Mesa redonda debate saúde mental de jovens e prevenção do suicídio

Especialistas discutiram vulnerabilidades que chegam à universidade desde a adolescência e o papel das instituições na prevenção do suicídio

A chegada ao ensino superior pode trazer para dentro das universidades problemas de saúde mental que começaram a se manifestar ainda na adolescência. Esse cenário esteve no centro da mesa redonda “Vidas em Formação: Saúde Mental, Acolhimento e Prevenção do Suicídio na Comunidade Universitária”, realizada na tarde desta quarta (09), durante o IV Simpósio de Saúde Mental do Norte Noroeste Fluminense, promovido pelo Laboratório de Cognição e Linguagem (LCL). O encontro reuniu o médico psiquiatra Cláudio Rodrigues Teixeira e a psicóloga e psicanalista Denise Saleme Maciel Gondim, com mediação de Elisa Lima Mayerhoffer.

Cláudio apresentou dados que dimensionaram o sofrimento psíquico entre jovens e universitários. Segundo ele, uma metanálise que reuniu diferentes estudos identificou sintomas de depressão em 30% da população universitária. O pesquisador também destacou o crescimento dos índices de suicídio entre adolescentes nos últimos anos e avaliou que parte dessa população chegaria às universidades nos próximos anos, levando consigo vulnerabilidades que já estavam presentes antes da entrada no ensino superior.

– Isso antes da nossa nova realidade que a gente tem, que é a realidade digital. E a gente tem uma piora, os números mostram. Em poucos anos, o suicídio entre adolescentes, de 2013 até 2022, teve um aumento de mais de 7% ao ano. Então, é uma realidade preocupante – declarou Cláudio.

Diante desse quadro, Cláudio defendeu uma estratégia de prevenção que envolve toda a comunidade universitária, sem deixar de direcionar atenção específica aos grupos mais vulneráveis e às pessoas que já apresentam sofrimento psíquico. A proposta que ele defende é baseada em três níveis, que passam pela promoção da saúde mental, pela identificação de situações de maior vulnerabilidade e pelo acolhimento com intervenções adequadas.

– Então, é necessário que a universidade esteja com uma proposta de lidar de frente com essa situação extremamente preocupante. O primeiro elemento é ter o que a gente fala da prevenção universal. É trabalhar a saúde mental como um todo. O segundo elemento é, dentro da população vulnerável, você ter um olhar mais atento. E, naqueles que realmente já manifestam o adoecimento psíquico, você acolher e fazer as intervenções necessárias para dar suporte a essa população que sofre – pontuou.

Denise ampliou a abordagem ao lembrar que os casos de suicídio também alcançavam faixas etárias mais jovens e que a discussão não poderia se limitar ao ato suicida. A psicóloga relacionou esse contexto à população universitária e trouxe o narcisismo, a partir da psicanálise, como uma chave para pensar os processos de reconhecimento que atravessavam a formação acadêmica. Para ela, o conceito não deveria ser confundido com vaidade ou orgulho, como ocorre no uso cotidiano da palavra.

A relação entre reconhecimento e universidade foi um dos pontos destacados por Denise. Segundo ela, estudantes convivem continuamente com avaliações e expectativas relacionadas ao desempenho, às relações com colegas e professores e à própria percepção sobre suas capacidades, sempre com a possibilidade de tudo isso tornar-se uma pressão quase insuportável. A discussão também avançou para o papel das instituições e das políticas públicas, compreendidas como uma responsabilidade coletiva que ultrapassa a oferta de serviços de saúde.

– A universidade é um espaço realmente de reconhecimento o tempo todo, pelos colegas, pelos professores, pela sua própria performance. E é necessário falar um pouco da prevenção, apontando para as políticas públicas, que seria o ponto mais importante. E eu gosto muito de falar assim, políticas públicas não são exatamente um serviço público, mas sim aquilo que é da ordem da coletividade – frisou.

Elisa conduziu a discussão para as condições que permitiriam que o cuidado acontecesse antes que o sofrimento alcançasse situações mais graves. A mediadora observou que o debate sobre saúde mental havia ganhado espaço na sociedade, inclusive por meio da campanha Setembro Amarelo, mas questionou se a orientação para buscar ajuda vinha acompanhada de políticas capazes de oferecer esse cuidado. Ela destacou a necessidade de articulação entre diferentes áreas, como saúde, moradia, trabalho, renda, lazer e cultura.

– A gente fala que as pessoas precisam de cuidado, mas será que elas estão sendo cuidadas? Especialmente nas políticas públicas, que não só precisam ser políticas do SUS, mas precisam ser políticas intersetoriais. Moradia, trabalho, renda, lazer, acesso à cultura, tudo isso conta. E tudo isso conta como cuidado de saúde mental, como cuidado na vida – pontuou Elisa.

O debate integrou a programação do IV Simpósio de Saúde Mental do Norte Noroeste Fluminense, que teve como tema “Universidade e Saúde Mental: Desafios, Reflexões e Contemporaneidade”. Realizado na UENF e organizado pelo Laboratório de Cognição e Linguagem (LCL), com participação do Centro de Ciências do Homem (CCH) e do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem (PPGCL), o evento propôs ampliar a discussão sobre saúde mental para além do atendimento individual, considerando também as condições acadêmicas, institucionais, sociais e relacionais que atravessavam a vida universitária.

(Jornalista: Jorge Rocha – Fotos: Clara Freitas – ASCOM/UENF)

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