Carmen Lúcia alerta para risco de retrocesso nos direitos das mulheres em abertura da Mostra de Extensão

A ministra Carmen Lúcia, do STF, participou remotamente da abertura da Mostra de Extensão

Ministra do STF participou remotamente da cerimônia; reitora afirmou que “extensão universitária não é caridade”

A defesa da democracia, da ciência e dos direitos conquistados pelas mulheres marcou a palestra da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Carmen Lúcia Antunes Rocha, que participou remotamente da abertura da XVIII Mostra de Extensão UENF UFF IFF e X UFRRJ: Mulheres Transformando Vidas ComCiência, na segunda-feira (19), no Centro de Convenções da UENF.

Ao falar sobre o tema “Mulheres Transformando Vidas — Educação, cidadania e democracia na construção de um país mais justo”, a ministra afirmou que a democracia é condição para que existam espaços como as universidades, onde estão as melhores oportunidades de produção e aquisição de conhecimento científico, o que contribui para o desenvolvimento nacional.

Carmen Lúcia lembrou que o processo de democratização do país foi formalizado na Constituição de 1988, que estabeleceu o desenvolvimento nacional como um dos objetivos da República Federativa do Brasil, “independentemente de quem seja o governante, da forma de governo, da rede que compõe as instituições”.

— E não é desenvolvimento econômico. Mas o desenvolvimento de todas as pessoas que compõem a nação brasileira. Para isso precisamos ter espaços democráticos de educação, de formação, para construir uma sociedade livre, justa e solidária — ressaltou.

Para a ministra, não é possível produzir e compartilhar conhecimento, nem usufruir de seus benefícios, em uma sociedade que não seja democrática. É pela ciência, completou, que será possível chegar a um progresso efetivo da humanidade.

Cláudio Henrique Reis, Rosana Rodrigues, Simone Vasconcelos e Paulo Henrique Borgati: representantes da UFF, IFF e UFRRJ

— O espaço democrático é o único que propicia um conhecimento pleno e no qual as pessoas possam livremente fazer escolhas, ter as suas opções de vida — defendeu.

De acordo com Carmen Lúcia, a democracia é uma construção permanente, jamais terminada — um processo de libertação permanente do ser humano pela aquisição e compartilhamento de conhecimentos. Ela defendeu a educação como principal meio de transformação e de construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

— Nada é mais importante na constituição para o processo libertador da sociedade do que a educação. Nenhum povo se desenvolveu sem que um grande investimento fosse feito no processo educacional. E é nesse sentido que incluo o conhecimento científico — disse.

A ministra chamou atenção também para as dificuldades históricas impostas às mulheres para que possam estar em igualdade de condições com os homens na produção científica e alertou que a luta por seus direitos corre risco de retrocesso. Para ilustrar, relembrou episódios em que mulheres precisaram lutar para ser reconhecidas como capazes de exercer papéis relegados aos homens.

— Não era incomum que as mulheres fossem impedidas de terem acesso ao conhecimento. Nós sabemos que conhecimento é poder, porque você é mais livre e mais forte quando tem conhecimento. Informação é poder, e desinformação também é, pois desvirtua a versão dos fatos e isso leva a uma incapacidade da outra pessoa de fazer escolhas livres — lembrou.

Carmen Lúcia citou ainda mulheres que tiveram suas histórias silenciadas, como Hipólita Jacinta, que participou da Conjuração Mineira, mas só teve seu papel no movimento reconhecido 200 anos mais tarde. No campo científico, também citou o nome de várias mulheres que não foram devidamente reconhecidas por seu trabalho.

Segundo a ministra, a promoção e o incentivo ao desenvolvimento científico é dever do Estado, que, segundo a Constituição, deve apoiar a formação de pessoal qualificado na área e garantir o financiamento. Ela reconheceu, porém, que o caminho não é simples.

— Este não é um processo simples. Em todas as andanças que tenho feito, vejo cada vez mais restrições às universidades públicas. Mas o direito à Educação é um direito fundamental. E nenhuma emenda pode diminuir os direitos fundamentais. Existe uma barreira imposta pelo constituinte, a qualquer reforma constitucional tendente a abolir direitos fundamentais, e um deles é o direito à educação e à produção científica — alertou.

A reitora da UENF, Rosana Rodrigues, participou da cerimônia de abertura

Reitora: “Extensão universitária não é caridade”

“Não existe democracia forte sem ciência pública, nem ciência plena sem a presença e a voz das mulheres.” A afirmação é da reitora da UENF, Rosana Rodrigues, que também discursou na abertura do evento.

— Se há algo que a história tem nos ensinado, é que nem a ciência e nem a democracia nos foram dadas de presente. Cada avanço, cada espaço de poder e cada direito que exercemos hoje foi conquistado pela determinação das mulheres que vieram antes de nós. E foi preciso muita luta para que ocupássemos os laboratórios, as bancadas de pesquisa, as cadeiras de decisão, para que nós conquistássemos o direito fundamental de podermos votar e sermos votadas — lembrou a reitora.

Rosana destacou que o avanço da sociedade e a produção do conhecimento sempre dependeram da cooperação e do trabalho das mulheres, mas que essa participação foi historicamente invisibilizada ou reduzida a papéis secundários. Resgatar essa visão, segundo ela, é reconhecer que a transformação social exige romper com a divisão desigual do saber e do trabalho.

— E é exatamente aqui, nesse ponto, que a extensão universitária se afirma em toda a sua complexidade, mas também em toda a sua potência. Extensão universitária não é caridade. Extensão universitária não é assistencialismo. Ela é a universidade em movimento. É diálogo, é parceria, é troca de saberes com a comunidade — afirmou.

A reitora destacou que a extensão ajuda a tirar os direitos humanos do papel e a transformá-los em realidade nos territórios, ressaltando o papel das mulheres nessas atividades.

— Quando as mulheres lideram a ciência na extensão, elas trazem vigor, inovação e rigoroso compromisso com o impacto real. É a cientista que desenvolve uma nova solução de engenharia ao lado da comunidade. É a pesquisadora que traduz dados complexos em políticas públicas de combate à violência. É a estudante que leva protótipos de energia renovável para quem mais precise — completou.

Para Rosana, a extensão é o encontro vivo entre a excelência acadêmica e os desafios concretos dos tempos atuais, e representa a universidade cumprindo sua missão constitucional de manter indissociáveis o ensino, a pesquisa e a extensão.

— Vivemos tempos desafiadores, em que tentar desacreditar as instituições e enfraquecer a educação pública se tornou um projeto político. Mas eu vejo esses jovens, esses extensionistas incansáveis, esses estudantes e essas estudantes, e vejo uma resposta viva a esses desafios. Eu vejo a ciência mundial e a ciência brasileira impulsionadas por mulheres, liderando o desenvolvimento do nosso país — disse.

A cerimônia de abertura contou ainda com representantes das demais instituições envolvidas no evento: a pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação, Inovação e Extensão do Instituto Federal Fluminense (IFF), Simone Vasconcelos Silva; o diretor do campus de Campos dos Goytacazes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Paulo Henrique Borgati; e o diretor do campus da UFF em Campos dos Goytacazes, Cláudio Henrique Reis.

A XVIII Mostra de Extensão UENF UFF IFF e X UFRRJ: Mulheres Transformando Vidas ComCiência prossegue até sexta-feira, 23/10/26, com apresentação de trabalhos, mesas-redondas, palestras e atividades culturais.

Confira a programação completa AQUI.

(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Clara Freitas – ASCOM/UENF)


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