Pesquisador da UnB lança livro no CCH/UENF

Edson Farias também vai ministrar aula nesta quarta-feira na Casa de Cultura Villa Maria

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) recebe esta semana o professor titular do Departamento de Sociologia e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), Edson Farias. O pesquisador realizou nesta terça-feira, 09/06/26, na Sala de Vidro do Centro de Ciências do Homem (CCH) o pré-lançamento do seu novo livro Política e Economia do Simbólico: Ensaios de Sociologia da Cultura. A publicação será lançada em Brasília em 17/06/26. No pré-lançamento no CCH, Edson Farias foi apresentado pelo professor e pesquisador da UENF, Fabrício Maciel. Compareceram ao evento os servidores recém empossados da UENF, Edimilson Júnio do Amaral Pessanha e João Ignácio de Medina, ambos técnicos de nível superior de História, lotados no Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico(LEEA), além de professores e estudantes da UENF e outras pessoas convidadas.

Na sequência de sua agenda em Campos dos Goytacazes-RJ, nesta quarta-feira, 10/06/26, às 9 horas, na Casa de Cultura Villa Maria, Edson irá ministrar como convidado uma aula na disciplina “Memória, Identidade Institucional e Extensão na UENF”, lecionada pela professora Wania Mesquita para o Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP).

Edson Farias é ainda autor dos livros: Percursos de pesquisa em cultura, memória e desenvolvimento (2025); Durações e redes de fluxos no cenário cultural contemporâneo (mercados, memória e consumo) (2019); Arte e cultura nas ciências sociais (2019); Retas que prosseguem em curvas: Tensões nos usos do contexto metropolitano brasiliense (2018); Faces contemporâneas da cultura popular (2017); Ócio e negócio: festas populares e entretenimento-turismo no Brasil (2011); Práticas culturais nos fluxos e redes da sociedade de consumidores (2010); O mesmo e o diverso: olhares sobre cultura, memória e desenvolvimento (2009); e O desfile e a cidade: o carnaval-espetáculo carioca (2006). Sua nova obra, Política e Economia do Simbólico: Ensaios de Sociologia da Cultura, de 511 páginas, foi publicada agora em 2026 pela editora Café com Sociologia.

A seguir a entrevista que realizamos com o escritor:

Foto: UnB

ASCOM UENF – Como é estar na UENF, uma universidade idealizada por Darcy Ribeiro, assim como foi a UnB?

Edson Farias – Venho à UENF desde 2018. Fui convidado para avaliar trabalhos no Congresso de Iniciação Científica da Universidade(CONFICT e CONPG). De lá para cá, conheci pessoas, fiz amigos e tenho, cada vez mais, me impressionado com a dedicação e o rigor como professores e estudantes procuram dar o melhor de si no sentido de fazer dessa instituição um espaço de produção do conhecimento, de debate acerca de pautas tão significativas não só para a comunidade acadêmica e buscado alternativas para, de fato, efetivar um espaço inclusivo e igualmente democrático. Vejo a UENF como uma ilustração muito emblemática do quanto é fundamental a interiorização do ensino e da pesquisa acadêmica no Brasil.

ASCOM UENF – Sobre o seu novo livro, o que você pode adiantar?

Edson Farias – O livro é o remanejamento da tese que submeti no concurso para professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília(UnB), em novembro de 2025. A possibilidade de propor e realizar o livro veio no caudal de pesquisas e, a partir delas, publicações realizadas entre 2001 e 2020.

Imagens Ilustrativas

O livro tem como pano de fundo a atmosfera aspirada no intervalo temporal estendido entre as décadas de 1980 e 2010, o qual não somente abrigou a formidável repercussão da cultura, notabilizando-se pela centralidade obtida por pautas a exemplo das identidades, dos patrimônios, do direito ao acesso aos bens simbólicos, autossustentabilidade entre outras nos planos micropolíticos, com ênfase nas organizações não-governamentais (ONG´s), mas igualmente naquele das políticas públicas, executadas nos níveis de Estado por diversos órgãos, além do envolvimento das corporações empresariais e fundações privadas, para além de entidades translaterais. A mesma demarcação temporal também teve por característica as lutas sociopolíticas motivadas pelo respeito de proposições identitárias respaldadas pela bandeira da diversidade. No anverso, a questão cultural logrou participar em volumes sempre maiores dos mercados autorregulados de bens e serviços, interagindo na formação dos diferentes produtos internos nacionais, na complexificação da divisão técnica do trabalho e das cadeias globais de produção, circulação e usos. Impondo-se, assim, um quesito incontornável do debate em torno das concepções de bem-estar e desenvolvimento socioeconômico.
O objetivo que anima o livro está, portanto, no exame das reciprocidades estabelecidas entre sentidos de cultura e dinâmicas socio-históricas (industrialismo e capitalismo) definidas como concretizações do desenvolvimento humano, sobretudo o que, dessa reciprocidade, pode-se refletir sobre a articulação das estruturas cognitivas, moralidades e símbolos de comunicação com as mudanças nos modos de integração e coordenação sociais. A estratégia de abordagem se centra na sincronia entre os planos político e econômico, que se mostra indissociável da transversalidade da cultura na contemporaneidade.

ASCOM UENF – E como o senhor vê políticas públicas culturais como os editais das Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo?

Edson Farias – Wesley, são passos a mais que foram dados no sentido de aprimorar as políticas culturais no Brasil, em especial na tentativa de descentralizar recursos, tornar as vozes dos agentes da cultura mais audíveis e mesmo permitir que a diversidade dos círculos culturais e artísticos no Brasil possam manifestar as suas especificidades para além do que existe no grandes centros, em particular no eixo Rio-São Paulo.

Ainda assim, o caminho nesse aprimoramento é longo. O país tem contrastes regionais enormes. Impera um modelo de financiamento cultural muito calcado na reprodução de fórmulas de sucesso, há pouca margem para as experimentações. Algo assim favorece os grupos com maiores redes de contatos, que possuem já acúmulos financeiros e de outros recursos. As isenções fiscais atendem ao interesse corporativo, mas não necessariamente leva em conta a presença mais propositiva do Estado em articulação com instâncias e agendas dos setores da cultura quanto à elaboração de agendas em se priorize temas, formatos, conteúdos, linguagens capazes de expor outras feições dessa imensidão de país tão contraditório.

ASCOM UENF – No caso das isenções fiscais, o senhor se refere às leis de incentivo à cultura, como a Rouanet e as estaduais, ou até municipais?

Edson Farias – Quero deixar claro não ser contra a existência desses instrumentos de financiamento. O que pontuo é a necessidade de outros desenhos legais que possibilitem modos de se fazer arte e cultura que, de um modo geral, não são atrativos para as empresas beneficiadas pela Lei Rouanet e afins.

ASCOM UENF – E sobre o Marco Regulatório de Fomento à Cultura?

Edson Farias – Não há dúvidas que se trata de um avanço em termos de legislação para um conjunto de setores até então submetido a instrumentos legais pouco ou nenhum pouco sensíveis às especificidades dos mundos artístico-culturais, os quais são entre si já bem discrepantes.

Mas, sem prejuízo no reconhecimento desse avanço legal, o marco regulatório não resolve nem resolverá aspectos infraestruturais do conjunto de setores da cultura no Brasil. Falta, sim, articular o entendimento sobre a cultura ao problema do modelo de desenvolvimento no país.

Em alguns setores, como o audiovisual, em razão da escala e do quanto estratégico se impõe em termos econômicos, até porque envolve grandes corporações empresariais, o debate se estende para alcançar a relação entre cultura e desenvolvimento. Em proporções bem menores, vê algo parecido envolvendo o artesanato. Mas a maior parte do conjunto cultural brasileiro permanece órfão de um entendimento que ultrapassa certos hábitos mentais que definem arte e cultura como apartadas das dinâmicas de produção da renda e do produto nacional. Parece se manter vigente a mentalidade calcada na velha divisão entre o ócio artístico em busca da plenitude espiritual e a intervenção material utilitária para reprodução da vida. O que resulta disso tende a ser muito pernicioso para quem exerce atividades abrangidas pela denominação do artístico-cultural.

(Jornalista e Fotografias: Wesley Machado – Ascom UENF)

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