Aos 44 anos, Patrícia Alves Machado, que deixou a escola aos 13, descobriu que “Ainda dá tempo” de transformar sonhos que pareciam distantes em novas possibilidades; hoje ela é graduanda em Licenciatura em Pedagogia, no Polo Cederj de São Francisco de Itabapoana

Aos 13 anos, Patrícia Alves Machado interrompeu os estudos por falta de incentivo. Depois de receber apoio de pessoas que ela chama de “anjos” e de ter participado do projeto “Ainda dá tempo”, da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários da UENF (ProAC), ela retornou às salas de aula, concluiu o Ensino Fundamental, o Ensino Médio, e atualmente é graduanda em Licenciatura em Pedagogia, no Polo Cederj de São Francisco de Itabapoana, curso concedido pela UENF. Como não pretende parar por aí, Patrícia estabeleceu uma meta de vida: conquistar o diploma da graduação antes de completar 50 anos e dar um novo passo rumo à especialização.
Nesse intervalo de três décadas — entre o abandono e o retorno aos estudos — há uma história marcada por interrupções, recomeços e, sobretudo, por encontros com pessoas que ajudaram a mostrar que o caminho da Educação ainda estava aberto. Patrícia conheceu todas elas na UENF, onde começou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais em 2019.
Sem o incentivo da mãe, ainda menina, Patrícia abandonou a escola depois de concluir a antiga 5ª série, hoje correspondente ao 6º ano do Ensino Fundamental. Ao longo dos anos, tentou voltar algumas vezes. Aos 22, quando o primeiro filho tinha três anos, frequentou as aulas por apenas três dias, pois a mãe, que enfrentava problemas de saúde, não podia cuidar do menino. Quatro anos depois, matriculou-se novamente, recebeu as apostilas, mas não voltou à escola.
Na UENF, o trabalho acabou se tornando também o ponto de partida para uma transformação pessoal. Em 2022, durante uma conversa com um estudante da Universidade, Patrícia foi incentivada a fazer o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). A possibilidade de conciliar o ensino a distância com o trabalho e a família pareceu ideal.
No dia seguinte, pediu ajuda a uma colega, também aluna da UENF, para fazer a inscrição. O prazo, porém, havia terminado. A amiga não desistiu! Acompanhou a abertura do processo no ano seguinte e fez a inscrição de Patrícia.
Ainda sem confiar plenamente em sua capacidade, Patrícia realizou a prova em agosto de 2023. O resultado saiu em dezembro, mas ela sequer se preocupou em consultá-lo. Em março de 2024, quando as aulas da Universidade retomaram, a responsável pela sua inscrição tomou a iniciativa e trouxe a notícia: Patrícia estava aprovada.
A conquista, porém, não encerrou a caminhada. Naquele mesmo ano, ao tentar concluir o Ensino Médio pelo Encceja, acabou reprovada em apenas uma disciplina. Foi quando conheceu o projeto “Ainda dá tempo”, desenvolvido pela Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (ProAC) e voltado à elevação da escolaridade de colaboradores e trabalhadores terceirizados da UENF.
Entre os participantes, Patrícia estava em estágio mais avançado e recebeu, dos professores voluntários, um conteúdo adaptado para ajudá-la na preparação para o Encceja. A experiência mudou também sua relação com as colegas de trabalho. Convencida de que a Educação havia transformado sua maneira de enxergar o mundo, passou a incentivá-las a, como ela, retomar os estudos.
Maria Betânia dos Santos Silva Ramos, que atua como auxiliar de serviços gerais junto com Patrícia, foi sua primeira companheira nessa caminhada. Juntas nas aulas do projeto “Ainda dá tempo”, as duas fizeram a prova do Encceja na mesma escola e, apesar da dificuldade de Patrícia com computadores e internet, foi ela mesma quem consultou o resultado: ambas foram aprovadas em 2025.
— O projeto me deu base e me provou que ainda dá tempo. Sempre dá! Somos prova disso — afirma Patrícia.
Mais um degrau
A conquista do Ensino Médio abriu caminho para um sonho ainda maior. Incentivada por outra amiga da UENF, Patrícia conheceu o Consórcio Cederj e decidiu tentar uma vaga no curso de Pedagogia. Fez a prova e foi aprovada na primeira tentativa. Hoje, aos 44 anos, é graduanda e já projeta o próximo capítulo da história que começou a reescrever na UENF.
— Deus foi muito generoso comigo e colocou “anjos” no meu caminho. Aqui na UENF conheci pessoas que me deram a mão e não só me ensinaram a caminhar, mas caminharam junto, de mãos dadas comigo. Tenho gratidão infinita a todas essas pessoas. Elas me ajudaram a reescrever a história da minha vida. Antes dos 50 estarei com meu diploma de pedagoga nas mãos. E não vou parar por aí, porque agora eu acredito que o céu é o limite — afirma.
Para Patrícia, cada conquista simboliza o degrau de uma escada que ainda não chegou ao fim. No topo, ela enxerga, cada vez de forma mais nítida, uma placa com a frase: “Você é um vencedor”.

Betânia iniciou a caminhada rumo à realização do seu grande sonho com 56 anos
Mãe de dois filhos, aos 20 anos, Maria Betânia, abriu mão dos estudos e de realizar o sonho de trabalhar na área da Saúde para priorizar a educação dos filhos. Ela disse não ter se arrependido da escolha, que foi fundamental para que seus filhos, hoje jovens, chegassem à universidade. Mas conta que ter retomado os estudos através do “Ainda dá tempo” e do incentivo da colega de trabalho a fez voltar a acreditar que ainda é possível chegar mais longe, hoje com 56 anos.
Depois de concluir o Ensino Médio junto com a Patrícia, foi sua filha quem fez o papel de incentivadora e a inscreveu no curso técnico de Análises Clínicas, na Faetec, área pela qual a mãe é apaixonada. Betânia foi selecionada e já iniciou a nova etapa.
— Hoje passa um filme na minha cabeça. É muito gratificante saber que cheguei até aqui com a ajuda de tantas pessoas especiais. Ontem mesmo, durante uma aula de matemática no curso técnico, eu lembrei das aulas do projeto. E reconheci que só estava sentada ali estudando o que eu amo, porque tive o apoio de pessoas que sonharam junto comigo e torceram para que eu chegasse até aqui — contou, emocionada.
Orgulhosa de si mesma, ela, que sempre reconheceu a importância da Educação para o crescimento pessoal e profissional, garante que todos os dias busca ser uma incentivadora para todos à sua volta.
— As pessoas que me incentivaram ocupam um lugar muito especial na minha vida e na minha história. Quero poder fazer o mesmo por todas as pessoas que eu conseguir alcançar — finalizou Betânia.
(Jornalista: Tatiana Freire – Fotos: Clara Freitas – ASCOM / UENF)



