Histórias e memórias da TV e do cinema campistas em pauta na Rádio UENF

Luiz Carlos Pires, Osiel Azevedo e Antônio Filho fizeram viagem no tempo e lembraram personagens que marcaram época na comunicação e na arte regionais

Luiz Carlos Pires, Osiel Azevedo e Antônio Filho, com Giu de Souza

Uma viagem no tempo pela história da comunicação e da arte regionais por meio do universo audiovisual campista. Assim foi a edição especial do quadro “Bom Dia UENF Entrevista”, da Rádio UENF 87.1FM, que recebeu o servidor da UENF e pioneiro na televisão (TV) da região, Luiz Carlos Pires; o cinegrafista de mais de quatro décadas, Osiel Azevedo; e o jornalista, pesquisador e escritor, Antônio Filho. Em pauta, as memórias dos 45 anos da primeira transmissão de TV em Campos dos Goytacazes-RJ, comemorados no dia 16/07/26, e do antigo projeto da Escola Brasileira de Cinema e Televisão da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).

Primeiro cameraman da TV Norte Fluminense, Luiz Carlos Pires lembrou os profissionais que trabalharam na implantação da emissora dois anos antes de ir ao ar pela primeira vez, em 1981:

— Quem deu treinamento da parte de câmera foi o Silas Bastos, que era o chefe dos cinegrafistas do Globo Repórter e veio para Campos, ficou um período aqui de aproximadamente dois anos dando treinamento. O Adalberto Leandro deu a parte de videotape, edição, e o Marcos Damiano a parte de produção. O Paulo Jorge também na parte de direção, várias outras pessoas que vieram para colaborar com a gente que estava começando a descobrir uma coisa chamada linguagem audiovisual — destacou Pires.

Contratado para trabalhar na TV Norte Fluminense em 1982, ano seguinte à primeira transmissão, Osiel Azevedo também contou quais foram as pessoas que lhe ajudaram no começo da televisão na região, na década de 1980:

— Além do Pires, tiveram outros profissionais de câmera que foram meus mentores e me ajudaram muito, como Antônio Braga Filho. No começo, tive dificuldades, mas, com a ajuda e o esforço, aprendi um pouco. Até hoje aprendo — afirmou Osiel, que em seguida recordou outros cinegrafistas marcantes, como André Castheloge, Júnior Marins, Mauro Antônio Ferreira, Maurício Ferreira, Renato Balbone e Gilberto Morais, entre outros.

Antônio Filho complementou a fala de Osiel ao evocar, em memória, os cinegrafistas Sérgio Batista e Tony Batista, ambos falecidos, sendo que o último faleceu em 2025. O pesquisador ainda enfatizou alguns jornalistas de TV que marcaram época e deixaram saudade, casos de Nicolau Louzada e Luis Mauricio de Souza e Silva.

Antônio Filho é autor do livro Telejornalismo Campista – A História da TV Aberta em Campos dos Goytacazes, publicado em 2015 e que ganhou segunda edição em 2021 com o título Telejornalismo Campista – 40 anos de história da TV aberta em Campos dos Goytacazes.

Osiel comentou sobre as dificuldades que teve no início da carreira de cinegrafista, que vai completar 44 anos no final de 2026:

— A gente que fez televisão esse tempo todo, no início, tinha muita dificuldade. Havia equipamento que você tinha que se virar na rua ‘prá’ ajeitar. Às vezes tinha que usar uma chavezinha de fenda ‘prá’ poder ele funcionar porque sujava a cabeça da fita e você tinha que limpar. Então você era o cinegrafista e era o técnico. Você ‘tá’ em Itaperuna, deu problema lá, você ia lá e consertava o equipamento ‘prá’ você dar continuidade ao seu trabalho. Senão você perdia a matéria que você ia fazer. A gente tinha essa dificuldade também na época. A tecnologia veio e as coisas foram mudando — disse Osiel.

Pires rememorou a primeira câmera que usou e pesava mais de 12 quilos:

— Eu tinha que carregar no ombro. Doze quilos e oitocentos, eu acho. Era a KCA-90 da Bosch. E os equipamentos de edição eram BCN20, que era o VT portátil, aquela caixa pesada que o operador tinha que carregar e depois passar por edição, as BCNs 40 e 50. Era fita de rolo — relembrou Pires, também evocando um vulto de destaque na comunicação regional, como o ex-deputado federal e empresário, Alair Ferreira, que, tanto para Pires quanto para Osiel, foi definido como um “visionário”. A Alair Ferreira somaram-se, em outras épocas e escalas, os empresários Maurício Nani (em memória), Juarez Gomes, Claudio Manhães, Dudu Linhares, e Gustavo, lembrado por Pires como o “filho de Galdino”.

Por sua vez, Antônio Filho comunicou o fato de Campos ter “há muito tempo” retransmissões de outros canais, como a própria Globo, via Gazeta do Espírito Santo, Manchete, Tupi e Excelsior, mas de acordo com o pesquisador, a TV Norte Fluminense trouxe a realidade regional para a tela:

— Essa chegada da TV local, com as janelas que foram se ampliando com o tempo, trouxe esse momento do jornal local, do informe da cidade, da região. Era o momento de você ver essa realidade, de dizer: eu conheço aquela pessoa. E, mais do que isso, de você ver no vídeo essas pessoas da terra. Eu conheço aquele repórter, foi meu vizinho. Então, alguém conhece, conviveu, essa coisa de cidade interior, que a gente conserva até hoje, que é algo mágico — considerou Antônio, que fez questão de trazer à lembrança o apresentador de telejornal Manoel Peçanha, “o nosso Cid Moreira”, na definição do pesquisador, e que, recordou, está completando 20 anos de saudade em 2026.

Pires informou também que Manoel Peçanha começou como locutor de rádio com o nome de M. Silva:

— A TV em Campos começou como um rádio televisionado. O Giannino (Sossai), José Luiz Azevedo, o primeiro apresentador noticiarista de televisão, Alba Toledo, Antônio Cláudio Perrout, todas essas pessoas eram profissionais de rádio — explicou Pires.

Por fim, ainda sobre os jornalistas de TV, Osiel citou Rose David e Antônio se referiu também a Marisela Cunha.

Projeto da Escola Brasileira de Cinema e Televisão da UENF

Em um segundo momento da entrevista, Pires falou sobre o projeto da Escola Brasileira de Cinema e Televisão da UENF:

— Fui o único funcionário com carteira assinada registrada pela Escola Brasileira de Cinema e Televisão. A cabeça do projeto, chamada pelo governador da época, Leonel Brizola, era o Orlando Senna, que também era diretor da Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba — observou.

O servidor discorreu mais sobre o projeto da Escola de Cinema e Televisão da UENF:

— O Orlando veio, o Darcy Ribeiro escolheu o Solar dos Jesuítas para sediar a Escola de Cinema, e aí começou a obra. Já estávamos trabalhando na licitação dos equipamentos quando houve a mudança política, saiu o PDT, entrou o PSDB com o senhor Marcello Alencar, que entendeu que não deveria dar continuidade e extinguiu o projeto — revelou.

Pires aludiu à equipe de Orlando Senna, formada ainda por Conceição Senna, que era responsável pela parte institucional de mídia e divulgação; Alfredo Calvino, responsável pela produção; Patrícia Calvino, na administração e produtora geral; também a Andrea daMatta, que fez parte da escola de Cinema, entre outras pessoas, como Dejacira de Azevedo, que ajudou a produzir o primeiro filme da Escola de Cinema e TV da UENF, “Sob o Domínio da Fé”.

A seguir, Pires relatou como surgiu o filme “Sob o Domínio da Fé”:

— Dos 32 cursos que foram realizados pela Escola de Cinema e Televisão da UENF na Villa Maria, um deles foi o curso de roteiro, que o Orlando Senna ministrou, e a avaliação final do curso seria cada aluno escrever um roteiro. Aí, escrevi o roteiro, o roteiro ganhou, entre os outros que foram escritos, e aí o Orlando Senna falou: olha, vamos produzir esse filme — contou.

O cineasta detalhou como foi realizado o filme, que foi premiado em Cuba:

— Reunimos um grupo de pessoas ligadas ao Teatro Amador de Campos, a Maria Helena Gomes, o Orávio de Campos Soares, que inclusive levou o grupo Afro, porque ele estava fazendo uma apresentação e fez a parte sonora de boa parte do filme. Tantas outras pessoas trabalharam, Ricardo Siqueira, Marcelo Gama, Rodrigo Espinosa, Kall Freitas — enumerou.

Além da exibição no então maior cinema de Cuba, o Cine Yara, de Havana, e a premiação, outro filme produzido por Pires chegou ao famoso Festival de Cinema de Gramado, onde ficou em quinto lugar entre 157 filmes universitários do país inteiro, em uma nova onda do audiovisual na UENF. Pires contou como foi esta fase.

— Eu já trabalhava numa matéria aqui, do professor Marcelo Gantos, que também participou do filme. Ele, a professora Teresa Peixoto, Luis Passoni, que era reitor à época, professora Simone Teixeira, várias outras pessoas. O diferencial é que o “Filmeto de Alquimia” nasceu dentro dessa disciplina, que era “Técnicas de vídeo aplicadas à pesquisa” — informou.

O quadro “Bom Dia UENF Entrevista”, apresentado pelo jornalista Giu de Souza, foi ao ar na sexta-feira, 24/07/26, na Rádio UENF 87.1FM, com produção e roteiro de Giovanna Toledo, Geovanna Cavoli e Thábata Ferreira, suporte técnico de Thiago Henriques, e cobertura para as redes sociais, com fotos e vídeos de João Félix, Lívia Guimenes e Raquel Carvalho. A direção geral é de Vitor Sendra.

(Jornalista: Wesley Machado — Fotografia: Raquel Carvalho — ASCOM UENF)

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