Animais em risco de extinção retornam à natureza via SERCAS-UENF

Animais em risco de extinção têm um criadouro científico para preservação e estudos na UENF. O Setor de Etologia, Reintrodução e Conservação de Animais Silvestres (SERCAS) acaba de passar por melhorias estruturais e reforça, ainda mais, sua importância junto às atividades de conservação, educação ambiental e divulgação científica da UENF.

As ações do SERCAS, que funciona como projeto de extensão na universidade, são mais uma forma de a UENF engajar a comunidade e produzir estudos científicos voltados à conservação de espécies ameaçadas de extinção. O responsável pelo setor é o professor Carlos Ramón Ruiz Miranda.

Professor Carlos Ramón Ruiz Miranda enquanto acompanhava as obras, já finalizadas, do SERCAS/UENF (Foto: Clara Freitas)

Reprodução de aves da Mata Atlântica é uma realidade na UENF

Conhecidas como “jardineiras da floresta”, as exuberantes jacutingas (Aburria jacutinga) — ave endêmica da Mata Atlântica classificada como “em perigo de extinção” — são cruciais na dispersão de sementes de frutos, especialmente da palmeira-juçara.

Por sua importância para a natureza, há dez anos o SERCAS está focado na reprodução de jacutingas e tem contribuído com programas de conservação da espécie, por meio, por exemplo, da Sociedade para a Conservação de Aves do Brasil (SAVE Brasil).

— Além de contribuir para a formação de uma população de segurança para a espécie, sob cuidados humanos, o SERCAS beneficia as jacutingas com pesquisas que buscam maximizar informações importantes para a conservação da espécie, como comportamento, ecologia e ontogenia (desenvolvimento do indivíduo desde a concepção até a maturidade).

Segundo o responsável pelo SERCAS, professor Carlos Ramón Ruiz Miranda, este trabalho parte de uma pergunta norteadora: “como criar animais de forma a maximizar a probabilidade de sucesso no retorno à natureza?”.

Dessa forma, a equipe do SERCAS consegue embasar cientificamente suas ações e otimizar as reintroduções, o monitoramento de espécies e as políticas públicas voltadas à conservação.

Entre nascimentos e transferências, 60 jacutingas já passaram pelo SERCAS, e cerca de 24 indivíduos foram reintroduzidos.

Além das jacutingas, incluindo pesquisas desenvolvidas com animais em vida livre e sob cuidados humanos, o SERCAS atua, principalmente, com espécies como o mico-leão-dourado, a preguiça-de-coleira do sudeste, o ouriço-cacheiro e o sagui-de-tufo-branco.

As diversas faces do SERCAS

No dia a dia do setor, alunos da UENF contribuem com o manejo alimentar e reprodutivo dos animais. Além do manejo, graduandos, mestrandos e doutorandos da UENF participam da coleta de dados e do desenvolvimento de projetos que buscam compreender a biologia das espécies e, neste momento, especialmente das jacutingas.

Doutorando em Ciências Biológicas, Henrique Simfrone (Foto: Divulgação)

— Uma outra face do setor, em parceria com a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), envolve pesquisas desenvolvidas na Reserva Biológica União (REBIO), na Área de Proteção Ambiental (APA) da Bacia do Rio São João (RJ) e na Fazenda Caruara, junto à empresa GNA. Nessas parcerias, os alunos desenvolvem projetos sobre o uso de passagens de fauna, ecologia da paisagem e distribuição de mamíferos terrestres — destaca o doutorando e Ecologia e Recursos Naturais, Henrique Simfrone, que acompanha de perto os trabalhos do SERCAS.

As ações de reintrodução realizadas junto a parceiros como a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) envolvem o monitoramento da população de micos, sua conservação e a avaliação da necessidade de implementação de estruturas de passagem de fauna na região de ocorrência da espécie, especialmente em áreas cortadas por gasodutos e estradas.

Conservação da floresta de baixada do Rio de Janeiro

Segundo Simfrone, parcerias do SERCAS, como a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) e a Sociedade para a Conservação de Aves do Brasil (SAVE Brasil), são de extrema importância para o desenvolvimento dos trabalhos.

— Junto à Associação Mico-Leão-Dourado, realizamos pesquisas na REBIO União e na APA da Bacia do Rio São João, com foco na conservação da floresta de baixada do Rio de Janeiro. Essa parceria desenvolve estudos sobre fragmentação de habitat, conservação do mico-leão-dourado e eficiência de passagens de fauna — explica Henrique.

O doutorando acrescenta que, em parceria com a Sociedade para a Conservação de Aves do Brasil, a equipe do SERCAS desenvolve o projeto de conservação e reintrodução de jacutingas na Serra da Mantiqueira (SP).

— Nessa parceria com a SAVE, realizamos a soltura de indivíduos e desenvolvemos estudos voltados à análise da ecologia populacional das jacutingas — destacou.

Grandes experiências para os discentes

Bolsista de apoio no SERCAS e graduanda em Ciências Biológicas na UENF, Helena Almeida fala sobre sua maior descoberta dentro do projeto.

Graduanda em Ciências Biológicas na UENF, Helena Almeida (Foto: Divulgação)

— Minha maior descoberta positiva foi conhecer melhor a jacutinga (Aburria jacutinga). Durante meu período no SERCAS, pude compreender a importância dessa ave, que é endêmica da Mata Atlântica e está ameaçada de extinção, o que tornou essa experiência ainda mais marcante para mim. Ao acompanhar e estudar a espécie, percebi o papel fundamental que ela desempenha na regeneração da floresta — destacou.

Já Dinah Vital Brazil, bolsista de extensão e graduanda em Zootecnia na UENF, ressaltou o cuidado na condução do manejo dos animais e a complexidade dos protocolos envolvidos no trabalho com animais silvestres e nos ambientes em que vivem.

— Isso se torna ainda mais relevante porque os animais com os quais trabalhamos são espécies em risco de extinção, endêmicas da Mata Atlântica e de grande importância ecológica. O que mais me surpreendeu foi perceber o quanto ainda sabemos pouco sobre esses animais e o quanto precisamos avançar passo a passo. Esse processo é essencial para o progresso científico. Estamos todos no mesmo barco: tentando aprender, melhorar e oferecer as melhores condições possíveis para os animais sob nossos cuidados — afirmou.

A voluntária do SERCAS, Pillar Barbosa, estudante de Zootecnia na UENF, destacou o quanto sua área está diretamente relacionada ao trabalho com diferentes espécies animais.

— No projeto, percebi a importância de uma boa nutrição e a preocupação da equipe interdisciplinar com a alimentação dos animais. Como a jacutinga é uma espécie pouco estudada, todos — biólogos, zootecnistas, médicos veterinários, geógrafos, entre outros — estão aprendendo juntos sobre seu comportamento, alimentação, tempo de vida e real importância ecológica — analisou.

Pillar acrescentou ainda que “perceber, no dia a dia, que cada jacutinga é um indivíduo único, com seu próprio comportamento, seletividade alimentar e características específicas, fez com que todos passassem a olhar esse trabalho com ainda mais cuidado e sensibilidade”.

(Jornalista: Thábata Ferreira – Fotografia: Clara Freitas/Divulgação)

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