Em entrevista à Rádio UENF, José Luís Viana falou sobre o desgaste da democracia representativa, o peso do dinheiro e da mídia nas campanhas e o papel do eleitor às vésperas das eleições

Ao se dirigir às urnas neste domingo, o eleitor deve ter em mente que seu voto “é um dos milhões que vão produzir uma maioria e governar o país”. A afirmação foi feita pelo cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), José Luís Viana, ao participar na manhã desta quarta-feira, 30/09/26, do Programa Bom Dia UENF Entrevista, na Rádio UENF 87,1 FM. Em uma conversa sobre política e eleições, ele defendeu que o eleitor vote pensando no coletivo, acompanhe a trajetória dos candidatos para além do período de campanha e esteja atento a práticas de coação e de compra de votos.
Para não cair em ciladas, ele recomendou que o eleitor não se informe sobre política apenas perto das eleições, mas que a acompanhe continuamente. Segundo Viana, o exercício do voto consciente requer o conhecimento também da história dos candidatos. Ele chamou a atenção para propostas de candidatos que prometem soluções mágicas por meio de medidas extremas, e aconselhou buscar informação em veículos e sites institucionais, e não em influenciadores — os quais quase sempre têm interesses pessoais.
Segundo o cientista político, o eleitor precisa estar atento às manipulações que tentam direcionar seu voto. Lembrou que muitas vezes existem formas de coação muito sutis com este objetivo. No nível institucional, por exemplo, a derrota de um candidato pode ser relacionada a possíveis ameaças de demissão, fechamento de serviços ou perdas de benefícios.
— O que eu costumo dizer para o eleitor é o seguinte: olha, sua cabeça é livre. Quando você entra ali, você é soberano. Na verdade, estão tentando neutralizar esse poder que o eleitor tem — disse.
Ao responder sobre o papel do eleitor, Viana recorreu à sua formação de sociólogo para afirmar que as relações sociais criaram, ao longo da história, vícios de autoritarismo, preconceito e segregação. Ele citou o racismo estrutural, o machismo e o patriarcado e, no caso brasileiro, o coronelismo e o patronato, que, segundo ele, se atualizaram em práticas como a troca de favores, o clientelismo e o apadrinhamento.
Para o professor, isso ajudou a formar um tipo de eleitor que só vê o político em época de campanha e, por isso, tende a votar em quem oferece algo em troca.
— Eu nunca culpo o eleitor. A culpa é das práticas sociais que foram para a política e criaram esse eleitor — disse.
Segundo Viana, o processo eleitoral vem sofrendo desgaste em praticamente todas as democracias ocidentais. Dentre as questões que contribuem para este desgaste, ele citou a importância do poder financeiro e do controle da mídia — os quais têm o poder de interferir e privilegiar determinadas pessoas e grupos em relação a outras.
— Cada vez mais a eleição depende de dinheiro. É cada vez mais difícil você eleger um cidadão idealista, que tem um projeto político, uma linha de pensamento e uma ideologia — afirmou.
Viana começou a entrevista explicando que a política é o exercício do poder dentro de leis, regras e instituições, criadas para que o poder possa ser exercido “sem a violência descampada e aberta” e sem o confronto direto entre grupos, classes e interesses. Segundo ele, a democracia, em que o Brasil se insere, é a maior conquista histórica do Ocidente nesse campo.
O professor lembrou que o país é uma república presidencialista, organizada em três poderes: o Executivo, que executa e propõe políticas; o Legislativo, responsável por aprovar as leis; e o Judiciário, que fiscaliza a constitucionalidade das normas e pode intervir quando um dos poderes se sente prejudicado. A ideia central, afirmou, é que nenhum deles seja absoluto. “Como dizem os cientistas políticos, a política é uma arte, ou deveria ser, porque há muita nobreza nessa forma de governar a vida social”, disse.
Viana avaliou que esse modelo, em vigor desde os séculos XVI e XVII, vive hoje um processo de desgaste. Para ele, é algo esperado em uma estrutura com essa longevidade, mas que se agravou à medida que a disputa pelo poder se profissionalizou e passaram a surgir expedientes que rompem o equilíbrio entre os candidatos.
O quadro “Bom Dia UENF Entrevista” vai ao ar às segundas, quartas e sextas-feiras na Rádio UENF 87.1 FM. Direção geral de Vitor Sendra. Produção e roteiro de Giovanna Toledo, Geovanna Cavoli, Giovana Velasco e Tatiana Freire. Apresentação de Giu de Souza. Suporte técnico de Thiago Henriques. Cobertura para redes sociais de Lívia Guimenes, Raquel Carvalho, Anna Letícia Bila e Giulia Maia.
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