Germinando o saber: ciência que sai do laboratório para encontrar novos olhares

Projeto de extensão da UENF aproxima crianças e adolescentes da pesquisa científica por meio de experiências lúdicas e interativas em feiras de ciências

Uma soja pode estar feliz ou triste? E o que minhocas têm a ver com a qualidade do solo? Para quem trabalha com ciência, as perguntas podem parecer inusitadas. Para crianças e adolescentes que visitam uma feira de ciências, porém, elas são o ponto de partida para descobrir que aquilo que acontece dentro de um laboratório também está presente no alimento que chega à mesa, na qualidade da terra e no desenvolvimento das plantas. É assim, transformando conceitos científicos em experiências que podem ser vistas, tocadas e compreendidas, que o projeto de extensão Germinando o saber, da UENF, aproxima a pesquisa acadêmica da comunidade.

Criado em novembro de 2022, o projeto já participou de 25 feiras de ciências, alcançando mais de 2,5 mil pessoas, entre estudantes de diferentes segmentos, professores e integrantes da comunidade em geral. A proposta é levar um pouco do laboratório para fora da universidade e apresentar, de maneira lúdica e acessível, parte do conhecimento produzido pelos pesquisadores do Núcleo de Estudo de Biotecnologia Vegetal (Germinação), vinculado ao programa de pós-graduação.

A iniciativa parte de um princípio simples: aproximar a sociedade da ciência sem abrir mão do rigor científico, mas também sem deixar que a linguagem técnica seja uma barreira para a compreensão. O projeto de extensão Germinando o Saber é coordenado por Luciele de Léo Cardozo, enquanto o Núcleo de Germinação tem como presidente Daniel Quintanilha Pacheco.

No Núcleo Germinação, os pesquisadores desenvolvem estudos relacionados, entre outros temas, ao mapeamento genético, à identificação de genes-alvo para melhoramento e à regulação molecular do desenvolvimento das plantas. Também investigam os efeitos de bactérias promotoras de crescimento e o impacto fisiológico e bioquímico dessas simbioses nas fases iniciais do desenvolvimento vegetal. É um universo complexo que, nas feiras de ciências, ganha novas formas de ser contado.

A linguagem acadêmica dá lugar a experiências visuais, comparações, perguntas e brincadeiras. O objetivo é mostrar que a pesquisa desenvolvida na universidade não está distante da realidade cotidiana, mas pode interferir diretamente na qualidade do solo, no crescimento das plantas e, em última instância, na alimentação da população.

Do solo ressecado à terra cheia de vida

Uma das estratégias utilizadas pelo projeto é transformar conceitos difíceis em situações que possam ser percebidas imediatamente pelos estudantes. Daniel conta que, em uma das atividades, levou dois recipientes para apresentar ao público: um com terra ressecada e outro preparado com a introdução de minhocas e a reposição de nutrientes.

A diferença entre os dois materiais serviu como uma espécie de aula a céu aberto sobre a importância da saúde do solo para o desenvolvimento das plantas.

— É tudo muito visual. Mesmo sem dominar a técnica, eles conseguem notar perfeitamente que um solo está tratado e outro não. E assim compreendem a importância da pesquisa e da aplicação da técnica correta em cada caso. Crianças das mais diversas idades se sentem atraídas. Usamos a linguagem de acordo com a faixa etária do nosso público e realizamos um trabalho interativo, horizontal, priorizando a troca de conhecimento — explicou Daniel.

A experiência traduz, em poucos minutos, conceitos que podem ocupar páginas de artigos científicos. A terra deixa de ser apenas o lugar onde a planta cresce e passa a ser apresentada como um sistema vivo, cuja qualidade interfere diretamente no resultado do cultivo.

A atividade também evidencia uma das principais características do projeto: a ciência não é apresentada como uma via de mão única. Os pesquisadores levam conhecimento às escolas e às feiras, mas também encontram nesses espaços novas perguntas, curiosidades e formas de enxergar o próprio trabalho.

Quando a soja fica “feliz” ou “triste”

A primeira experiência de Luciele em uma feira com o Germinando o Saber também nasceu de uma tentativa de traduzir a ciência para o universo infantil.

Ela levou quatro tratamentos distintos de soja. Dois receberam nutrientes e água, sendo um com três dias e outro com sete dias de germinação. Os outros dois, nos mesmos períodos de desenvolvimento, foram tratados apenas com sal.

O resultado visual ajudou a criar uma comparação que rapidamente conquistou os pequenos: havia uma “soja feliz”, cultivada em condições adequadas, e uma “soja triste”, submetida a uma condição desfavorável.

A partir daí, Luciele convidou os estudantes a relacionarem fatores como sol, enchentes, poluição e nutrientes à qualidade e ao desenvolvimento da planta.

— Pedi a eles que relacionassem fatores como sol, enchente, poluição e nutrientes com a qualidade da soja, que poderia estar feliz ou triste. Eles participaram da atividade, enxergando-a como uma brincadeira e ainda associaram o crescimento da soja com o feijão plantado no algodão, experiência que quase toda criança realiza na escola. Foi bem legal. Não somos apenas nós que os impactamos. Eles nos impactam muito também — reconheceu.

A associação com o tradicional experimento do feijão no algodão mostra como a divulgação científica pode partir de experiências que já fazem parte da memória escolar das crianças. O conhecimento produzido no laboratório encontra, assim, uma ponte com aquilo que elas já conhecem.

Ciência que sai do laboratório

A proposta do Germinando o saber está alinhada ao papel da extensão universitária de aproximar a universidade da sociedade e ampliar o acesso ao conhecimento produzido no ambiente acadêmico. As feiras de ciências promovidas pela UENF são justamente um dos espaços utilizados para fortalecer esse diálogo, aproximando pesquisadores, estudantes e comunidade.

Mais do que apresentar resultados de pesquisas, o projeto procura despertar a curiosidade e mostrar aos estudantes que a ciência é construída por pessoas, perguntas, experimentos, tentativas e descobertas.

Ao transformar genes, bactérias, nutrientes, solo e desenvolvimento vegetal em experiências compreensíveis para diferentes idades, o Germinando o saber também ajuda a desfazer a ideia de que a universidade e seus laboratórios são espaços distantes da vida cotidiana.

A cada feira, uma nova oportunidade de semear curiosidade. E, enquanto as crianças observam uma planta crescendo, comparam solos ou descobrem por que uma soja pode estar “feliz” ou “triste”, pesquisadores e estudantes da UENF plantam algo que não pode ser medido apenas em centímetros: o interesse pelo conhecimento e a possibilidade de que, entre aqueles pequenos visitantes, esteja surgindo o próximo cientista. É no Germinando o saber que essa curiosidade encontra a ciência e começa a brotar.

(Jornalista: Tatiana Freire – ASCOM/UENF)

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