Aumento da perfuração de poços profundos na região — sem estudos de impacto ambiental — pode ser uma ameaça ao Aquífero Emborê, que abriga água fóssil de 20 mil anos

É no subsolo que está localizado um dos maiores patrimônios geológicos do Norte Fluminense: o Aquífero Emborê. Maior reserva de água subterrânea do Estado do Rio de Janeiro, o Emborê abriga o que os cientistas chamam de “paleoágua” — uma água fóssil de 20 mil anos com cerca de 200 metros de profundidade.
Mas toda essa riqueza natural está em risco. Nos últimos anos, com a diminuição dos níveis do Rio Paraíba do Sul, houve um aumento significativo na perfuração de poços profundos em toda a região, sem que tenham sido realizados estudos suficientes a respeito da recarga do aquífero — ou seja, ainda não se sabe qual o impacto da retirada contínua de água do Emborê.
Segundo a geóloga Maria da Glória Alves, professora do Laboratório de Engenharia Civil da UENF (LECIV), o Aquífero Emborê ainda é pouco conhecido sob o ponto de vista de suas reservas hídricas, e mesmo de seus aspectos hidroquímicos, a despeito de seu uso em grande escala nos últimos anos.
— Fala-se muito na defesa dos recursos hídricos, mas pouco se fala das águas subterrâneas. Não podemos continuar retirando água sem saber os impactos disso no aquífero. E hoje muitas cidades da região só são abastecidas com poços profundos. Se foi identificada água fóssil de 20 mil anos, isso significa que não vêm ocorrendo uma recarga do Emborê compatível com a retirada da água que ali se encontra — diz.
Ela comenta que a água subterrânea é um importante recurso na bacia sedimentar de Campos dos Goytacazes, localizada na margem costeira da região Norte Fluminense, sendo utilizada conjuntamente com as águas superficiais para usos domésticos, industriais e irrigação de culturas agrícolas.
— Períodos prolongados de estiagem nos últimos anos reduziram significativamente os níveis de água do rio Paraíba do Sul, intensificando a necessidade de investigações científicas sobre as águas subterrâneas dessa região, pois ocorreu um aumento na perfuração de poços profundos e na utilização desse recurso. Em especial no aquífero Emborê, o melhor aquífero do Estado do Rio de Janeiro, esse aumento de perfurações de poços e uso da água subterrânea foi muito significativo — diz.
Dentre os diversos trabalhos e pesquisas realizados neste sentido, o principal foi o “Projeto Emborê”, no qual uma equipe da UENF e da UFRJ, com apoio do DRM, UFF e IST-Lisboa, conseguiu chegar a resultados preliminares sobre o potencial do aquífero. O projeto foi possível devido a um convênio entre na ANP/Petrobras, UFRJ e UENF em 2014.
Segundo Maria da Glória, nesses estudos foram feitos levantamentos petrofísicos, estratigráficos, geofísicos e hidrogeológicos. Foram ainda avaliadas as características físico-químicas das águas subterrâneas, a taxa e recarga dos aquíferos, o background hidroquímico, como também a vulnerabilidade dos aquíferos livres.

Os levantamentos resultaram em mapas diversos e geraram cartas temáticas e aspectos hidrodinâmicos, que contribuíram para a avaliação da espessura total dos aquíferos da Bacia, seus contornos, características hidrodinâmicas e hidrogeoquímicas.
— Quanto à sua disponibilidade hídrica, o Aquífero Emborê é um aquífero confinado, com toda a incerteza que cerca a estimativa de sua recarga. Isso gera uma dificuldade e a simultânea necessidade de estabelecer uma percentagem da reserva renovável para ser utilizada como o recurso hídrico — afirma a geóloga.
Ela observa que um estudo realizado em 2020 por Correa, ao analisar dados isotópicos de 14C, observou a existência de paleoáguas no aquífero Emborê – fácies Emborê.
— Este tipo de análise faz distinção entre a recarga moderna e aquelas ocorridas de uma outra fonte ou em algum momento no passado — afirma.
Já Lapasta, em 2018, chamou a atenção sobre estudos climáticos e apresentou previsões um tanto pessimistas para a região. Assim, na opinião da geóloga da UENF, é imperativo que se chegue a uma determinação confiável da recarga do aquífero Emborê.
— É necessário continuar os estudos para se saber a disponibilidade hídrica do Aquífero Emborê e suas reservas exploráveis, pois é preciso garantir água para a população do futuro. Se a extração de água desse aquífero continuar sem uma gestão integrada, esse futuro pode não estar muito longe — diz.
Em 2014, o Plano Estadual de Recursos Hídricos (PERHI-RJ) (COPPETEC/INEA) já chamava a atenção sobre a necessidade de implementar estudos sobre potencial hídrico da área, particularmente do aquífero Emborê.
— A perspectiva do desenvolvimento de várias atividades econômicas na região, particularmente no setor de óleo e gás, o Porto do Açu e o tradicional setor agroindustrial, bem como o consequente aumento da ocupação humana, tornam imperiosa a necessidade de melhor conhecimento de seus recursos naturais — conclui a geóloga.

Aquíferos concentram maior parte da água doce do planeta
Embora ¾ do planeta Terra sejam cobertos por água, a maior parte dela está nos oceanos — portanto, a maior parte da água do planeta é salgada e não apropriada ao consumo. A água doce existente no planeta corresponde a apenas 2,5% de toda a água do planeta. E, deste percentual, a maior parte da água doce líquida se encontra no subterrâneo. São os chamados aquíferos.
Reservatórios naturais de água subterrânea, armazenados em porções permeáveis de rochas ou sedimentos, os aquíferos desempenham papel fundamental na sustentação da vida na Terra.
São eles que fornecem os recursos hídricos essenciais para a manutenção de ecossistemas aquáticos, como rios, lagos, manguezais, pântanos, funcionamento de florestas, além do consumo humano, irrigação agrícola e atividade industrial.
— A gestão sustentável desses recursos é fundamental para garantir um suprimento hídrico seguro e saudável para as gerações presentes e futuras — afirma Maria da Glória.
De acordo com a formação rochosa na qual os aquíferos estão contidos, estes se dividem em três tipos básicos:
Os aquíferos granulares ou porosos são aqueles em que a água está armazenada e flui nos espaços entre os grãos em sedimentos e rochas sedimentares de estrutura granular. São exemplos os arenitos e aluviões.
Já os aquíferos fissurais são aqueles nos quais a água está presente nas fraturas e fendas das rochas cristalinas, como ocorre nos granitos, gnaisses e diabásios.
Por fim, os aquíferos cársticos ou cavernosos são aqueles nos quais a água se faz presente em cavidades produzidas pela dissolução causada pelas águas, como os calcários.
Os aquíferos podem ser reabastecidos localmente pela infiltração da água das chuvas — a chamada recarga direta, característica dos aquíferos livres. Nos aquíferos confinados, é mais comum a recarga indireta, em que o reabastecimento ocorre somente nos locais onde a camada que contém o aquífero aflora. Esses locais são denominados zona de recarga. Nos aquíferos fissurais, a recarga pode ser direta ou indireta, ou ambas, de acordo com as condições e local de ocorrência.
— A água subterrânea sempre foi vista como uma fonte inesgotável de abastecimento. Essa atitude não pode mais continuar. Embora trate-se de um recurso renovável, poucos aquíferos podem suportar enormes e indefinidas taxas de extração, na maior parte do mundo. Para assegurar suprimentos de água subterrânea para as gerações futuras, a extração de água de um aquífero nunca deve exceder a sua recarga — afirma Maria da Glória.
ONU alerta sobre necessidade de gerenciar águas subterrâneas
O Brasil abriga dois dos maiores aquíferos do mundo: o Guarani, localizado no Centro-Sul do país, e o Sistema Aquífero Grande Amazônia (Saga), na Região Norte.
Outros aquíferos importantes no mundo são o Arenito Núbia Líbia (que passa pelo Egito, Chade e Sudão), o Kalahari/Karoo (compartilhado pela África do Sul, Botsuana e Namíbia), o Grande Aquífero Artesiano (Great Artesian Basin – Austrália) e o Sistema Aquífero Ogalla (centro-oeste dos Estados Unidos).
— Os maiores aquíferos do planeta são de extrema importância devido ao seu tamanho e capacidade de sustentar vasta biodiversidade e atividades humanas — diz a professora.
De acordo com a última edição do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em nome da ONU-Água, o vasto potencial das águas subterrâneas e a necessidade de gerenciá-las de forma sustentável não podem mais ser negligenciados.

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“Cada vez mais recursos hídricos estão sendo poluídos, superexplorados e esgotados pelo ser humano, às vezes com consequências irreversíveis. Usar de forma mais inteligente o potencial dos recursos hídricos subterrâneos ainda pouco desenvolvidos e protegê-los da poluição e da superexploração são ações essenciais para atender às necessidades fundamentais de uma população global cada vez maior, bem como para enfrentar as crises climáticas e energéticas globais”.
(Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, 2022)
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“Melhorar a maneira como usamos e gerenciamos as águas subterrâneas é uma prioridade urgente para alcançarmos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. Os tomadores de decisão devem começar a levar em consideração as formas vitais pelas quais as águas subterrâneas podem ajudar a garantir a resiliência e as atividades da vida humana em um futuro no qual o clima está se tornando cada vez mais imprevisível”
(Gilbert F. Houngbo, diretor da ONU-Água e presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA)
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – ASCOM/UENF)



