Evento, que fez parte da programação do Mês da Mulher na UENF, contou com palestra da professora da UERJ, Vânia Morales Sierra

Nesta quinta-feira, 12/03/26, no Auditório Multimídia do Centro de Ciências do Homem (CCH), o Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) realizou a aula magna dos cursos de mestrado e doutorado com a professora associada da Faculdade de Serviço Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Vânia Morales Sierra, que ministrou uma palestra sobre o tema “A centralidade do cuidado na reprodução social: trabalho, direitos e fundamentos éticos-políticos”.
O evento, que fez parte da programação do Mês da Mulher na UENF, foi aberto pelo coordenador do PPGSP, David Maciel, e teve a participação da pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UENF, Maria Cristina Canela. Também esteve presente a coordenadora emérita do PPGSP, Wania Mesquita.
A pró-reitora deu as boas vindas aos ingressantes de 2026.
– Espero que vocês aproveitem ao máximo esta oportunidade. O programa de Sociologia Política é bastante conceituado, tanto na UENF, quanto na CAPES. Vocês têm um corpo docente bastante competente e estão em boas mãos – afirmou Maria Cristina.
Na palestra foi debatida a centralidade do cuidado na reprodução da vida social e sua relação com as desigualdades de gênero, raça e classe no capitalismo.
– O cuidado foi concebido como uma prática fundamental para a vida humana, pois todos os indivíduos passam por diferentes fases do ciclo de vida (infância, adolescência, vida adulta e velhice), marcadas por diferentes graus de dependência e autonomia. Apesar de estar presente em todos os momentos da vida, o cuidado costuma ser invisibilizado e tratado como tarefa doméstica, e não como trabalho – informou Vânia.
A partir da teoria da reprodução social, a professora da UERJ argumentou que não existe uma separação real entre esfera econômica e esfera doméstica.
– As atividades realizadas no âmbito da família, como cuidar, alimentar, educar e manter as pessoas, são essenciais para reproduzir a força de trabalho e, portanto, para o funcionamento do capitalismo. Grande parte desse trabalho é não remunerado e realizado por mulheres, sendo frequentemente justificado pela ideia de que se trata de uma atividade feita por amor ou vocação – destacou Vânia.
Segundo a pesquisadora, historicamente, as mulheres sempre trabalharam, mas a partir do século XIX construiu-se um discurso que naturalizou a divisão sexual do trabalho, associando os homens ao trabalho produtivo e as mulheres ao trabalho reprodutivo.
– Essa divisão contribuiu para a desvalorização do trabalho feminino e para a atribuição do cuidado como uma atividade “naturalmente feminina”. No Brasil, essa dinâmica se articula também com a questão racial, pois muitas mulheres negras foram historicamente inseridas em trabalhos domésticos e de cuidado, reproduzindo heranças do período escravista. Assim, o cuidado remunerado frequentemente se apresenta em condições precárias, com baixos salários e poucos direitos – ressaltou Vânia.
Para a professora da UERJ, a partir da década de 1970, com o aumento da participação feminina no mercado de trabalho e o envelhecimento da população, surgiu o debate sobre a “crise do cuidado”.
– Essa crise se intensifica com o neoliberalismo e a redução das políticas sociais, que transferem novamente para as famílias, e principalmente para as mulheres, a responsabilidade pelo cuidado. Enquanto famílias de maior renda podem pagar por esses serviços, famílias pobres recorrem a redes de parentes, vizinhos e comunidade – frisou Vânia.
A pesquisadora comentou ainda que dados recentes mostram que as mulheres dedicam significativamente mais tempo ao trabalho doméstico e de cuidado do que os homens e recebem, em média, salários menores, mesmo tendo níveis de escolaridade elevados. E que a presença de filhos e de idosos aumenta ainda mais a carga de trabalho reprodutivo das mulheres.
A professora Vânia concluiu a sua palestra, afirmando que para compreender o trabalho de cuidado é preciso analisar como o capitalismo organiza a reprodução social a partir de hierarquias de gênero e raça, mantendo a desvalorização do trabalho reprodutivo e a responsabilização das mulheres por atividades essenciais para a manutenção da sociedade.
(Jornalista e Foto: Wesley Machado / ASCOM UENF – Com informações de Vânia Morales Sierra)



