por ciência

Porém, para o pesquisador da UENF, mais importante do que o próprio resultado científico é o impacto que isso pode ter nas pessoas.
— Se a repercussão do artigo conseguir motivar crianças e jovens a se interessarem por ciência, já me sinto plenamente satisfeito — contou.

na Subsecretaria Municipal de Ciência e Tecnologia de Campos dos Goytacazes-RJ
Natural de Niterói-RJ, o astrônomo Marcelo de Oliveira Souza é professor e pesquisador da UENF desde 1994.
Marcelo tem um trabalho de 30 anos com o Clube de Astronomia Louis Cruls (CALC), do qual é fundador e coordenador geral.
O CALC realiza desde 2008 o Encontro Internacional de Astronomia e Astronáutica em Campos dos Goytacazes-RJ.
O CALC desenvolve atividades gratuitas, como observações do céu escuro ao ar livre.
Acompanhe o CALC no link a seguir: https://www.instagram.com/louiscruls/
(Jornalista: Wesley Machado – Fotografias: Divulgação e Imagens Ilustrativas / ASCOM UENF)



