Pesquisadora fala sobre violência contra a mulher na Rádio UENF

Segundo a doutoranda Fabiana Teixeira, que estuda o feminicídio em Campos dos Goytacazes, o Carnaval é um período de aumento dos casos de violência contra a mulher

Fabiana Teixeira

Um período que deveria ser de festa e alegria, mas que, muitas vezes, traz dor e desolação. Os números mostram que é justamente no período de carnaval que a violência contra a mulher se intensifica — e Campos dos Goytacazes não foge às estatísticas. Como forma de alerta, o programa Bom Dia UENF Entrevista da última quarta-feira, 11/02/26, trouxe luz a esse tema, ouvindo a psicóloga e assistente social Fabiana Teixeira, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da UENF.

— A violência contra a mulher aumenta no carnaval devido a fatores que já existem no cotidiano, mas que se intensificam neste período, como o consumo de álcool, a sensação de impunidade e uma cultura que sexualiza e objetifica o corpo da mulher. Não é a festa que causa a violência, mas ela acaba funcionando como um gatilho para um comportamento que já faz parte de uma sociedade machista — disse Fabiana, que pesquisa o feminicídio no município de Campos dos Goytacazes.

Durante a entrevista, Fabiana contou que começou a se interessar pelo tema quando perdeu uma amiga, vítima de feminicídio. Segundo ela, sua pesquisa busca dar visibilidade ao tema, bem como compreender os fatores sociais e culturais que permitem que essas mortes continuem acontecendo no município.

— Infelizmente, Campos apresenta altos índices de violência de gênero, e muitas vezes as histórias acabam sendo silenciadas. As futuras gerações precisam compreender quais são os sinais da violência de gênero — disse.

Segundo Fabiana, o cenário no município é bastante preocupante, uma vez que, além do elevado número de registros de ocorrência relacionados à violência contra mulheres, ainda existe a subnotificação. Ou seja, muitas mulheres que são vítimas de todo tipo de violência — seja ela física ou psicológica — preferem se calar, por diversos motivos, como o medo e a vergonha.

— Em 2024, Campos dos Goytacazes aparece como uma das quatro cidades com os maiores números de feminicídio em todo o Estado. Isso é muito importante de se passar, porque muitas pessoas não reconhecem Campos como um lugar tão violento para as mulheres. É preocupante, porque os números tem raízes no machismo estrutural da sociedade. Na dificuldade econômica da mulher, na dificuldade de romper o ciclo de violência — afirmou.

Para Fabiana, a Lei Maria da Penha, de 2006, representa um avanço muito importante, mas ainda existem muitas dificuldades para sua colocação em prática. Ela citou como exemplo a demora nas medidas preventivas, falta de estrutura, pouca articulação entre os serviços executados e, muitas vezes, o descrédito da vítima.

Fabiana foi entrevistada pelo locutor, artista e comunicador, Giu de Souza, que apresenta o programa Bom Dia UENF.

— Muitas vezes a vítima chega na Delegacia para fazer o seu relato e, se não apresentar algum sinal visível de violência, é desacreditada. Isso precisa ser falado, porque a mulher chega ali sentindo uma dor muito grande, uma dor na alma, com medo, vergonha. E se essa mulher não é acolhida, principalmente se é uma outra mulher que está ali na frente dela, fica muito difícil para ela — comentou.

É de suma importância, segundo a pesquisadora, que a mulher saiba identificar os sinais de alerta que podem levar a casos de violência extremada, colocando limites.

— O amor não traz medo, então se a mulher se sente humilhada, ameaçada, é vítima de agressões verbais ou percebe que o parceiro a está isolando da família, tem que ligar o sinal de alerta. Não pode normalizar nem romantizar essas atitudes. A violência não começa com soco; ela começa com desrespeito — disse.

Durante a entrevista, ela ainda deu algumas dicas às mulheres que querem participar das atividades carnavalescas: estar sempre em grupo, avisar sempre a alguém de confiança aonde vai e com quem vai, não aceitar bebidas de desconhecidos e confiar na intuição sempre. Se algo acontecer, ligar para 190 (Polícia Militar) ou 180 (Central de Atendimento à Mulher). Ou ainda recorrer ao CREA, sistema de assistência social à mulher especializado, bem como a DEAM (Delegacia da Mulher).

O Programa Bom Dia UENF Entrevista vai ao ar todas as segundas, quartas e sextas-feiras, às 11h, na Rádio UENF 87,1 FM.

(Texto: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Cassiane Falcão – ASCOM/UENF)

NOTÍCIAS

EDITAIS