No evento “Ressaca na Villa” nesta sexta-feira e neste sábado, na Casa de Cultura Villa Maria, serão distribuídos materiais como adesivos e leques, que colocam como não tolerável a violência contra a mulher

Nesta sexta-feira, 06/02/26, antevéspera do Dia Internacional da Mulher, a reitora Rosana Rodrigues lançou na Rádio UENF FM 87.1FM a campanha contra a violência à mulher “Liberdade é viver sem medo”. Na campanha de conscientização, será distribuída na UENF, na Casa de Cultura Villa Maria, no evento “Ressaca na Villa” nesta sexta-feira (06/03/26) e neste sábado (07/03/26), e em outros locais, uma série de materiais, como adesivos e leques, que colocam como não tolerável a violência contra a mulher.
A reitora concedeu entrevista ao jornalista Giu de Souza no quadro Bom Dia UENF Entrevista.
– Precisamos participar deste debate, nos pronunciar e fazer este combate a todas as formas de violência contra a mulher neste mês de março que, por uma convenção internacional, é dedicado às mulheres, embora entendamos que todos os dias são das mulheres e dos homens. A UENF como indutora de políticas públicas não pode se omitir quando temos acesso a notícias alarmantes de agressões de parceiros e ex-parceiros – afirmou.
Rosana conclamou a comunidade acadêmica a fazer, por meio da educação, um movimento de enfrentamento a todos os tipos de violência à mulher.
– Este é um tema de preocupação crescente. É uma situação muito preocupante. Os números são alarmantes. Nós mulheres não estamos sozinhas. Que as mulheres não se calem e as pessoas do entorno. São inúmeras formas de violência que não devem ser toleradas. Denunciar é um ato de coragem, denunciar salva vidas. Ligue 180 na Central de Atendimento à Mulher, 190 para a Polícia Militar, existem delegacias especiais de atendimento à mulher, as DEAMs, os diversos municípios têm redes de apoio – informou.
A reitora destacou a importância de pesquisas dedicadas a este tema.
– Só pudemos enfrentar este problemas com os dados. Passamos a enxergar a partir do momento que esses dados começaram a ser levantados e outras mulheres denunciaram. É preciso investir recursos para este tipo de estudo, tirar das sombras este debate – considerou.
Rosana esteve presente no estúdio da Rádio UENF, acompanhada da doutora em Sociologia Política pela UENF, Líbia Goulart, convidada que apresentou sua tese sobre a influência do conservadorismo religioso na violência doméstica conjugal, premiada em 2025 pelo Conselho Nacional de Justiça.
Lei Maria da Penha vai completar 20 anos em agosto de 2026
Na conversa com Giu de Souza, a pesquisadora respondeu perguntas sobre os direitos e segurança das mulheres vítimas de violência, os cinco tipos de violência, a Lei Maria da Penha, que vai completar 20 anos em agosto de 2026, entre outros assuntos pertinentes à temática da violência contra a mulher.
– Temos no Brasil uma legislação bem consolidada, que é a Lei Maria da Penha. Em 2015 houve o reconhecimento do feminicídio e, mais recente, a violência psicológica como crime, a medida que impôs tornozeleira eletrônica nos agressores e o kit tecnológico para rastreamento de agressores – ressaltou.
No entanto, a pesquisadora ponderou que, além da questão jurídica, existem questões culturais, históricas, de desigualdades sociais e de gênero.
– Apesar de toda evolução implementada, ainda há um longo caminho pela frente. Precisamos ter de fato mulheres sendo protegidas e respeitadas. Acredito muito na necessidade da educação desde as séries iniciais. Além da legislação, o grande desafio é a efetivação dos direitos que resguardam essas mulheres, como auxílio moradia para as mulheres que ficam sem lar, cirurgia de marcas físicas de agressões – exemplificou.
Líbia explicou que a escolha do tema de sua tese se deu pelo fato dela perceber em seus atendimentos no Núcleo de Prática Jurídica como advogada que muitas mulheres, apesar de conhecerem a Lei Maria da Penha, relatam algumas situações, mas permaneciam em silêncio.
– Investiguei quais fatores contribuíram para essas mulheres permanecerem caladas. Questões emocionais, religiosas, sociais. E concluí que a espiritualidade é um elemento importante para a mulher brasileira, a religião ocupa um lugar de extrema relevância em suas vidas, dando sentido e apoio comunitário. A pesquisa não busca questionar a fé dessas mulheres, mas é preciso que elas não levem a ideia de que o sofrimento deve ser suportado a todo custo, que o casamento é uma instituição indissolúvel, que o casamento deve permanecer em caso de violências. A fé não precisa ser interpretada como submissão ao sofrimento – frisou.
A pesquisadora decidiu se debruçar sobre este ponto para entender o porquê da perpetuação do silêncio das mulheres violentadas.
– A pesquisa foi desenvolvida no município de Itaperuna, onde eu moro. Trata-se de uma cidade pequena, marcada por forte conservadorismo e onde as consequências morais do rompimento de um matrimônio são enormes. No interior, onde os índices de violência doméstica conjugal são maiores, a família é uma instituição extremamente importante, há um pensamento arraigado do que vão pensar, do que vão falar – declarou.
Para Líbia este contexto moral faz com que a mulher não reconheça os direitos que tem.
– A violência contra a mulher se inicia de forma silenciosa, vai se perpetuando, até chegar à violência física, a mulher passou por diversas violência, psicológica, moral, patrimonial, sexual, que são os cinco tipos de violências regulamentadas na Lei Maria da Penha. A violência moral com a imagem da mulher, com xingamentos proferidos. Na violência patrimonial, a mulher é destituída das questões financeiras. Também há a violência sexual, onde a mulher tem o direito de falar o seu não. Não é não. Por fim, a violência psicológica, que deixa marcas profundas. Existem ainda violências institucionais simbólicas – enumerou.
Ainda segundo a pesquisadora, a mulher deve dialogar com mulheres e com homens com o intuito de incentivar o enfrentamento da violência, para que o silêncio seja quebrado e sua dignidade seja preservada.
– As notícias atuais mostram agressores cada vez mais jovens. A escuta, o atendimento, é muito importante. Muitas das vezes não vai ser no primeiro atendimento. Às vezes a mulher pensa em ir numa rede, mas desiste. São casos de subnotificação em que as situações de violência não são registradas. E até reconhecer que o caminho não tem volta, o ciclo vai retornar e o parceiro fica protegido. É preciso ter uma rede de apoio. A mulher precisa ser acolhida. Falta interdisciplinaridade na escuta, no atendimento, para que a mulher tenha força e mostre o quão é corajosa para denunciar. Vale a pena lutar pela sua dignidade, reconstruir sua vida. E, se você conhece alguém que está em situação de violência, seja a rede de apoio e faça a denúncia a um canal de atendimento – convocou Líbia, que como produto do seu doutorado gerou uma cartilha informativa sobre violência doméstica conjugal.
Líbia disse ainda que o problema está para além de um problema jurídico, envolve emoções e sentimentos.
– A Constituição Federal garante a dignidade da pessoa humana como valor supremo. Portanto é preciso a adoção de políticas públicas para reduzir os dados de violência doméstica conjugal. Por trás de todos esse processo há uma rede de apoio, uma saída. A educação é uma aliada no enfrentamento da violência contra a mulher. Não existe lugar em que a mulher não pode estar e a ciência é uma porta que se abre para a mulher ser o que ela quiser. Nada vai nos definir, nada vai nos limitar – comentou Líbia, citando Ivone Gebara, Simone Beauvoir e Paulo Freire como suas referências.
As músicas escolhidas por Líbia para serem executadas na Rádio UENF no momento da entrevista foram “Maria da Vila Matilde” (Elza Soares), “Para todas as mulheres” (Mariana Nolasco), “Amarelo, azul e branco” (AnaVitória e Rita Lee), “Maria, Maria” (Milton Nascimento) e “Boa sorte” (Vanessa da Matta e Ben Harper).
Jornalista: Wesley Machado – Foto: Geovanna Cavoli / ASCOM UENF



