
O Parque Tecnológico Agropecuário Johanna Dobereiner (PARTEC/UENF) já é uma realidade. A inauguração do espaço — que vai conectar a Universidade ao setor produtivo — foi realizada na tarde de ontem, 28/08/25, numa cerimônia que contou com um público expressivo, formado por agentes públicos, representantes dos setores produtivos, científicos e educacionais, além de membros da comunidade acadêmica da UENF.
O PARTEC/UENF está funcionando no antigo prédio que seria destinado a uma biofábrica, situado na área do Colégio Agrícola Antônio Sarlo — hoje pertencente à Universidade. O prédio, reformado com recursos da Faperj, vai abrigar inicialmente 25 startups de egressos da UENF que transformaram suas pesquisas científicas em soluções inovadoras e negócios de alto impacto. No local, as empresas receberão estrutura de apoio, assessoria técnica e acesso a redes de pesquisa e financiamento.
A mesa solene contou com a presença da reitora da UENF, Rosana Rodrigues; do vice-reitor, Fábio Lopes Olivares; do diretor de Inovação da UENF, Gonçalo Apolinário; da presidente da Faperj, Caroline Alves da Costa; e do secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, Anderson Moraes.

— Este é um momento histórico, não só para a nossa Universidade, mas para esse município, essa região e para todo o Estado. Estamos lançando mais algumas sementes que, temos certeza, vão germinar e gerar muitos frutos, trazendo o que Darcy e Brizola sempre imaginaram quando aceitaram o desafio proposto pelo povo de Campos de colocar uma universidade pública nesse município — disse a reitora.
Rosana agradeceu os reitores Raul Palácio (2020-2023) e Luís Passoni (2016-2019) por terem dado início às primeiras ações para a instalação do Parque Tecnológico. Também agradeceu à Faperj, por ter financiado 100% da obra de reforma do prédio, bem como à Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, por sempre ter apoiado todas as propostas levadas pela UENF.
— Uma universidade pública tem que ser capaz de transformar o território, a vida das pessoas, a vida de seus estudantes e dos que estão no seu entorno. É por isso que temos esse viés muito forte na questão do desenvolvimento econômico e social, com respeito ambiental e justiça social — afirmou.

Rosana também ressaltou que o Parque será um espaço inovador para a agricultura regenerativa, lembrando que o momento atual requer muito empenho na produção de alimentos.
— Precisamos de uma mudança de visão, precisamos quebrar alguns paradigmas sobre a produção agrícola, desmistificar várias coisas. Então é importante que tenhamos um espaço para a produção de produtos biotecnológicos baseados em bioeconomia, em insumos biológicos que respeitam o ambiente, os agricultores e quem vai consumir os produtos. E isso pode significar um futuro muito diferente para essa região e Estado — disse.
O vice-reitor da UENF disse que o Parque Tecnológico nasce inspirado pelo legado de uma das mulheres mais proeminentes da ciência brasileira: Johanna Dobereiner, com quem teve a satisfação de iniciar sua trajetória acadêmica. Segundo Fábio Olivares, Johanna sedimentou o nome do Brasil como vanguarda mundial no uso de insumos biológicos aplicados a agroecossistemas, atuando na Embrapa Agrobiologia em Seropédica (RJ).
Ele também destacou o papel importante do reitor Raul Palacio, bem como da TEC Campos e da Agência UENF de Inovação. Ressaltou ainda a participação do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia Vegetal que, segundo afirmou, tem sido um dos principais fomentadores para a transformação do conhecimento científico em produtos e processos de grande impacto social.

— Para além da produção de artigos científicos e da formação altamente qualificada, a conversão do conhecimento produzido na nossa universidade em soluções viáveis para a sociedade é, em ultima instância, o mais nobre dos feitos de uma instituição publica de ensino e pesquisa. Que esse Parque, inspirado pela historia de Johanha Dobereiner, cresça, floresça e se consolide como agente transformador da realidade do nosso Estado. Levando desenvolvimento sustentável, emprego, renda e esperança para o futuro — afirmou.
O diretor da Agências UENF de Inovação, Gonçalo Apolinário, disse que o PARTEC surge para suprir uma lacuna na Universidade. Segundo ele, a UENF se tornou uma universidade fortemente qualificada na geração de conhecimento, na ciência de ponta, ganhando prêmios em várias instâncias (graduação, mestrado e doutorado), porém era necessário uma interface capaz de mudar a realidade socioeconômica da região — conforme preconizado por Darcy Ribeiro, idealizador da Universidade.
—Darcy disse que ia construir uma universidade diferente das outras que ele tinha construído. Ele dizia que a UENF teria como diferencial o fato de ser fortemente baseada em ciência. Os cientistas aqui formariam jovens com uma visão inovadora capaz de gerar conhecimento e novas pessoas capacitadas. Além disso, seríamos capazes de gerar tecnologias capazes de promover o desenvolvimento científico e tecnológico da região, mudando a vida das pessoas daqui — disse.

Ele afirmou que o Estado do Rio de Janeiro forma cerca de 3 mil doutores a cada ano, mas as vagas em concursos não ultrapassam 500, o que tem gerado frustração e desestímulo aos jovens estudantes.
— Paradoxalmente, o setor produtivo sofre por uma baixa tecnificação e perde competitividade. Como solucionar isso? Uma das soluções nas quais acreditamos é que é possível mudar ao entender que parte de nossos jovens da academia, senão da própria sociedade, tem como principal vocação o empreendedorismo — disse.
O secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação disse que o PARTEC será importante não só para o Estado, como para o país. Ele ressaltou que o Brasil tem vocação para a agricultura e que um quarto da população mundial consome os produtos do agro brasileiro. Anderson Moraes falou ainda sobre o importante papel da Faperj para o desenvolvimento do Estado, lembrando que ela vive de 2% de toda a receita líquida do Estado.
— Mas não adianta nada ter recursos se não temos vocês, cientistas, pesquisadores, para poder pensar sobre o que devemos executar através da nossa fundação de amparo à pesquisa. Então existe um papel social dentro da instituição e também um comprometimento de forma que possamos elevar cada vez mais o nosso Estado. Hoje a Faperj vem no caminho certo, acreditando no desenvolvimento econômico do Estado, mas acreditando mais ainda num futuro melhor para a nossa juventude, nossos pesquisadores e cientistas.

A presidente da Faperj se declarou muito feliz por mais um passo no processo de desenvolvimento econômico do Estado do Rio de Janeiro. Ela lembrou que a Fundação vem investindo fortemente na área tecnológica e de inovação, com cerca de 250 startups incubadas em seu hub de inovação e 12 milhões em investimentos.
— Fico feliz nesse momento. Eu visito muito a região, estou sempre por aqui conhecendo os problemas para pensar em soluções. Desde que assumi, o secretário me solicitou que a gente pudesse investir não só na área científica, mas também na área tecnológica e de inovação. Começamos com o Doutor Empreendedor, empresas juniores, então a gente vem num processo para que possamos acelerar essa formação dentro das universidades, pensando no desenvolvimento — disse.
Também presente à inauguração, a presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Alerj, deputada Elika Takimoto, disse que o momento é histórico.
A UENF já modificou toda a cara da região, não só aqui de Campos mas de todo o Brasil e do mundo, porque a entrega é muito grande. Porque quando a gente faz uma pesquisa, o conhecimento é do mundo, já não é mais nosso. Então é uma honra estar aqui. Os frutos que vamos colher daqui serão muitos. Acho que todos aqui têm o mesmo sonho, a mesma esperança e a mesma certeza: que isso aqui vai ser histórico para o Brasil e exemplo para o mundo — disse.

Johanna Dobereiner, uma cientista à frente de seu tempo
O PARTEC/UENF leva o nome de uma das maiores cientistas brasileiras, Johanna Dobereiner, que se notabilizou por quebrar um paradigma — a substituição do uso de fertilizantes minerais pela fixação biológica de nitrogênio nas plantas.
Nascida na Checoslováquia, Johanna Dobereiner iniciou as pesquisas sobre fixação biológica de nitrogênio (FBN) em leguminosas tropicais no início da década de 1960, na contramão inclusive dos pesquisadores americanos, que elaboravam tecnologias de produção apoiadas no uso intensivo de adubos nitrogenados.
As pesquisas de Johanna influenciaram o programa brasileiro de melhoramento de soja, iniciado em 1964, assim como outras pesquisas nas regiões tropicais. Seus estudos permitiram que a fixação do nitrogênio pelas plantas fosse feita pela bactéria rhizobium. A alternativa permitiu a eliminação dos adubos nitrogenados na cultura da soja, gerando uma economia anual de mais de 2 bilhões de dólares para o Brasil, o que levou os produtores brasileiros a competirem no mercado internacional com sucesso.
O pesquisador José Ivo Baldani, da Embrapa, que atuou 25 anos com Johanna, também participou da cerimônia. Ele afirmou que Johanna Dobereiner faz jus ao nome do PARTEC pelo legado que ela deixou nos 50 anos de pesquisa em Seropédica. Ele ressaltou que o foco da cientista, naturalizada brasileira e falecida em 2000, sempre foi a agricultura sustentável.
— Ela conseguiu levar para o mundo a importância da fixação biológica do nitrogênio. Ela fazia aquele trabalho de bastidores, sempre buscando recursos. Com muito carinho, conseguiu levar o nome do Brasil e os conhecimentos dela para o mundo. Um fato importante, que muitos desconhecem, foi a participação dela na fixação biológica do nitrogênio na soja. E também foi a primeira a levar à frente os estudos da fixação biológica de nitrogênio em gramíneas. Hoje vemos aí alguns insumos produzidos a partir das ideias da professora Johanna. Fico muito grato por essa homenagem — disse.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Cassiane Falcão – ASCOM/UENF)
