Ex-deputado Marcelo Freixo falou sobre o livro “Viver é Perigoso — Minha Travessia no Rio”, lançado esta semana na UENF, ao ser entrevistado pela Rádio UENF 87,1 FM nesta quarta-feira, 27/05

Um dos destaques da programação do XVIII CONFICT/XI CONPG foi o lançamento, na última terça-feira, 26/05/26, do livro “Viver é Perigoso — Minha Travessia no Rio”, do professor, ex-deputado e ex-presidente da Embratur, Marcelo Freixo, em parceria com o jornalista Bruno Paes Manso. O livro autobiográfico, que percorre a trajetória pessoal e política de Freixo — oferecendo ainda um panorama do Rio de Janeiro nas últimas décadas — foi o tema do Programa ‘Bom Dia UENF Entrevista’ desta quarta-feira, 27/05/26, na Rádio UENF 87,1 FM.
Entrevistado por Giu de Souza, Marcelo Freixo contou que o livro é o resultado de quatro anos de trabalho, no qual os autores “mergulharam fundo num Rio de Janeiro que não cabe em um cartão postal”. Um mergulho, entre outras coisas, no “escritório do crime”, responsável pelas mortes de seu irmão, Renato Freixo, em 2006, e de sua amiga, assessora por 10 anos e vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, em 2018.
— Embora seja autobiográfico, é um livro que traz informações sobre um Rio de Janeiro que precisa ser compreendido. Um Rio de Janeiro que tem oito governadores afastados, dos quais seis presos. Um Rio de Janeiro que nesse momento tem um governo provisório, interino, e a sensação das pessoas é que melhorou. Então, é um Rio que tem suas complexidades, e a gente mergulha nesse Rio — disse.
Ressaltando que o jornalista Bruno Paes Manso, co-autor do livro, é um dos maiores especialistas em segurança pública e crime organizado no país, Freixo disse que a obra não é descritiva, mas analítica.
— A parceria foi muito interessante porque a gente ficou quatro anos conversando. Nesse tempo, eu ia narrando as coisas que vivi e também falando dos meus sentimentos. Então é um livro que vai debatendo situações a partir das minhas memórias. Queríamos que saísse antes das eleições de 2026 por conta da imensa importância que esta tem para a democracia brasileira. É um livro que ajuda a compreender os desafios do Rio — disse.
Dentre as situações vividas, ele destacou o trabalho como presidente das CPIs das Milícias e do Tráfico de Armas e Munições, além da Comissão de Direitos Humanos — da qual foi o presidente por 10 anos.
O livro traz um debate muito profundo sobre a CPI das Milícias, proposta por Freixo quando ocupava o posto de deputado estadual do Rio de Janeiro. Ele relatou que o que o impulsionou a propor esta CPI foi o assassinato de seu irmão, ocorrido no mesmo ano em que se elegeu deputado estadual pela primeira vez (2006).
— Meu irmão foi assassinado pela milícia e isso dilacerou minha família. Ele tinha 34 anos e dois filhos pequenos. Então eu não falo da segurança pública a partir de quem leu sobre isso; falo a partir de quem viveu e teve uma família destroçada — disse, lembrando que, na mesma eleição, vários milicianos também se tornaram deputados estaduais no Rio de Janeiro.

— Naquele momento eu precisava tomar atitudes que dariam sentido à minha vida. Então eu apresentei a CPI das Milicias no momento em que a vida me exigiu esse risco. E é claro que a minha vida ficou mais perigosa. Mas eu tomei essa atitude. A vida foi minha naquele momento. Eu não podia ser refém do medo naquele momento específico da minha vida num parlamento lotado de milicianos e tendo a minha família destruída — afirmou.
Freixo lembrou que, naquele momento, quase ninguém falava sobre o tema, e muita gente chegava a defender a milícia — que ainda não era considerada crime (o que só passou a ocorrer a partir de 2012 com a Lei Federal 12.720). Até então, os milicianos eram enquadrados no crime de formação de quadrilha, ficando muito pouco tempo na prisão.
A CPI das Milícias foi proposta em 2007 e sua instalação, aprovada em maio de 2008. Apenas dois deputados votaram contra a CPI: Chiquinho Brasão (condenado como mandante do assassinato de Mariele) e Flávio Bolsonaro (pré-candidato a presidente da República).
— Não vou comentar sobre isso. Cada um faça o julgamento que quiser — disse Freixo.
Segundo ele, uma das diferenças entre a organização do tráfico de drogas e a milícia é que esta última não nasce nas prisões.
— A milícia não é uma facção; ela é uma organização criminosa específica. Ela nasce no Palácio, nas relações de poder. Nasce de uma política apodrecida no Estado do Rio de Janeiro. Ela já nasce como máfia. É o crime com projeto de poder. Isso é uma sofisticação na história da organização criminosa do Rio de Janeiro — afirmou, lembrando que a CPI conseguiu levar à prisão 241 líderes milicianos, entre eles vereadores e deputados.
Freixo ressaltou que aquele foi um momento decisivo para que o Estado conseguisse derrotar definitivamente as milícias, o que infelizmente não aconteceu. Isto porque, segundo ele, não foram colocadas em prática as medidas que a CPI indicou, como a retomada de territórios e dos negócios econômicos nestes locais — como serviços de gás, internet, taxa de segurança etc.

— Quando a CPI termina, o governo tem que dar continuidade às suas propostas. Mas os governos estaduais subsequentes não tomaram as decisões, não fizeram o que tinham que fazer. O resultado foi: as milícias trocaram seus líderes e cresceram — disse.
No entanto, Freixo considera que a CPI saiu vitoriosa, não só pelo número de pessoas presas como pela mudança da opinião pública.
— Ninguem depois da CPI teve a ousadia de defender as milícias. E milícia virou crime, virou debate nacional. Recentemente no julgamento dos mandantes da morte da Mariele, o relatório da CPI das Milícias foi usado de forma muito contundente na hora de caracterizar os interesses dos criminosos, no caso a família Brazão. Talvez tenha sido a CPI mais importante da historia do Rio — disse.
Segundo Freixo, a expressão “estado paralelo” para se referir ao crime organizado precisa ser substituída pela ideia de que o crime, na verdade, encontra-se dentro do Estado. Ele afirmou que a polícia, sozinha, não vai resolver o problema da segurança pública.
— Todo miliciano é dono de centro social. Porque a máfia funciona com dois braços: de um lado, a repressão e morte; e do outro, a assistência. Mas quem deveria dar a assistência? O Estado. Então é essa lacuna do Estado que vai leiloando as suas funções para os grupos criminosos. A milícia controla as eleições e diz quem vai ser eleito. Ela transforma o crime em poder. Então o crime organizado tem os seus representantes hoje dentro do estado — afirmou.
Freixo também relatou sua longa amizade com Mariele, lembrando que seu livro começa justamente com o julgamento de seus assassinos. Ele informou que soube através da Polícia Federal (PF) que a milícia planejou também o seu próprio assassinato, bem como o de sua filha — o que o obrigou a leva-la para fora do país.
— Eu faria tudo de novo porque nada vai trazer meu irmão e Mariele de volta. Agora, não é banal viver sob a ameaça do crime organizado. Quando você enfrenta o crime organizado e coloca sua vida nesse lugar há um preço muito alto que se paga, não há normalidade na vida. Não é fácil — disse.
O programa ‘Bom Dia UENF Entrevista’ vai ao ar todas as segundas, quartas e sextas-feiras, das 11h às 12h. Com direção geral de Vitor Sendra, o programa tem Thábata Ferreira na Produção, Pesquisa e Roteiro e Thiago Henriques no Suporte Técnico. Na Cobertura para Redes Sociais, Fotos e Vídeos, estão Lívia Gimenez e João Marcos Félix.
Saiba mais sobre o livro de Marcelo Freixo AQUI.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Lívia Gimenes – ASCOM / UENF)



