
O Brasil que elegeu o presidente Lula pela primeira vez, em 2002, não é o mesmo que o elegeu em 2022, sobretudo em sua dimensão social. A afirmação foi feita pelo cientista político Jairo Nicolau, da Fundação Getúlio Vargas, ao fazer o lançamento de seu último livro, “O País Dividido — Duas Décadas de Eleições Presidenciais no Brasil (2002-2022)”, na UENF, na última sexta-feira, 19/06/26.
Promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UENF (PPGSP), o lançamento teve a participação de alunos e professores da UENF e outras instituições. Jairo fez uma explanação sobre os temas tratados em seu livro, capítulo a capítulo.
Segundo afirmou, o primeiro capítulo trata do tema que o inspirou a escrever o livro: como o eleitorado brasileiro mudou. Ele ressaltou o surgimento de nova mídias sociais, bem como as mudanças de gênero, faixa etária e escolaridade no eleitorado.
Jairo lembrou que, em 2022, as pessoas obtinham informações basicamente através de canais de TV fechada e jornais impressos. A internet ainda não era popularizada, não havia smartphones, muito menos redes sociais.
— O Brasil mudou sobretudo na dimensão social. Tirou milhões de pessoas da pobreza extrema, é muito mais escolarizado, a expectativa de vida aumentou e vem envelhecendo muito rápido. O último Censo mostrou um declínio muito grande no número de crianças no Brasil — afirmou.
O eleitorado de hoje também difere de 2002 pelo número de mulheres, que ultrapassa o dos homens. Além disso, os jovens, que eram maioria nas eleições de 2002, agora não representam mais o contingente maior da demografia eleitoral.
No que se refere à escolaridade, ele informou que, diferentemente de 2002 — quando a maioria do eleitorado tinha escolaridade baixa (até ensino fundamental incompleto) — o Brasil se transformou em um país de eleitores de ensino médio.
— Quando Lula venceu em 2002, 70% do eleitorado tinha escolaridade baixa. Hoje o ensino fundamental está praticamente universalizado no país. Acredito que o ensino médio também está nesse processo de universalização e, daqui a algumas eleições, o contingente de eleitores de baixa escolaridade também deve desaparecer — afirmou.
Ainda no quesito escolaridade, o livro traz uma surpresa: a predominância de mulheres entre o eleitorado com ensino superior, ocorrendo o mesmo entre o eleitorado com ensino superior incompleto e ensino médio.
Ao abordar o capítulo 2, que trata da participação eleitoral, Jairo disse que a escolaridade é um fator determinante para o comparecimento do eleitor. Pessoas com ensino superior completo vão mais às urnas do que os 80% da média nacional de eleitores que participam da eleição.
— A surpresa para mim foi que, dos que são obrigados a votar, o segmento que menos vai é o dos 18 aos 29 anos de idade. Ou seja, são os jovens. Isso não acontece nos outros países. O clichê é associar participação e interesse à juventude — disse.
Outra questão abordada pelo autor é a escolha eleitoral — tema do terceiro capítulo do livro. Segundo Jairo, homens e mulheres sempre votaram de maneira parecida nas eleições em que o PT venceu. Mas, a partir de 2018, ocorre uma clivagem de gênero: embora Bolsonaro tenha vencido também no eleitorado feminino, o número ficou bem abaixo dos homens.
— Em 2022 vem a grande surpresa. As mulheres votaram em Lula e os homens em Bolsonaro. Pela primeira vez na história eleitoral do Brasil um candidato ganhou num segmento e perdeu no outro. Foram as mulheres que deram a vitória a Lula — afirmou.
No que se refere ao componente religioso, Jairo afirmou que, até 2014, a maioria dos evangélicos votou no PT. Em 2018, isso mudou, com o realinhamento dos evangélicos com a direita. Uma das hipóteses, segundo ele, é que o evangélicos são o grupo mais conservador.
— O conservadorismo está muito associado a votar na direita, mas não explica tudo, porque 30% dos votos de Lula são de conservadores. Isso mostra que Lula sabe conversar com o Brasil conservador. O bolsonarismo tem alto contingente de conservadores, mas nem todo conservador é bolsonarista — disse.
Com 168 páginas, o livro foi publicado pela editora Zahar. Especialista em Sistemas Eleitorais, Jairo Nicolau possui graduação em Ciências Sociais pela UFF, mestrado e doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Possui ainda pós-doutorado na Universidade de Oxford e no King’s Brazil Institute. Atuou como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente é professor titular e pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CPDOC).
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Cassiane Falcão – ASCOM/UENF)



