Especialistas discutem os impactos das transformações sociais na experiência humana

Existir, produzir conhecimento e encontrar sentido em um mundo cada vez mais atravessado por tecnologias, novas formas de linguagem e transformações nas relações humanas. Essas questões estão presentes no III Congresso de Psicologia, Fenomenologia e Filosofias da Existência do Norte e Noroeste Fluminense (CONEPPFFE), realizado no Centro de Convenções da UENF, nesta quarta (23) e quinta-feira (24). Com o tema “Linguagem, Sentido e Existência: desafios da ciência no contemporâneo”, o evento é realizado pelo Núcleo de Pesquisas em Psicologia, Fenomenologia e Filosofias da Existência (NEPPFFE), ligado ao Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem (PPGCL) da UENF, em conjunto com a UFF de Campos. A programação inclui conferências, mesas de debate, oficinas, minicursos, comunicações científicas e apresentação de pôsteres, com participação de pesquisadores de instituições de diferentes regiões do país.
A programação de abertura contou com a palestra de Shirley Macêdo Vieira de Melo (Univasf), intitulada “Eu posso ou IA fazer? Do caráter vivo e imediato da experiência à crise do sentido na produção do conhecimento científico contemporâneo”. A professora colocou em discussão os impactos da inteligência artificial sobre a experiência humana e a produção científica. A seguir, uma mesa-redonda reuniu os professores Carlos Henrique Medeiros de Souza, Eliana Crispim França Luquetti e Shirlena Campos de Souza Amaral, da UENF, com mediação de Crisóstomo Lima do Nascimento.

A primeira mesa redonda da programação da tarde debateu os desafios contemporâneos relacionados à produção de sentido, às transformações da subjetividade e às manifestações do sofrimento psíquico. Participaram da atividade Adriano Furtado Holanda, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Crisóstomo Lima do Nascimento, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da UENF, e Ileno Izídio da Costa, da Universidade de Brasília (UnB). A mediação foi conduzida por Shirley Macêdo Vieira de Melo.
Ileno abordou o tema “Estou em crise: como falo, o que sinto, como me afeto e qual o sentido da minha existência? Reflexões multidimensionais sobre a crise psíquica”. O pesquisador defendeu uma compreensão ampliada das crises psíquicas, considerando não apenas seus aspectos clínicos, mas também suas dimensões existenciais, relacionais e simbólicas.
— A crise não pode ser reduzida a um conjunto de sintomas. Ela envolve a maneira como a pessoa se percebe, se relaciona com o mundo e atribui significado à própria existência. Escutar essa experiência é parte fundamental do cuidado em saúde mental — frisou.
Ao abordar o tema “Subjetivação, Religiosidade, Narrativas: Crises do Mundo da Vida”, Adriano Holanda discutiu como as pessoas constroem sentidos para suas trajetórias em meio a contextos de instabilidade social, cultural e simbólica. O pesquisador abordou, de maneira bem humorada e com exemplos de seu próprio cotidiano, como as narrativas pessoais e coletivas organizam e identificam situações e momentos de crise.

— É um mundo onde a ansiedade perde a razão de ser, porque é cotidiana, nos engole e absorve. E com isso, só cresce a necessidade de produzir narrativas para dar coerência ao que vivemos. A busca por sentido continua presente, passando por estruturas narrativas religiosas e subjetividade, para lidar com essas crises e ansiedade — declarou.
Encerrando a mesa, Crisóstomo Lima do Nascimento apresentou reflexões sobre “Positividade e contemporâneo: tempo de invisibilidade”. Em sua exposição, analisou como valores associados à produtividade, ao desempenho e à eficiência passaram a ocupar posição central na vida social, influenciando a maneira como as pessoas percebem a si mesmas e aos outros.
— Vivemos em uma época que valoriza resultados permanentes e desempenho contínuo. Nesse processo, experiências fundamentais da condição humana, como a vulnerabilidade, o sofrimento e os limites da existência, tendem a perder espaço ou a se tornar invisíveis — pontuou.
Já a segunda mesa da tarde do primeiro dia, aprofundou a discussão sobre existência, experiência humana e os modos de compreensão do sujeito na contemporaneidade. O debate reuniu Ana Lúcia Azeredo Couto (UNESA), Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo (UERJ) e Elaine Lopez Feijoo (IFEN), com mediação de André Vinícius Dias Senra (IFRJ), colocando em diálogo diferentes perspectivas da Psicologia e das Filosofias da Existência sobre questões relacionadas ao modo como o ser humano se constitui e atribui sentido à própria experiência.

Segundo dia
O CONEPPFFE continua nesta quinta, abordando temas como existência, subjetividade, experiência humana, fenomenologia e os desafios contemporâneos das Ciências e das Humanidades, em uma programação que mantém o caráter interdisciplinar do congresso. A partir das 8h30, a primeira mesa redonda reúne Alessandro de Magalhães Gemino (UERJ), André Vinícius Dias Senra (IFRJ) e Dionatans Godoy Quinhones (UFGD), com mediação de Shirley Macêdo Vieira de Melo (Univasf). Às 10h30, Ewerton Helder Bentes de Castro (UFAM), Renato Faria da Gama (UFRJ) e Shirley Macêdo Vieira de Melo participam de nova mesa, mediada por Ignêz Brigida de Oliveira Pina (UENF).
No período da tarde, a programação inclui oficina de arte-colagem sobre diversidade humana, apresentação de pôsteres e mesa-redonda com Joelson Tavares Rodrigues (UFRJ), Patrick Wagner de Azevedo (ISECENSA) e Cristine Monteiro Mattar (UFF). O encerramento terá, às 16h30, mesa com André Luís de Oliveira de Sant’Anna (UNESA), Alexandre Marques Cabral (UERJ) e Davis Anzolin Lichote (UNESA).
(Jornalista: Jorge Rocha – Fotos: João Félix)



