Pesquisadora da UENF analisa como literatura generativa muda hábitos de leitura e criação

A literatura produzida, distribuída e lida no Brasil passou por mudanças aceleradas nos últimos anos com a expansão das plataformas digitais, das redes sociais e das ferramentas de inteligência artificial. Em 2026, eventos literários, editoras, pesquisadores e leitores discutem não apenas novos formatos de escrita, mas também transformações profundas na forma como obras circulam, são descobertas e interpretadas. Nesse cenário, estudos da área de Cognição e Linguagem ajudam a compreender como tecnologias digitais vêm redefinindo a experiência literária.
Segundo Analice Martins, professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), é necessário compreender como o avanço da tecnologia digital hiperconectada nos últimos 5 anos e seu impacto mudaram a forma de produzir e consumir literatura. Para ela, as obras que circulam em aplicativos, plataformas colaborativas, redes sociais e sistemas de leitura permitem diferentes níveis de participação do público.
— A cultura digital, plataformas, redes sociais e aplicativos expandiu, de modo significativo, a circulação das práticas literárias. A literatura não pode ser a prima pobre do século XXI, esmagada pela cultura audiovisual. Aliás, nem precisa estar distante dela. O próprio meio de circulação e seus recursos tecnológicos propiciaram novas experimentações. Isso é uma constatação bem-vinda e sem melindres — afirmou Analice
Segundo a pesquisadora, as transformações não atingem apenas os suportes tecnológicos, mas também os processos de criação. A discussão torna-se ainda mais complexa com a popularização da inteligência artificial capaz de criar poemas, personagens, contos e narrativas completas. O avanço dessas ferramentas recoloca uma questão histórica da teoria literária em novos termos: quem é o autor quando uma máquina participa da escrita?
— Talvez essa seja a questão mais delicada e complexa de todas. Até onde acompanho o funcionamento e os desdobramentos da IA nesse aspecto, sei que funcionam eminentemente como processadores de textos de capacidade imensurável. O que ela gera pode, certamente, informar, emocionar, divertir. Mas isso “ainda não é poesia”, como diria Carlos Drummond de Andrade, no lindo poema “Procura da poesia” — declarou a pesquisadora.
Para ela, a literatura continua associada à experiência humana, à subjetividade e à capacidade de transformar a realidade por meio da linguagem. Embora a inteligência artificial participe de processos cognitivos como seleção, processamento, teste e reescrita, a dimensão intencional da criação permanece no centro do debate sobre autoria e produção literária.
Possibilidades ampliadas e fator humano
Enquanto a IA amplia as fronteiras da criação, outras transformações ocorreram dentro das próprias redes sociais. Plataformas como TikTok, Instagram e YouTube ajudaram a consolidar formatos como webficção, fanfiction, instapoesia, tuiterromances e comunidades colaborativas de leitura. Em muitos casos, leitores deixam de ocupar uma posição exclusivamente receptora e passam a comentar, compartilhar, adaptar e até influenciar o desenvolvimento das obras.
Esse novo ambiente também alterou os mecanismos de descoberta de livros e autores. Se antes a mediação era realizada principalmente por críticos, editoras, professores e veículos especializados, hoje algoritmos e plataformas digitais exercem papel crescente na seleção do que chega ao público.
— O leitor fica, então, enredado nessas dinâmicas. Muita oferta, muito acesso a tudo e, às vezes, pouco discernimento, já que as instâncias capazes de romper a lógica imperativa dos algoritmos parecem infelizmente muito desprestigiadas. Entre elas estão o professor e os mediadores de leitura crítica — pontuou Analice.
A pesquisadora também observa que as redes sociais ampliaram o acesso aos livros, mas passaram a influenciar fortemente a forma como escolhas literárias são construídas. Segundo ela, plataformas digitais funcionam mais como espaços de divulgação direcionados a nichos específicos do que como ambientes voltados à formação crítica dos leitores.
— Ampliaram não só o acesso como performatizaram as escolhas. Se entendermos a lógica da visibilidade como lógica da performatização, do “show do eu” e da exibição, acho que nem sempre as implicações serão positivas — acrescentou.
Hibridismos e fronteiras
Outra discussão que ganha força envolve a própria definição de literatura em um cenário cada vez mais híbrido. Com fronteiras cada vez menos nítidas entre autor, leitor, máquina, imagem, som e texto, pesquisadores questionam quais critérios continuarão sendo utilizados para legitimar uma obra literária nas próximas décadas. Para Analice, a resposta passa necessariamente pelo papel do leitor e pelos contextos históricos e culturais que atribuem sentido às obras.
— Quem diz o que é literário ou não deveria ser o leitor, pois é ele quem posterga a palavra, a expande e a eterniza. Cada contexto histórico cultural tem seus mecanismos de percepção e legitimação. Esse é o único fato incontestável que temos — frisou.
Analice pontua que os estudos de Cognição e Linguagem contribuem justamente para analisar como essas mudanças afetam os processos de leitura, interpretação e construção de sentidos. A área investiga desde a interação entre diferentes linguagens até os impactos cognitivos provocados pelas tecnologias digitais, observando como leitores respondem a experiências cada vez mais multimodais e interativas.
Para ela, os recursos digitais oferecem oportunidades relevantes de experimentação estética, mas também exigem das pesquisas em Cognição e Linguagem atenção aos efeitos sobre a recepção das obras. Analice aponta que a literatura digital pode estimular associações criativas e novas formas de interpretação, mas também corre o risco de reduzir a imaginação quando as tecnologias passam a fornecer respostas prontas e caminhos excessivamente direcionados.
— Do ponto de vista do “consumo” (eu diria: da recepção das práticas literárias), vejo uma perspectiva mais controversa. Por um lado, um trampolim associativo, uma desautomatização do óbvio, um convite ao atravessamento de signos e fronteiras. Por outro, como já advertiu o sábio João Ubaldo Ribeiro, em crônica antológica, “No tempo do livro”, os recursos eletrônicos e tecnológicos também podem nos roubar a faculdade imaginativa, pensar por nós, achatar nossos sentidos, oferecer, como única e rasa, uma interpretação que deveria ser múltipla, heterogênea e polissêmica — alerta Analice.
(Jornalista: Jorge Rocha – Foto: Divulgação)



