Cientistas da UENF descobrem nova espécie arbórea em Morro do Coco

Espécie nova e rara de Rubiaceae é descoberta em floresta de cume na Pedra do Baú, Campos dos Goytacazes, por doutorando do PPGERN e Herbário HUENF.

Vista geral da Pedra do Baú e do Bauzinho

Uma espécie nova de planta de um ambiente tão singular quanto ameaçado: uma floresta de cume de um inselberg (formação rochosa isolada que se eleva e ganha destaque na paisagem, constituída de granito e/ou gnaisse) acaba de ser descrita para a ciência. Trata-se de Rudgea bauensis Marcon & Bruniera, uma espécie arbórea de pequeno porte pertencente à família Rubiaceae, registrada na Pedra do Baú, no distrito de Morro do Coco, em Campos dos Goytacazes, norte do estado do Rio de Janeiro.

A descoberta foi realizada por um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), durante expedições de campo voltadas à coleta de dados para a tese de doutorado de João Mário Comper Covre, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN), orientado pelo professor Marcelo Trindade Nascimento (LCA/CBB) e coorientado pelo doutor Dayvid Rodrigues Couto (UFES – VIES). A espécie foi registrada e coletada em outubro de 2023, sendo posteriormente incorporada à coleção científica do herbário HUENF.

A espécie foi descrita pela pesquisadora Samantha Favero Marcon, atualmente doutoranda do Programa de Pós Graduação em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente do Instituto de Pesquisas Ambientais, sob orientação da professora Carla Poleselli Bruniera, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo foi publicado no artigo intitulado “Three new species of Rudgea Salisb. (Palicoureeae, Rubiaceae) from the Atlantic Forest of southeastern Brazil, a diversity center for the genus”, na revista científica Phytotaxa. https://phytotaxa.mapress.com/pt/article/view/phytotaxa.749.3.3

A planta foi encontrada em uma ilha de floresta de cume a cerca de 720 m de altitude, com aproximadamente 50 hectares e isolada da matriz florestal do entorno (pastagens e áreas em regeneração natural de Floresta Estacional Semidecidual).

A espécie chama atenção por suas características morfológicas únicas, como inflorescências praticamente sem pedúnculo, estípulas recobertas por apêndices espiniformes, folhas glabras com base atenuada e presença de domácias (ver fotos). Esses atributos a diferenciam de espécies próximas dentro do gênero Rudgea.

Apesar da relevância científica, a espécie ainda é considerada pouco conhecida. Até o momento, foi registrada apenas uma vez, o que levou os pesquisadores a classificá-la como “Dados Insuficientes” (Data Deficient), indicando a necessidade de mais estudos para compreender sua distribuição, ecologia e grau de ameaça.

— Além da raridade, o local onde a espécie ocorre enfrenta pressões significativas. A caça de animais silvestres é uma das principais ameaças, comprometendo populações de dispersores de sementes, fundamentais para a regeneração e manutenção da diversidade vegetal. Sem esses animais, o ciclo de vida de diversas espécies de plantas, incluindo Rudgea bauensis, pode ser afetado. Outro fator preocupante é a ausência de proteção legal: a Pedra do Baú não está inserida em nenhuma unidade de conservação. Isso aumenta a vulnerabilidade dessa área, que já se encontra inserida em uma paisagem fragmentada e sob influência de atividades humanas — afirma o professor Marcelo Trindade.

Segundo o professor, a descoberta de Rudgea bauensis reforça a importância dos inselbergs como refúgios de biodiversidade e destaca a urgência de ações voltadas à sua conservação. Mesmo em regiões consideradas relativamente bem estudadas, novas espécies continuam sendo reveladas, muitas delas já sob risco antes mesmo de serem conhecidas pela ciência.

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