
O quanto a ciência pode transformar a realidade de um país? Ao completar 33 anos de vida, a UENF mostrou que não há limites para isso, na trajetória de vida dos dois principais homenageados da Sessão Solene do Conselho Universitário (CONSUNI), realizada na tarde da última sexta-feira, 14/08/26: o professor Messias Gonzaga Pereira, que recebeu o título de Professor Emérito da UENF, e a professora Denise Pires de Carvalho, presidente da Capes, homenageada com a Medalha Darcy Ribeiro.
A reitora da UENF, professora Rosana Rodrigues, destacou que o trabalho do professor Messias com o melhoramento do mamoeiro transformou o Brasil, de importador de sementes, para exportador, gerando uma economia de milhões de dólares para o país.
— Isso gera soberania tecnológica para a agricultura de nosso país. É muito gratificante termos convivido com o professor Messias durante o período em que trabalhou na UENF, liderando uma equipe de 100 pesquisadores que uniu os quatro Centros da Universidade. Esse trabalho trouxe uma inovação disruptiva de tal magnitude que foi reconhecido pela Finep como uma das maiores inovações tecnológicas do Brasil. Um marco histórico, ao lado de grandes revoluções nacionais — disse.
Ao comentar a escolha de Denise para receber a Medalha Darcy Ribeiro — maior honraria concedida pela UENF —, Rosana ressaltou a sua “sensibilidade transformadora e corajosa ao criar políticas afirmativas e inclusivas de grande impacto no sistema nacional de pós-graduação”. A reitora destacou o Programa Aurora, instituído em março pela Capes, que oferece bolsas de pós-doutorado a professoras gestantes ou mães de crianças de até dois anos de idade — impedindo a descontinuidade das pesquisas em função da maternidade.
— A Denise encarna o espírito de liderança e defesa inegociável da universidade pública. Acima de tudo, é uma firme defensora da interiorização da ciência e da educação pública em nosso país. Conceder-lhe a nossa maior comenda é reconhecê-la uma parceira da ciência, uma mulher que humaniza a gestão e carrega a essência do pensamento de Darcy Ribeiro: a ousadia de sonhar grande e fazer o Brasil avançar com equidade e excelência — disse Rosana.

A reitora lembrou que a UENF nasceu de um clamor da sociedade, que desejava uma universidade em seu território.
— Então a UENF nasceu aqui pelas mãos de Darcy, Brizola e Niemeyer, com a absoluta certeza de que a ciência da mais alta excelência e a interiorização do ensino público são as ferramentas mais potentes de desenvolvimento humano, social e territorial. Nessas três décadas e três anos, estamos provando, em cada laboratório, em cada sala de aula, em cada projeto de extensão, em cada setor administrativo, que lugar de ciência de ponta é sim no interior do Estado — afirmou.
Rosana disse que a escolha do tema da programação de aniversário da Universidade — “UENF 33 Anos: valorizando o território” — não se refere apenas ao município de Campos dos Goytacazes ou ao Norte Fluminense, mas ao território de todo o Estado do Rio de Janeiro. Segundo a reitora, a UENF tem o compromisso de produzir conhecimentos que tenham impacto especialmente na vida de cada cidadão fluminense.
— Essa valorização do nosso território passa de forma inegociável pelo fortalecimento das nossas ciências básicas, pelo olhar crítico, humano e reflexivo das ciências humanas e sociais e por todas as áreas do saber que constroem a cidadania, a cultura, a inovação e o bem-estar social. Uma universidade completa só existe quando a tecnologia caminha de mãos dadas com o pensamento crítico e com a transformação social — disse.
A Sessão Solene, realizada no Anfiteatro do Centro de Convenções Oscar Niemeyer, foi aberta com uma apresentação da Orquestra Sinfônica Mariuccia Iacovino, da ONG Orquestrando a Vida, que interpretou canções do músico argentino Astor Piazzolla.

A mesa foi composta, além da reitora Rosana Rodrigues, pelo vice-reitor, professor Fábio Lopes Olivares; a assessora da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, professora Clícia Grativol (representando a pró-reitora Maria Cristina Canela); a pró-reitora de Extensão, professora Deborah Guerra Barroso; o pró-reitor de Assuntos Comunitários, professor Milton Kanashiro; e o pró-reitor de Graduação, professor Juraci Aparecido Sampaio.
A cerimônia teve a participação da presidente da Faperj, Carolina Alves da Costa; da representante dos discentes, Melissa Assis; da representante dos docentes, professora Georgiana Feitosa; e do representante dos técnicos-administrativos da UENF, Paulo César Fernandes. Durante a cerimônia, foram feitas homenagens a professores, técnicos administrativos e servidores aposentados.

De menino humilde, filho de pequenos produtores rurais do interior de Minas Gerais, a expoente na UENF e na ciência internacional
Ao receber o título de Professor Emérito da UENF, Messias Gonzaga Pereira fez um discurso emocionado, lembrando de sua infância e de toda a trajetória profissional até chegar à UENF, em 1994.
— Quando penso na minha trajetória, vem à memória a imagem de um menino de origem rural, filho de um pequeno produtor do Sul de Minas. Minha história começou muito distante dos centros de pesquisa e universidades, começou no campo. Foi trabalhando e estudando que construí os primeiros passos de minha formação — disse.
Messias disse que sua maior conquista, ao terminar a graduação em Agronomia em 1979, na Universidade Federal de Viçosa (UFV) — como primeiro colocado da turma — não foi a classificação acadêmica, mas “ter encontrado o caminho da ciência, da pesquisa, da formação de pessoas e da transformação do conhecimento em benefício da agricultura e da sociedade”.

Messias contou que, logo após a graduação, começou a atuar como professor da própria UFV, além de ter realizado o mestrado em Genética e Melhoramento de Plantas, ingressando no Programa de Melhoramento de Soja e atuando no desenvolvimento das primeiras variedades para o Brasil Central. O doutorado nos Estados Unidos “ampliou os horizontes”, permitindo o aprofundamento no conhecimento da biologia molecular integrada ao melhoramento de plantas.
— Mas todas essas experiências me prepararam para o principal capítulo da minha vida: a construção da minha história na UENF — disse Messias, lembrando que ingressou na Universidade em 1994, um ano após a fundação da instituição, quando, segundo afirmou, “a UENF ainda estava construindo sua própria identidade”.
— A UENF tinha uma proposta acadêmica ousada e o desafio de transformar uma ideia inovadora em uma instituição concreta. Havia muito por fazer: era preciso criar cursos, estruturar laboratórios, desenvolver programas de pós-graduação, formar equipes, sobretudo construir uma cultura acadêmica de excelência — disse.

Segundo Messias, foi justamente o desafio que o encantou — o fato de não chegar em uma universidade pronta, mas que precisava ser construída.
— Tive o privilégio de participar dessa construção. Junto com muitos colegas, trabalhamos para estabelecer uma estrutura de pesquisa e formação de recursos humanos que pudessem colocar a UENF em posição de destaque no cenário científico brasileiro. Quando vejo hoje a UENF consolidada, sinto orgulho de ter participado dessa história — afirmou.
Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 1979; o professor Messias tornou-se mestre em Genética e Melhoramento pela UFV em 1983 e Ph.D. em Melhoramento de Plantas em 1993 por Iowa State University. Na UENF, atuou como professor titular, chefe do Laboratório de Melhoramento Genético Vegetal (LMGV), coordenador do Programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal (PGPV) e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Melhoramento de Plantas (PGMP). Coordenou os projetos Frutimamão I e Frutimamão II em parceria com a empresa Caliman Agrícola, financiados pela Finep.
Em sua trajetória científica, também conquistou os postos de pesquisador 1A do CNPq, Cientista do Nosso Estado (CNE) da Faperj, Coordenador CA Agronomia do CNPq, Coordenador de Agronomia da Faperj, Consultor da Finep e da Capes, Presidente da Sociedade Brasileira de Melhoramento de Plantas (SBMP) e Presidente do VI Congresso Brasileiro de Melhoramento de Plantas (CBMP).
Presidente da Capes defende fortalecimento e interiorização das universidades
Escolhida pelo CONSUNI para receber a Medalha Darcy Ribeiro, a professora Denise Pires de Carvalho disse que ficou extremamente emocionada com a homenagem, sobretudo pelo importante papel que Darcy Ribeiro teve em sua formação acadêmica. Ela lembrou que os estudos de Darcy Ribeiro levaram à aprovação da atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação, aprovada em 1996.
— Estou muito emocionada por receber a medalha que celebra esse que foi um dos maiores brasileiros, um brasileiro com B maiúsculo, um gênio, que tanto fez pelo nosso país e pelo povo brasileiro. É uma grande honra ser homenageada pela Universidade do Terceiro Milênio, como o próprio Darcy denominava a UENF, 33 anos após o início de suas atividades. Há 32 anos eu obtive meu titulo de doutora em ciências, e muitos de meus contemporâneos desta época vieram para cá e hoje são professores da UENF. Aqui desenvolveram suas carreiras e formaram muitos mestres e doutores para a região, o país e o mundo. Uma saudação especial a todos eles — disse.
A professora disse que a implantação da UENF rompeu o paradigma da resistência à interiorização da educação superior. Ela lembrou que, quando a UENF foi criada, São Paulo e Minas Gerais já tinham iniciado esse processo, mas, no Estado do Rio de Janeiro, ele ainda era muito incipiente, com apenas alguns poucos cursos fora da capital.

— A UENF abriga hoje cerca de 6 mil estudantes, na graduação e pós-graduação, e cada uma dessas vidas terá a melhor oportunidade: a de se formar com qualidade em uma das melhores instituições de ensino superior da América Latina. Isso mudará a trajetória dessas pessoas e das suas respectivas famílias — afirmou.
A presidente da Capes disse que o país começou tarde a implantar universidades e, durante muito tempo, foi prática comum extingui-las. Até hoje, afirmou, ainda há quem duvide da sua importância — embora os estados brasileiros com maior renda per capita hoje sejam aqueles que também apresentam maior capacidade de formação de doutores: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Distrito Federal.
— Não é à toa que os países desenvolvidos têm hoje percentualmente três a quatro vezes mais doutores que o Brasil. Portanto, se queremos ser desenvolvidos, temos que aumentar o acesso, a permanência e a conclusão dos cursos de graduação e aumentar o acesso à pos-graduação — disse.
Segundo Denise, o Brasil já tem produção cientifica de qualidade, certo grau de internacionalização e capacidade de interagir com empresas. Também conta como um sistema nacional de pós-graduação e um sistema nacional de ciência e tecnologia preparados pra enfrentar o desafio da reindustrialização da nação.
— Nas sociedades modernas é inquestionável o papel das universidades e da geração de conhecimento para o desenvolvimento socioeconômico das nações soberanas. Isto deveria enfraquecer aqueles agentes públicos que buscam a desqualificação dessas instituições milenares. Não há mais espaço no mundo atual para o exílio da academia. As instituições de ensino superior são reconhecidas pela sociedade e estão evoluindo cada vez menos encasteladas, participando cada vez mais das transformações da sociedade — afirmou.
Médica endocrinologista, mestre e doutora em Biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-doutorado em Paris e Nápoles, Denise Pires de Carvalho possui um currículo marcado pelo pioneirismo e pela excelência. Foi a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora na história da Universidade Federal do Rio de Janeiro — cargo que ocupou de 02/07/19 a 07/02/23.
Atuou com destaque na Secretaria de Educação Superior (SESu) do Ministério da Educação (MEC), e assumiu em 2024 a presidência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), liderando políticas públicas cruciais para a pós-graduação brasileira.
Denise é professora titular da UFRJ e pesquisadora de produtividade do CNPq, com vasta contribuição na área de endocrinologia e biologia molecular. Integra importantes academias científicas, como a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Academia de Medicina do Rio de Janeiro (AMRJ) e a Academia Lusobrasileira de Letras (ALBL).








(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Clara Freitas – ASCOM/UENF)



