UENF alcança a marca de 100 patentes

A UENF chega aos seus 33 anos — que serão completados no próximo dia 16 de agosto — atingindo a marca de 100 patentes concedidas pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). O feito revela a alta qualidade e relevância da produção científica da UENF, segundo o diretor da Agência UENF de Inovação (AgiUENF), professor Gonçalo Apolinário.

— A marca de 100 patentes comprova que a Universidade promove ciência aplicada, ao mesmo tempo em que demonstra a competência técnica da AgiUENF quanto à assessoria no processo de patenteamento e a curadoria das patentes em vigor — afirma.

Segundo Apolinário, a criação da Agência (em 04/11/2011) foi essencial para potencializar a proteção intelectual dos trabalhos desenvolvidos na UENF. É papel da AgiUENF, através do setor de Propriedade Intelectual, dar suporte aos pesquisadores na elaboração dos pedidos, bem como realizar todos os procedimentos de depósito junto ao INPI.

— A AgiUENF acompanha a tramitação de cada processo dentro do INPI e providencia o pagamento de todas as taxas exigidas. Adicionalmente, a Agência mantém uma vitrine tecnológica online, permitindo à sociedade o acesso a informações sobre cada uma de suas patentes. A AgiUENF também desenvolve o papel de negociar a exploração das patentes da UENF frente aos potenciais usuários do setor produtivo — diz.

O primeiro pedido de patente foi depositado no INPI pela UENF em 05/08/2005, referente à tecnologia “Processo de preparo e esterilização de meios de cultura com ácido hipocloroso”, inventada pelo professor Sílvio Lopes Teixeira.  Já a primeira patente concedida da UENF ocorreu em 12/07/2016,  referente à tecnologia “Matriz litigante de Fe-Cu com controlador de degaste para uso em ferramentas diamantadas”, de autoria do professor Marcello Filgueira (Veja abaixo).

Gonçalo Apolinário

As pesquisas que podem gerar patentes são aquelas que resultam no desenvolvimento de produtos ou processos que atendam aos requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, previstos na Lei de Propriedade Industrial (Lei Federal nº 9.279/1996).
Segundo Gonçalo, a patente assegura o direito inalienável da paternidade sobre a invenção para o inventor, bem como o direito de exploração econômica exclusiva para pessoas físicas ou jurídicas titulares dos direitos patrimoniais sobre a invenção. Ou seja, aquele que requereu a patente junto ao escritório oficial de propriedade industrial.

— Além disso, a patente ajuda no incentivo financeiro para o aprimoramento e/ou desenvolvimento de novas tecnologias. E ainda contribui para o progresso da ciência, através da ampla divulgação da informação científica e tecnológica contida nos documentos de patente.

O procedimento para requerer uma patente inicia internamente na UENF mediante o preenchimento do Formulário Online de Notificação de Invenção, disponível na página da AgiUENF (https://uenf.br/reitoria/agenciainovacao/).

— Após a análise preliminar de patenteabilidade e a redação dos documentos da patente pela Assessoria de Patentes, o pedido é formalmente apresentando ao INPI. O período de processamento interno  na UENF é de 30 dias. Já a tramitação de um pedido de patente no INPI costuma em média, estender-se por cinco a sete anos até a concessão da patente. No entanto, a expectativa de direito de exclusividade nasce com o depósito formal do pedido no INPI.

Para o vice-reitor da UENF, professor Fábio Olivares, a marca de 100 patentes representa um avanço expressivo para a UENF e confirma a maturidade crescente de sua agenda de inovação. Esse resultado reflete o papel indutor do diretor de Inovação, Prof. Gonçalo Apolinário, à frente de uma equipe comprometida em projetar a Universidade como referência em inovação e empreendedorismo no estado do Rio de Janeiro.

— A Agência de Inovação vem construindo uma política moderna, capaz de oferecer uma trilha clara para que o conhecimento produzido em nossos laboratórios se transforme em produtos, processos e soluções voltadas aos diferentes setores da sociedade. A Reitoria parabeniza toda a equipe por essa conquista, que evidencia a evolução consistente dos procedimentos internos e a capacidade institucional de transformar descobertas científicas em ativos de propriedade intelectual com potencial de impacto social e econômico — afirma.

Novo composto para o tratamento contra o câncer

Uma das 100 patentes concedidas à UENF trata de compostos de cobre que se mostraram eficientes no tratamento do câncer. De autoria do professor Milton Kanashiro, do Laboratório de Biologia do Reconhecer (LBR), a patente intitula-se “Compostos de cobre (II) com ligantes N,O-doadores derivados do H2Salan com atividade antitumoral”.

Milton Kanashiro

Ao serem avaliados in vitro, os compostos de cobre mostraram-se mais ativos em 12 linhagens de células originadas de diversos tipos de câncer quando comparados com a cisplatina — fármaco comercial utilizado no tratamento de alguns tipos de câncer. Além disso, também demonstraram menor toxidade para as células não cancerígenas (PBMC – células mononucleares do sangue periférico humano).

Já na avaliação da toxicidade in vivo, em camundongos, o composto de cobre demonstrou um bom perfil de segurança, sendo cerca de dez vezes menos tóxico que a cisplatina.

— Em nosso modelo in vivo, modelo murino de câncer de pâncreas humano, este complexo foi capaz de inibir em 72% o crescimento dos nódulos tumorais, quando comparado com o grupo controle. Enquanto a cisplatina reduziu 31%. Nossos dados indicam que esses compostos têm potencial para se tornarem uma alternativa mais segura e eficaz — e, por isso, merecem ser investigado em estudos mais aprofundados — afirma o professor.

A tecnologia resultou de duas teses de doutorado: a tese do Wagner Silva Terra, do Programa de Ciências Naturais, que foi responsável pela síntese e caracterização dos compostos e avaliação inicial das atividades biológicas, e a tese de Marina Barreto Silva, do programa Biociências e Biotecnologia, que fez um estudo mais aprofundado da atividade antineoplásica dos compostos.

Tecnologia pode gerar impacto na cadeia de petróleo e gás

Um processo mais eficiente para separar e enriquecer hidrocarbonetos saturados do petróleo usando β-ciclodextrina gerou outra patente para a UENF, de autoria da professora Georgiana Feitosa, do Laboratório de Engenharia e Exploração de Petróleo (LENEP). Intitulada “Processo de separação e enriquecimento de hidrocarbonetos saturados do petróleo utilizando β-ciclodextrina”, a tecnologia tem potencial para gerar impacto direto na cadeia de petróleo e gás.

— Isso é importante porque, em um setor em que a composição do óleo precisa ser conhecida com precisão, a capacidade de isolar melhor esses componentes ajuda a melhorar análises laboratoriais e entender as características do petróleo — afirma.

Georgiana Feitosa

Na prática, a tecnologia pode contribuir para estudos geoquímicos mais confiáveis, permitindo identificar biomarcadores que ajudam a entender a origem do óleo, seu nível de maturidade térmica e o grau de biodegradação. Essas informações são valiosas na etapa de exploração, porque orientam decisões sobre qualidade do reservatório, correlação entre óleo e rocha geradora e até avaliação de derramamentos.

— Outro ponto relevante são as vantagens operacionais do método desenvolvido, visto que se trata de um método de custo relativamente baixo, com tempo de execução curto em comparação com métodos tradicionais, além de utilizar reagentes mais acessíveis e conhecidos no mercado. Isso pode tornar a técnica mais atraente para laboratórios e centros de pesquisa ligados ao setor de energia, especialmente em uma área em que rapidez e confiabilidade analítica fazem diferença — ressalta Georgiana.

Ela destaca ainda a versatilidade do método, o qual pode ser utilizado para petróleos com diferentes graus API (métrica padrão internacional utilizada para medir a densidade de líquidos derivados do petróleo).

— Em um mercado pressionado por produtividade, redução de custos e maior precisão técnica, esse tipo de solução pode fortalecer a pesquisa aplicada e abrir caminho para novas rotinas de análise na indústria de petróleo e gás — conclui a professora.

A patente foi desenvolvida durante o doutorado de Raphael Luz, que hoje é professor do IFF de Macaé.

Inovação no campo: tecnologia não invasiva monitora a “sede” das plantas

Um sensor totalmente não invasivo para monitorar o estado hídrico dos vegetais, desenvolvido por pesquisadores do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias da UENF (CCTA) e do Instituto Federal Fluminense (IFF), gerou a patente “Equipamento para a determinação do movimento de água em vasos xilemáticos presentes em ramos e pecíolos foliares de plantas”.

Segundo o professor Elias Fernandes de Souza, que assina a patente, a tecnologia difere dos métodos tradicionais — que exigem a inserção de agulhas no caule da planta — ao utilizar pequenos pulsos de calor para estimar o fluxo de seiva.

— Essa abordagem protege o vegetal contra danos físicos e entrada de doenças, além de permitir medições precisas até mesmo em ramos muito finos — diz.

Com baixo custo de fabricação, alta sensibilidade e consumo mínimo de energia, o equipamento foi projetado para ultrapassar as barreiras dos laboratórios. Sua facilidade de instalação e operação viabiliza o uso direto em lavouras comerciais, entregando aos produtores agrícolas uma ferramenta altamente eficiente para o manejo inteligente da irrigação e o uso sustentável dos recursos hídricos.

O trabalho foi o resultado da tese de doutorado de Clinimar Oliveira Amaral, técnico administrativo do IFF de  Bom Jesus de Itabapoaba, no Programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal da UENF, que teve a orientação do professor Elias Fernandes de Souza.

Mais eficiência e menos desperdício na produção de rochas ornamentais

Exploração de rochas ornamentais (Fonte: Governo do Estado do Espírito Santo)

A tecnologia que deu à UENF a sua primeira patente foi desenvolvida pelo professor Marcelo Filgueira, chefe do Setor de Materiais Superduros do Laboratório de Materiais Avançados da UENF. Trata-se de uma ferramenta de corte diamantada para a produção de rochas ornamentais, que elimina a necessidade de explosão das pedreiras.

Segundo o professor, o desenvolvimento da tecnologia partiu da constatação de que havia um desperdício gigantesco na produção de rochas ornamentais. Ao mesmo tempo, a região Norte/Noroeste Fluminense é uma grande produtora, ao lado do Espírito Santo, maior produtor de rochas ornamentais do país.

O pesquisador desenvolveu o fio diamantado — um cabo de aço que tem por cima anilhas espaçadas com minúsculos diamantes embebidos em uma liga metálica. Esta retém os diamantes para que eles possam ter a capacidade de corte.  Pioneira no Brasil, a técnica utilizada na UENF é a metalurgia do pó: o pó de metal é misturado ao pó de diamante e o material é levado ao forno, onde é realizado o processo de sinterização.

— A sinterização é um tratamento térmico adequado para que essas partículas de diamante no pó de metal se aglutinem bastante, de maneira que o material fique bem coeso. Ao olhar, parece que está fundido, mas não é um processo de fusão. As amarrações entre metal e diamante são do ponto de vista atômico — diz.

Para que tudo dê certo, o forno precisa estar numa temperatura bem mais baixa que a temperatura de fusão dos materiais envolvidos. Nesse processo, o diamante grafitiza, ou seja, volta a ser grafite, que é a origem do diamante.

— A partir de 600 graus ele oxida e depois dos 800 ele vai transformar-se em grafite. Então a gente tem que evitar isso no forno. Também não pode ficar muito tempo exposto à temperatura — explica Filgueira.

Segundo Filgueira, a tecnologia desenvolvida na UENF impulsionou significativamente o mercado de rochas ornamentais no país. Antes dela, os produtores exportavam, sobretudo para Itália e Estados Unidos, o material bruto e, lá fora, as rochas eram cortadas, lixadas e polidas. Depois, os produtos eram comprados em forma de ladrilhos e placas, a um preço bem maior.

— Hoje a produção de rochas ornamentais é feita através de corte silencioso, no qual os blocos são obtidos esquadrejados, do jeito que se deseja — diz.

Filgueira explica que o diamante utilizado na produção da ferramenta é fabricado na UENF, mas também são utilizados produtos de multinacionais — que produzem o material desde 1954. Ele explica que o uso do diamante é essencial, pois é o único material na natureza capaz de cortar as rochas ornamentais, que são extremamente duras por causa de sua composição de quartzo.

Filgueira é autor de diversas que aguardam a concessão da patente. É o caso de uma nova tecnologia para a fabricação de uma peça denominada inserto, utilizada na indústria metal-mecânica. Normalmente composta de uma liga de tungstênio e cobalto, o inserto da UENF é feito de grafeno e nióbio. Outra vertente do laboratório, que também originou pedidos de patente, é o biomaterial — uma liga de titânio para implante na coluna cervical.

(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – ASCOM/UENF)

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