Programa combina melhoramento tradicional e ferramentas moleculares para enfrentar desafios climáticos e produtivos

Uma planta mais produtiva, resistente a doenças ou capaz de suportar condições ambientais adversas não surge apenas do acaso. Antes de chegar ao campo, ela pode passar por anos de pesquisas envolvendo genética, seleção, experimentos, análises laboratoriais e avaliações em diferentes condições de cultivo. É nesse percurso que atua o Programa de Pós-Graduação em Genética e Melhoramento de Plantas (PGGMP) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), que há mais de duas décadas articula ciência e agricultura e mantém uma atuação diretamente relacionada às necessidades do Norte e Noroeste Fluminense.
Criado em 2004 já com cursos de Mestrado e Doutorado, o PGGMP reúne pesquisadores de áreas como melhoramento vegetal, biotecnologia, bioquímica, fitopatologia e estatística. A proposta interdisciplinar permite que questões relacionadas à produção agrícola sejam investigadas por diferentes caminhos, desde a conservação de recursos genéticos até o uso de ferramentas de genômica e biologia molecular. Segundo a coordenação, o programa possui conceito 6 na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), referência de excelência registrada pela própria UENF.
— A excelência do programa é resultado de uma trajetória consolidada de formação de recursos humanos altamente qualificados, produção científica de qualidade e desenvolvimento de pesquisas com aplicação direta no setor agrícola. Com conceito 6 na CAPES, o programa se destaca pela qualificação de seu corpo docente, pela infraestrutura de pesquisa, pela capacidade de captação de recursos e, sobretudo, pela integração entre o conhecimento científico e as demandas do setor produtivo — declarou a coordenadora Helaine Christine Cancela Ramos.

Quando a genética encontra os desafios do campo
A atuação do programa ganha relevância diante de questões que já afetam a produção agrícola, como mudanças climáticas, ocorrência de doenças, limitações ambientais e necessidade de elevar a eficiência produtiva. Para enfrentar esses desafios, os pesquisadores combinam técnicas tradicionais de melhoramento com recursos de genômica, biologia molecular, bioinformática e análise de dados. Entre as culturas estudadas estão milho, feijão, mamão, maracujá e diferentes hortaliças.
— As pesquisas desenvolvidas pelo PGGMP buscam responder a alguns dos principais desafios da agricultura atual, como as mudanças climáticas, a ocorrência de doenças, as limitações ambientais e a necessidade de produzir mais com maior eficiência e sustentabilidade — pontuou Helaine.
O programa está organizado em três linhas de pesquisa. Recursos Genéticos Vegetais envolve a identificação, avaliação, utilização e conservação de materiais genéticos de espécies cultivadas e silvestres. Melhoramento de Plantas concentra trabalhos voltados à obtenção de cultivares com características agronômicas superiores. Já a Análise Genômica incorpora recursos como marcadores de DNA, mapeamento genético, sequenciamento, proteômica, metabolômica e estudos da interação entre plantas e agentes causadores de doenças.
Essa estrutura se conecta diretamente à realidade agrícola regional. Entre os projetos estão pesquisas com milho, feijão, mamão, maracujá, banana, uva, coco, hortaliças e plantas bioenergéticas. Há também trabalhos direcionados à resistência a doenças e à obtenção de materiais adaptados às condições locais. Um dos projetos de melhoramento de feijão de vagem, por exemplo, busca cultivares estáveis, produtivas e adaptadas ao Norte e Noroeste Fluminense.

Uma pós-graduação que também forma tecnologia
O processo seletivo para ingresso no primeiro semestre de 2027 está aberto e recebe inscrições até o dia 31 de outubro. O programa oferece vagas para Mestrado e Doutorado. No processo anterior, o Mestrado foi destinado a graduados em Agronomia, Ciências Biológicas ou áreas afins, enquanto o Doutorado exigiu formação de Mestrado em Genética e Melhoramento de Plantas, Fitotecnia, Produção Vegetal ou áreas relacionadas. Entre os documentos solicitados estavam histórico escolar, currículo, proposta de pesquisa, cartas de referência e comprovação da produção acadêmica.
A seleção considera aspectos diferentes da trajetória dos candidatos. Para o Mestrado, são avaliados itens como produção científica, histórico escolar, iniciação científica, participação em eventos, cursos, proficiência em inglês e proposta de pesquisa. No Doutorado, entram produção científica, histórico, formação complementar, proficiência e proposta de pesquisa. O programa também prevê exigência de proficiência em inglês, com possibilidade de cumprimento durante o curso para candidatos que ainda não apresentem a comprovação exigida.
— O programa é voltado a profissionais das Ciências Agrárias e Biológicas, especialmente aqueles interessados em pesquisa científica, inovação tecnológica e desenvolvimento de soluções para a agricultura. O Programa oferece uma formação sólida, que integra conhecimentos de genética, melhoramento de plantas, recursos genéticos, biotecnologia e ferramentas avançadas de análise genômica — explicou a coordenadora.
A formação está associada a uma estrutura de pesquisa que reúne diferentes ambientes da UENF. O Laboratório de Melhoramento Genético Vegetal trabalha com fruteiras, grandes culturas e hortaliças e possui setores dedicados ao melhoramento, aos recursos genéticos, à genética aplicada e à fisiologia vegetal. O Laboratório de Entomologia e Fitopatologia complementa essa estrutura com estudos sobre doenças, pragas, insetos e manejo fitossanitário. Também integram esse conjunto o Laboratório de Biotecnologia e o Laboratório de Química e Função de Proteínas e Peptídeos, além de casas de vegetação e áreas experimentais.
O resultado desse trabalho pode ser medido também pelo número de cultivares desenvolvidas. Entre 2014 e 2024, o programa participou do desenvolvimento de mais de 50 novas cultivares de diferentes espécies. Na região, pesquisas com milho e feijão ganham destaque pela possibilidade de ampliar alternativas para pequenos e médios produtores e para a agricultura familiar. A aproximação entre pesquisa e mercado aparece ainda em iniciativas como a Rio Norte Sementes e a MF Papaya.
— Um dos exemplos mais expressivos é o desenvolvimento de mais de 50 novas cultivares entre 2014 e 2024, abrangendo espécies como milho, feijão, mamão, maracujá e hortaliças. Na região Norte e Noroeste Fluminense, destacam-se os benefícios proporcionados pelas cultivares de milho e feijão, especialmente para pequenos e médios produtores e para a agricultura familiar — frisou Helaine.

Do laboratório ao desenvolvimento regional
A importância regional do PGGMP está também na formação de profissionais capazes de levar esse conhecimento para diferentes setores. Mestres e doutores formados pelo programa podem atuar em universidades, instituições de pesquisa, empresas agrícolas, programas de melhoramento e iniciativas de empreendedorismo tecnológico. Segundo a coordenação, há egressos inseridos em instituições de ensino, centros de pesquisa e empresas no Brasil e no exterior.
— Nosso objetivo é formar mestres e doutores com capacidade crítica, autonomia científica e visão inovadora, preparados para desenvolver e liderar projetos de pesquisa em instituições públicas e privadas, atuar em programas de melhoramento genético e contribuir para a formação de novos profissionais — acrescentou a coordenadora.
Ao aproximar formação avançada, pesquisa aplicada e desenvolvimento de tecnologias, o programa ocupa uma posição estratégica para uma região com vocação agrícola. A produção de conhecimento sobre genética vegetal pode contribuir para reduzir perdas, ampliar produtividade, melhorar a qualidade das culturas e criar alternativas para diferentes perfis de produtores. A experiência acumulada pela UENF também mostra que a pesquisa pode ultrapassar os limites dos laboratórios e gerar produtos, cultivares e empreendimentos.
— A principal contribuição do PGGMP é transformar conhecimento científico em tecnologias e soluções que atendam às necessidades do setor agrícola, especialmente por meio do desenvolvimento de novas cultivares e da formação de profissionais qualificados. O Programa tem um papel estratégico por ser o único de pós graduação com esse perfil no Estado do Rio de Janeiro, contribuindo diretamente para o fortalecimento da pesquisa e da inovação agrícola no interior do estado — afirmou Helaine.
Com pesquisas que vão da conservação de recursos genéticos à análise de DNA e ao desenvolvimento de cultivares, o PGMP estabelece uma ponte entre uma área científica altamente especializada e demandas concretas do território. Segundo Helaine, para o Norte e Noroeste Fluminense, essa conexão representa a possibilidade de produzir conhecimento sobre as próprias condições agrícolas da região e transformá-lo em tecnologia, formação profissional e novas oportunidades econômicas.
(Jornalista: Jorge Rocha – Fotos: Divulgação)



