Pesquisa em materiais aproxima a UENF dos desafios do Norte e Noroeste Fluminense

PPGECM tem conceito 5 da CAPES, 84 patentes e projetos com empresas ligados a desafios da região

Petróleo e gás, atividade portuária, agroindústria, cerâmica, mineração e rochas ornamentais fazem parte de uma economia regional que também produz desafios tecnológicos. É nesse território que o Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Ciência dos Materiais (PPGECM) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) atua há cerca de três décadas, formando pesquisadores e desenvolvendo tecnologias voltadas a materiais, processos produtivos e sustentabilidade. Vinculado ao Centro de Ciência e Tecnologia (CCT) e ao Laboratório de Materiais Avançados (LAMAV), o programa acaba de consolidar conceito 5 na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), referente ao quadriênio 2021 a 2024, tanto no mestrado quanto no doutorado.

A avaliação se apoia em uma trajetória que combina formação acadêmica, produção científica, desenvolvimento tecnológico e interação com o setor produtivo. Segundo o coordenador do PPGECM, professor Carlos Maurício Fontes Vieira, mais de 50% do corpo docente são bolsistas de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), enquanto o programa passou por uma reorganização das linhas de pesquisa para equilibrar a distribuição de dissertações e teses.

A produção científica também ajuda a dimensionar esse desempenho. No quadriênio avaliado, o PPGECM contabilizou 404 publicações em revistas de impacto na área e alcançou média de seis artigos por ano por docente permanente, segundo o coordenador. Este índice colocou o PPGECM como o segundo programa mais produtivo do Brasil na área de Engenharias II. 

— Os artigos científicos foram publicados em revistas no mais alto estrato da CAPES, as quais atestam uma produção científica de muito boa qualidade. Quanto à produção tecnológica do programa, 84 patentes foram depositadas, com a totalidade delas com participação do corpo discente ou de egressos — pontuou Carlos Maurício.

Território que demanda conhecimento

A dimensão regional ganha relevância quando se observa a diversidade econômica do Norte e Noroeste Fluminense. O litoral concentra atividades ligadas ao petróleo e ao gás e abriga o Complexo Portuário do Açu, em São João da Barra. Na Baixada Campista estão presentes a agroindústria canavieira e um importante pólo ceramista, enquanto o Noroeste possui tradição na cadeia de rochas ornamentais. O cenário ainda inclui recursos minerais e atividades industriais que dependem de materiais, processos e tecnologias específicas.

É nesse contexto que o PPGECM desenvolve pesquisas em materiais cimentícios, materiais de matriz argilosa, geopolímeros, materiais duros e superduros, membranas nanoestruturadas, biopolímeros com nanocargas e compósitos poliméricos com cargas naturais ou funcionais. A estrutura atual está organizada em duas linhas de pesquisa, Materiais Cerâmicos e Materiais Sustentáveis e Materiais Poliméricos e Nanomateriais, permitindo aproximar diferentes frentes de investigação das demandas industriais e ambientais da região.

— Diante de todo esse cenário, o PPGECM da UENF tem um importante papel como um fator de desenvolvimento regional direcionando suas atividades de pesquisas e a formação de pessoal qualificado para contribuir com as atividades produtivas — afirmou o coordenador.

Um exemplo dessa conexão é a pesquisa desenvolvida pela UENF em parceria com o Porto do Açu para avaliar o aproveitamento de sedimentos de dragagem na fabricação de materiais para a construção civil. O projeto recebeu, em fevereiro deste ano, o primeiro lugar na categoria Iniciativas Inovadoras do 10º Prêmio da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ). A iniciativa ilustra uma frente de atuação em que resíduos deixam de ser apenas um passivo e passam a ser investigados como possíveis insumos para novos produtos.

Laboratório com vocação para inovação

A capacidade de desenvolver esse tipo de pesquisa está diretamente ligada à infraestrutura do Laboratório de Materiais Avançados (LAMAV). Com cerca de 2 mil metros quadrados, o laboratório reúne quatro setores de pesquisa: Materiais Superduros, Polímeros, Metalurgia Física e Materiais e Meio Ambiente. A estrutura foi ampliada ao longo dos anos com recursos de instituições de fomento como o CNPq e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

Entre os equipamentos estão prensas hidráulicas de grande porte capazes de trabalhar com pressões de até 8,0 gigapascals e temperaturas próximas de 1.800 graus Celsius. A estrutura permite pesquisas com materiais de alta dureza e superduros, incluindo estudos relacionados à produção de diamante sintético. Outros setores reúnem equipamentos para processamento de polímeros e compósitos, estudos de metais e ligas, análise de corrosão, desenvolvimento de materiais cerâmicos e aproveitamento de resíduos.

O programa também utiliza equipamentos multiusuários da UENF e mantém cooperações com instituições brasileiras e estrangeiras. Entre os parceiros estão o Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), o Instituto Militar de Engenharia (IME), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Universidade Estadual Paulista (UNESP), a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a Universidade de Antioquia, na Colômbia. A rede amplia as possibilidades de caracterização dos materiais e de realização de pesquisas em diferentes escalas.

A internacionalização é outro componente da formação. O PPGECM mantém cooperações científicas com instituições de países como Argentina, Cuba, Rússia, China, Colômbia e Portugal. Segundo Carlos Maurício, os projetos conjuntos contribuem para a qualidade das teses e dissertações e também para ampliar a produção científica internacional.

— Essas cooperações são feitas por projetos específicos de comum interesse entre pesquisadores de ambas as instituições. Essas iniciativas têm importante impacto na qualidade das teses e dissertações do programa, bem como na produção científica internacional — explicou.

Conectando formação científica e desenvolvimento regional 

Para quem pretende ingressar na pós-graduação, o PPGECM está com processo seletivo aberto para o primeiro semestre de 2027. São 32 vagas para o mestrado e 21 para o doutorado. As inscrições podem ser feitas até 16 de novembro, exclusivamente por e-mail, pelo endereço selecao.ppgecm@uenf.br. A seleção considera currículo, pré-projeto de pesquisa e entrevista técnica, de acordo com as regras estabelecidas no edital.

O mestrado exige 25 créditos em disciplinas, elaboração de dissertação e proficiência em língua inglesa. No doutorado, são 35 créditos, tese, exame de qualificação e proficiência em inglês. A regulamentação atual estabelece prazo de 12 a 24 meses para conclusão do mestrado e de 24 a 48 meses para o doutorado. A aprovação no processo seletivo não garante automaticamente bolsa, cuja distribuição depende da disponibilidade e das regras do programa.

A formação de mestres e doutores está relacionada a uma das dimensões mais estratégicas do programa para o território. Segundo o coordenador, a presença do PPGECM em Campos atrai graduados de diferentes regiões, incluindo o Norte e Noroeste Fluminense, a Zona da Mata de Minas Gerais e o Sul do Espírito Santo. Para ele, essa abrangência reforça o papel da UENF em uma área onde não existe outro programa similar.

— Estamos formando mestres e doutores com perfil adequado ao desenvolvimento de pesquisas inovadoras e multidisciplinares no campo da Engenharia e Ciência dos Materiais, aplicando novos conhecimentos científicos — frisou.

Formação para uma economia em transformação

A atuação do PPGECM não se restringe aos laboratórios. O programa mantém projetos de extensão, pesquisa aplicada, prestação de serviços e parcerias com empresas. Entre as iniciativas estão ações relacionadas à produção de tijolos ecológicos, energia limpa, capacitação em soldagem, desenvolvimento sustentável da construção civil, aproveitamento de resíduos siderúrgicos e inspeção de estruturas portuárias. Há ainda projetos desenvolvidos com empresas e instituições ligadas ao ambiente produtivo regional.

— Esta contribuição está sendo feita não somente por meio da formação de recursos humanos altamente qualificados numa região estratégica, preparados para liderar iniciativas inovadoras, mas também por meio da transferência de novas tecnologias e aprimoramento de processos, e de pesquisas que visam o desenvolvimento sustentável utilizando resíduos de agroindústrias, minerais e recursos naturais da região na produção de novos materiais — acrescentou.

Ao reunir formação avançada, produção científica, infraestrutura laboratorial, cooperação internacional, extensão e projetos com empresas, o PPGECM estabelece uma conexão entre universidade e território que ultrapassa os limites do campus. Para o coordenador, essa atuação também tem uma dimensão social, relacionada à necessidade de ampliar a formação em nível de pós-graduação em uma região que ainda apresenta desigualdades nesse campo.

(Jornalista: Jorge Rocha – Fotos: Divulgação)

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