Geólogos da UENF avaliam riscos de terremoto no Brasil

Onda de terremotos no mundo em menos de 15 dias chama a atenção para fenômeno extremo, mas Brasil tem pouca probabilidade de abalos sísmicos de alta magnitude

Sismos no Brasil de 1720 a 2019 – Centro de Sismologia da USP

Em menos de 15 dias, ocorreram pelo menos seis terremotos em várias partes do mundo — sendo o mais devastador o ocorrido na Venezuela em 24/06/26, com mais de 2 mil mortos, 11 mil feridos e 50 mil desaparecidos. Os demais ocorreram na Rússia, Filipinas, Afeganistão, México e Japão.

Diante deste quadro, fica a pergunta: o Brasil está livre deste tipo de fenômeno geológico? Terremotos de alta magnitude acontecem muito raramente, mas abalos sísmicos de pequenas proporções, muitas vezes imperceptíveis, são relativamente comuns no Brasil.

Para entender por que isso acontece, é importante saber por que ocorrem os abalos sísmicos, sejam de grande ou pequenas proporções.  

O que são terremotos?

Camada rígida e mais superficial da Terra, a crosta terrestre está dividida em blocos rígidos, chamados placas tectônicas ou litosféricas. Essas placas movem-se muito lentamente, em várias direções, como se flutuassem sobre o manto (camada entre a crosta e o núcleo, com consistência plástica).

— A placa da América do Sul desloca-se para Oeste — ela vem se afastando da placa onde está a África (à qual já esteve unida no passado) e choca-se com a placa de Nazca, que forma uma parte do fundo do Oceano Pacífico. Desses choques, surgiu a Cordilheira dos Andes — explica Maria da Glória.

O geólogo Victor Hugo Santos, do Laboratório de Engenharia e Exploração de Petróleo da UENF (LENEP), observa que o movimento das placas tectônicas remonta ao Gondwana — o supercontinente que reuniu a maior parte das massas de terra do hemisfério sul.

— Há cerca de 170, 180 milhões de anos, essas placas começaram a se quebrar, gerando falhas geológicas profundas. Ao movimentar-se, elas geram atritos, que são os abalos sísmicos — diz.

Segundo a professora, um terremoto ou sismo é a ruptura repentina (deslizamento) de uma falha ou fratura geológica, gerando vibrações que se propagam em todas as direções. Essas rupturas ocorrem devido ao acúmulo de tensões no interior da Terra, principalmente relacionadas ao movimento das placas tectônicas.

— As tensões podem levar vários anos para se acumularem até atingir o limite de resistência das rochas. Quando estas não resistem mais às altas tensões, rompem-se em poucos segundos, geralmente ao longo de uma falha geológica — afirma Maria da Glória.

Victor ressalta que os abalos são menos frequentes no Brasil porque o território está sobre uma placa considerada mais estável. O que não ocorre em outros locais, como, por exemplo, o Japão, onde há uma quantidade maior de falhamentos mais profundos que geram maiores abalos sísmicos. E a própria Venezuela, que está situada em uma zona de intensa atividade sísmica onde convergem duas placas tectônicas.

Maria da Glória Alves

— A nossa placa continental sulamericana tem o lado leste e o oeste. O lado leste é a margem passiva dessa placa, e o lado oeste é a margem ativa, que fica lá nos Andes e é onde ocorre o choque de placas. Na margem ativa, há uma incidência maior de abalos. Por ser um ambiente compressivo de choque de placas, há um maior volume de abalos sísmicos do que do nosso lado aqui, que é o lado passivo — explica.

Segundo Maria da Glória, terremotos destrutivos ocorrem poucas vezes por ano, mas centenas de terremotos ou sismos menores ocorrem diariamente em todo o mundo sem causar danos.

— A grande maioria tem baixa magnitude ou ocorre com epicentro no mar, longe de regiões habitadas, e nem é percebida — afirma a geóloga Maria da Glória Alves, do Laboratório de Engenharia Civil da UENF (LECIV).

Em maio deste ano, por exemplo, foram registrados dois abalos sísmicos de baixa magnitude (3,1 e 3,3), no litoral de Maricá (RJ), a aproximadamente 100 km da costa do município, com epicentro no fundo do mar. No mês seguinte, em 26/06, houve uma sequência de cinco tremores de terra no litoral do RJ, em alto-mar, a cerca de 75 quilômetros da costa de Saquarema, na Região dos Lagos. Todos os eventos concentraram-se em um intervalo de pouco mais de 12 horas.  O maior atingiu magnitude 2,5 e os outros variaram entre 1,5 e 2,1 na escala Richter.

Os pesquisadores explicam que os sismos intraplaca são rasos e de magnitude baixa a moderada (menos de 40 km de profundidade, com exceção do Acre). A grande maioria ocorre na crosta superior, a menos de 10 km de profundidade.

Principais placas tectônicas no mundo (Fonte: BBC)

Terremotos no Brasil

Embora não apresente uma atividade sísmica significativa, isso não quer dizer que o país esteja completamente livre de terremotos. Uma extensa compilação de sismos do Brasil foi conduzida pelo IAG-USP na década de 80, com apoio da CNEN, baseada tanto em documentos históricos e depoimentos pessoais quanto em registros sismográficos. Este catálogo de 1984 vem sendo atualizado ano a ano em colaboração com a UnB, UFRN, IPT e UNESP, constituindo o “Catálogo de Sismos Brasileiros”.

 — Nota-se grande concentração de sismos na região Nordeste, principalmente no Ceará e Rio Grande do Norte. A região Sudeste, principalmente na plataforma continental, também é relativamente sísmica. Destaca-se ainda grande concentração de sismos nas regiões do Pantanal Matogrossense, parte norte do estado de Mato Grosso e em torno de Manaus. Nota-se também no Acre uma área de sismos de grande profundidade, relacionados à placa de Nazca que mergulha sob o continente— diz Maria da Glória.

Os dois maiores sismos do Brasil ocorreram em 1955: um na região de Porto dos Gaúchos, 370 km ao norte de Cuiabá (MT), com magnitude 6,2; e o outro com epicentro no mar, a 300 km de Vitória (ES), com magnitude 6,1.

 — Na região Sudeste merece destaque o sismo ocorrido em 1922 com epicentro em Mogi Guaçu (SP), onde algumas casas chegaram a trincar, tendo sido sentido em boa parte doestado de São Paulo, sul de Minas e até na cidade do Rio de Janeiro. O tamanho da área afetada indica uma magnitude Richter de 5,1 — ressalta.

Em 1980, houve outro terremoto, com magnitude 5,2, sentido em praticamente todo o Nordeste. Este provocou o desabamento parcial de algumas casas em Pacajus (CE).

No dia 8 de junho de 1994, a cidade de Porto Alegre (RS) foi atingida pelas ondas sísmicas provocadas por um terremoto que ocorreu na Bolívia, a 2.200 km de distância. Ele foi sentido por algumas pessoas; fez sacudir lustres e objetos suspensos; fez vibrar móveis nos andares mais altos de alguns edifícios.

Um terremoto de 4,9 pontos na escala Richter que atingiu o vilarejo de Caraíbas, em Itacarambi (MG), em 9 de setembro de 2007, avariou todas as 75 construções da comunidade e destruiu seis delas.

Victor Hugo

Segundo Maria da Glória, alguns sismos podem ser induzidos pela intervenção do homem na natureza. A construção de barragens para hidrelétricas tem se mostrado a única intervenção capaz de causar sismos de alta magnitude. Isso ocorre devido ao peso do enchimento do lado, pelo enorme peso que passa a existir no local. Em 1967, na Índia, isso foi a causa de um terremoto de magnitude 6,3.

Segundo Victor Hugo, a extração de petróleo na plataforma continental não apresenta riscos de terremotos. Ele explica que as bacias onde estão o petróleo são formadas por sedimentos que, ao longo de milhões de anos, foram preenchendo este espaço. As rochas geradoras de petróleo, chamadas reservatório, possuem um sistema petrolífero formado no sedimento e não nas placas tectônicas.

— A retirada de petróleo não é suficiente para gerar um abalo sísmico e desestabilizar as rochas. Os sismos são ocasionados nas grandes estruturas de falhamento muito profundas que chegam até o manto — diz.

Saiba mais AQUI. (Colaboração da professora Maria da Glória Alves)

(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – ASCOM/UENF)

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