Dona Maria poderia ser qualquer pessoa que encontrou nas redes sociais uma maneira de expor sua opinião, como tantos outros. O problema é que Dona Maria não existe — trata-se de um avatar criado por Inteligência Artificial (IA). Mesmo não sendo real, a personagem vem ganhando milhares de seguidores ao se posicionar criticamente diante do cenário eleitoral político brasileiro (AQUI).
Um detalhe que chama a atenção é que Dona Maria reúne o estereótipo das minorias sociais no Brasil: é uma mulher aparentemente acima dos 50 anos de idade, negra, obesa e pobre. Seu criador, um motorista de aplicativo, confessa ser apoiador do candidato Flávio Bolsonaro.
O avatar costuma atacar energicamente o presidente Lula, obtendo um engajamento próximo ao de políticos de direita tradicionais, com uma média de mais de 2 mil comentários por publicação. Segundo a BBC Brasil, em 10/07/25, um de seus vídeos no Instagram atingiu 8,8 milhões de visualizações e mais de 23 mil comentários.

O avatar Dona Maria inclui-se nas chamadas “deepfakes” — vídeos, áudios ou imagens falsas altamente realistas criadas por IA.
Os pesquisadores Anderson Röhe Fontão Batista e Lucia Santaella, em artigo publicado em abril de 2024 (AQUI), afirmam que as deepfakes são o estágio mais avançado das fakenews.
Segundo eles, o objetivo das deepfakes não é “convencer que algo é procedente ou verdadeiro, e sim o de servir de gatilho ou incentivo para desencadear crenças já arraigadas em determinados grupos de interesses comuns — geralmente conservadores e reacionários — a fim de desacreditar ou deslegitimar os padrões estabelecidos, o estado democrático de direito, as instituições e autoridades constituídas”.
Para o cientista político do Centro de Ciências do Homem da UENF (CCH), professor Vítor Peixoto, as deepfakes podem ser consideradas o “grande anabolizante das fake news”. Seu uso vai muito mais além de personagens fictícios como Dona Maria. As deepfakes podem fazer pessoas reais parecerem dizer ou fazer algo que nunca aconteceu, sendo muito difícil identificar a fraude.
A Diretoria de Comunicação da UENF (ASCOM) ouviu o professor Vítor Peixoto, que atua no Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (LESCE) e é doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), sobre o uso das deepfakes nas próximas eleições brasileiras.
Veja a entrevista:
ASCOM/UENF – Como você analisa historicamente o uso da internet no cenário eleitoral brasileiro?
VÍTOR PEIXOTO – A gente teve um primeiro momento de muita pulverização dos meios de comunicação, quando achamos que a internet ía quebrar o monopólio das grandes empresas de comunicação. Surgiram muitos blogs no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, e a gente achava que era um movimento positivo de democratização da informação. Num segundo momento, passamos para as redes sociais, quando quase todo mundo era portador de um canal no qual podia se expressar. Também parecia algo positivo, principalmente porque democratizava o acesso a grupos que não eram muito aceitos pela mídia. Com um pouco de ingenuidade, achávamos que o grande problema eram os grandes conglomerados que monopolizavam o acesso à informação.
ASCOM/UENF – E quando este cenário otimista começa a mudar?
VÍTOR PEIXOTO – Nas manifestações de 2013, eclodiram movimentos muito descontrolados que a gente não sabia de onde vinham, mas depois se descobriu que eram movimentos coordenados, que também tinham investimentos de grandes grupos. Então percebemos que as coisas não eram tão democráticas assim, muito menos aleatórias. Havia um padrão, e o movimento foi disseminado na internet, com capacidade de coordenação entre os grupos. Isso pegou todo mundo de surpresa.

ASCOM/UENF – Quando a internet começou a interferir, de fato, nos resultados das eleições?
VÍTOR PEIXOTO – Nas eleições municipais de 2016, tivemos em Campos um caso muito interessante, que foi a eleição de Rafael Diniz para prefeito. Sua vitória, já no primeiro turno, surpreendeu muita gente, porque ele vinha sem muita estrutura de campanha e, de repente, teve aquela vitória significativa. Aquilo já foi o prenúncio da campanha de 2018, quando houve o uso massivo das redes sociais.
ASCOM/UENF – Como você analisa o uso das redes sociais em 2018?
VÍTOR PEIXOTO – A grande surpresa foi a eleição de Jair Bolsonaro. Ninguém imaginava que ele seria eleito. Ele fazia uma campanha que não tinha recurso partidário tradicional nem um partido forte por trás. Além disso, ele tinha a característica de falar contra as mulheres — que são um grupo majoritário da sociedade — falar contra pobres, contra pretos. Então, se você juntasse todos esses grandes grupos aos quais ele se opunha, ninguém em sã consciência diria que ele poderia ser eleito, principalmente da forma que foi. Foi uma avalanche, aquilo passou fora do radar das instituições e dos cientistas políticos. Eu diria que foi uma grande novidade.
ASCOM / UENF – Foi aí também que começaram a ser utilizadas as fake news…
VÍTOR PEIXOTO – Sim, só que naquele momento ainda não tinha sido difundida a IA. O que a gente tinha eram só as redes sociais. Muitas delas impulsionadas com pagamento nas grandes plataformas. Mas a gente tinha ideia de como isso funcionava. A IA vai se difundir e popularizar a partir de 2022 para cá. Acho que a eleição de 2022 foi a última em que a IA não teve contribuição importante. Foi um embate ainda nas redes sociais com uso de impulsionamentos.
ASCOM / UENF – Você acha que as instituições estão preparadas para lidar com o uso da IA nas eleições?
VÍTOR PEIXOTO – Está todo mundo assustado, e eu acho que com razão. As eleições argentinas já mostraram isso, então temos que nos preocupar sim. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem reagido. Criou em 2024 o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia (CIEDDE). É uma iniciativa interessante, que une diversas instituições, na qual se tenta, de alguma forma, ter um controle mais rápido, ser mais reativo. Um dos grandes problemas é que a velocidade em que a justiça eleitoral se move para que se tenha a garantia de direitos nessas violações é muito inferior à capacidade de disseminação dessas informações. Essa diferença de velocidade vai ser um grande desafio para o TSE.
ASCOM / UENF – Como vai funcionar o CIEDDE?
VÍTOR PEIXOTO – Esse centro integrado tenta ser uma resposta aos abusos no uso da IA nas eleições. Isso porque ele tem mecanismos de acesso às grandes plataformas, como a Meta, Google, X (antigo Twiter), para retirada mais rápida. Mas, quando a disseminado ocorre de WhatsApp para WhatsApp, é muito mais complexo, pois essas peças publicitárias ficam menos à mostra e correm no subterrâneo. Acho que esse vai ser um dos maiores problemas: essa velocidade de retirada das coisas.
ASCOM/ UENF – E no que se refere à sociedade brasileira, você acha que ela está preparada para lidar com a IA nas eleições?
VÍTOR PEIXOTO – Sinceramente, eu não vejo capacidade de reação da sociedade. Temos um eleitor com baixo grau de escolarização. A gente vê golpes sendo aplicados de diversas naturezas na internet usando a IA. Essa capacidade de identificar o que é verdade e o que não é verdade é algo muito difícil. Até quem tem mais instrução muitas vezes cai em golpes de internet. Então é uma questão muito difícil.
ASCOM / UENF – Qual será, na sua opinião, a dimensão do uso das deepfakes na próxima eleição?
VÍTOR PEIXOTO – Nas eleições de 94 ou 98, houve uma desmobilização de um comício do Lula porque um importante humorista foi numa rádio dizer que o evento tinha sido cancelado, imitando a voz dele. Hoje você vai ver a imagem do Lula, a voz do Lula, dizendo alguma coisa que ele não disse. E também com outros candidatos. Não vamos ser ingênuos. Todos os campos políticos vão se valer dos mecanismos de deepfake. Até porque o acesso é muito fácil. É muito barato produzir uma peça. Não precisa ser um grande especialista, não são necessários atores treinados, muito menos recursos para filmar, nada disso. Basta alguém com acesso à internet com IA e algum nível de criatividade. E se esse alguém ainda contar com recursos para impulsionar, daí temos todos os elementos para o desastre.
ASCOM / UENF – Por que vídeos como o da avatar Dona Maria fazem tanto sucesso na internet?
VÍTOR PEIXOTO – Temos vários elementos. No depoimento do criador do avatar, ele diz que o algoritmo só entrega se fizer uma coisa que mobilize as pessoas, como o ódio. E é óbvio que as pessoas vão circular aquilo que mais as afeta. As redes sociais só ganham assim. Elas têm que polarizar para que as pessoas participem, se engajem. E campanha eleitoral é um prato cheio para isso. Nada no mundo mobiliza mais do que política e religião. Quando você mistura essas duas coisas, consegue mobilizar ainda mais as paixões.
ASCOM / UENF – Nesse contexto, o que podemos esperar no futuro?
VÍTOR PEIXOTO – O que precisa ser feito é criarmos mecanismos para fortalecer a sociedade civil e as instituições. O problema é que nada disso é possível de forma individualizada. Existe um sistema por trás de ataque às instituições. Por exemplo, esse ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF), que é a instituição de controle. Se você ataca e diz que aquela instituição é mentirosa, qualquer reação dessa instituição vai reafirmar aquela mentira. Foi assim também com a imprensa. Sempre houve um pouco de desconfiança na Globo, SBT, Record. Mas essas instituições eram mecanismos que possibilitavam algum tipo de contato com a realidade e de responsabilização. Com a descredibilização dessas instituições, perde-se a ancoragem destes veículos de comunicação para poder minimamente desmentir aquelas informações.

ASCOM / UENF – Qual o seu prognóstico para a próxima eleição presidencial?
VÍTOR PEIXOTO – Certamente, será uma eleição, mais uma vez, de muita polarização afetiva. Está muito claro que existem dois grupos políticos minoritários com muita intensidade de preferências que fazem muito barulho. Isso faz a gente pensar que toda a sociedade esta polarizada, o que não é verdade, como aponta o último livro do Cientista Político Jairo Nicolau “Um país dividido” (Editora Zahar). Óbvio que toda eleição pode ter surpresas, mas, pelo que está se desenhando, teremos um revival de 2022, só que agora com os candidatos em lados opostos. O que era governo virou oposição, e o que era oposição virou governo. Estamos num cenário muito polarizado, com o crescimento da extrema direita no mundo, de ataque às instituições democráticas. Com os recentes escândalos, que apontam repasses de dinheiro do Banco Master ao Senador da República pré-candidato deste grupo, o jogo se tornou mais incerto. Mas seja quem for o candidato da direita terá um apoio eleitoral expressivo.
ASCOM / UENF – O que podemos esperar caso haja o retorno dos bolsonaristas ao poder?
VÍTOR PEIXOTO – Eu acredito que conseguiriam implementar mais daquilo que tinham a intenção no primeiro governo, mas que não fizeram lá atrás, por incompetência. Por exemplo, o desmonte do Ministério da Educação. Eles tropeçaram muito. Foram mais de seis ou sete ministros, se não me falha a memória. Pessoas muito incompetentes que não entendiam como funcionava a máquina e, por isso, não conseguiram implementar todas as medidas. E os funcionários de carreira conseguiram resistir, ter mais resiliência para sobreviver ali dentro. O mesmo ocorreu no Ministério da Saúde, com o desmonte do Plano Nacional de Imunização (PNI). Agora também temos um Congresso muito mais de direita do que naquela época. Se permanecer assim, os ataques ao sistema de justiça, principalmente, ao STF seriam muito maiores e mais destrutivos.
ASCOM / UENF – Que pautas eles deixaram de implementar e agora podem conseguir?
VÍTOR PEIXOTO – Aquelas já conhecidas, de extrema direita. Na educação, por exemplo, é o homeschooling, que é tirar a obrigatoriedade de colocar o filho na escola. Eles são contra o sistema de educação institucional, pois acham que a família que tem que transmitir os valores. Só que isso tira do Estado a responsabilidade de ofertar educação. As privatizações de empresas públicas e mistas como Banco do Brasil, Caixa Econômica e Petrobras. Além de eliminação de mecanismos de correção do salário mínimo e aposentadorias com ganhos reais.
ASCOM / UENF – O que você acha que houve de errado no governo Lula para que ele esteja correndo o risco de não ser reeleito?
VÍTOR PEIXOTO – Há vários fatores. Um é que o Lula podia pintar o Brasil de ouro que não ia ter um governo bem avaliado. Não acho que pintou, mas se tivesse pintado, essa polarização continuaria porque independe do que ele tenha feito ou deixado de fazer. O fato é que não foi um governo ruim, sob nenhum aspecto. Mas aí entra a criação da realidade paralela. Dois temas pesam muito contra o governo, embora não estejam diretamente ligados a ele. Um é a questão da violência. Apesar do número de assassinatos ter diminuído e de a segurança pública ser uma atribuição majoritariamente dos governadores, as pessoas não querem saber disso. Nas redes é comum, sempre que ocorre um caso, ver pessoas se manifestando: “Faz o L…”. Então a responsabilização é muito clara.
ASCOM /UENF – E qual o outro tema que vem prejudicando o presidente Lula?
VÍTOR PEIXOTO – A outra questão é a barafunda em que o STF se encontrou junto ao Banco Master. O STF é visto como sócio do governo por uma parte da sociedade. Acho que o governo demorou a reagir às notícias também. O Master tem dois grandes escândalos, e todos eles se iniciaram no governo Bolsonaro. Com gente do Centrão e bolsonaristas envolvidos muito mais do que outra ala política. Mas está entranhado na mente da população que, quando se trata de corrupção, é o governo Lula. E quando se coloca um ministro do STF no meio do escândalo, isso acaba responsabilizando o Lula também. O STF é visto como o grande inimigo. Foi ele que garantiu a posse de Lula, o combate ao golpe. Então virou mais inimigo do bolsonarismo do que o próprio Lula. O Lula apenas venceu as eleições. Quem garantiu a democracia foi o STF, então ele é o grande inimigo do bolsonarismo.
ASCOM / UENF – Como você avalia a força política do movimento bolsonarista no país?
VÍTOR PEIXOTO – O bolsonarismo não acabou como alguns imaginavam após o retumbante fracasso do governo bolsonaro, principalmente, na gestão da pandemia. Ele se arrefeceu, principalmente depois da tentativa de golpe de 8 de janeiro, mas continua forte. A sociedade brasileira é muito conservadora. Bolsonaro soube construir um personagem que se encaixa bem nesses valores. Na dimensão de moral e costumes, acho que ele é mais a cara do Brasil. Se a gente pudesse desenhar um presidente com a cara do país não seria o Lula. E o Lula prometeu prosperidade econômica. Apesar de o Brasil ter crescido, a inflação estar sob controle e o número de empregos em recordes históricos, ainda há o endividamento da sociedade, o custo de vida alto, que penaliza a avaliação do governo Lula. Esses são os dados da realidade, mas eu acho que a realidade conta pouco para essa avaliação de governo. Como as pessoas estão vendo a realidade a partir da sua ideologia é mais importante do que as entregas que o governo faz.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri / Fotos: Cassiane Falcão – ASCOM/UENF)



