Projeto de Extensão da UENF estimula protagonismo feminino nas Ciências Exatas

Priscila Castro

Incentivar meninas, estudantes do Ensino Médio, a ingressarem em áreas das Ciências Exatas e da Terra, Engenharias e Computação. Esse foi um dos desejos que levou Maria Priscila de Castro, professora do Laboratório de Ciências Físicas (LCFIS) da UENF, a desenvolver o projeto “Arduínas: Meninas no controle de práticas experimentais das Ciências Exatas e da Terra”. Criado em 2022, o projeto aproxima estudantes da rede pública da ciência por meio de experimentos, programação, debates sobre gênero e produção de materiais didáticos.

A iniciativa foi desenvolvida inicialmente em duas escolas estaduais de Campos dos Goytacazes: o Colégio Estadual Coronel Nelson Pereira Rebel, em Travessão; e o Colégio Estadual Coronel Francisco da Motta Vasconcelos, em Poço Gordo. A primeira etapa reuniu nove bolsistas Jovens Talentos, com idades entre 16 e 18 anos, além de dois bolsistas de Iniciação Científica e três professores participantes de atividades de treinamento e capacitação técnica. O projeto recebeu apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), por meio do edital “Meninas e Mulheres na Ciência”, e posteriormente passou a contar também com o programa Mais Ciência, da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct).

As atividades foram organizadas em duas frentes complementares. Uma delas discutia a presença feminina na ciência, apresentando trajetórias de pesquisadoras e promovendo conversas sobre gênero, representatividade e participação das mulheres no desenvolvimento científico e tecnológico. A outra utilizava placas Arduino e sensores de baixo custo para trabalhar conceitos de Física. A proposta, segundo Maria Priscila, era fazer com que as estudantes não apenas conhecessem a ciência, mas pudessem experimentar, criar e compartilhar o conhecimento produzido.

— Eu queria que essas meninas percebessem que elas também poderiam ocupar esses espaços. Quando começamos a trabalhar com as histórias das mulheres cientistas e, ao mesmo tempo, colocamos as meninas para construir os experimentos, elas passaram de espectadoras à protagonistas — relata Maria Priscila. 

A experiência produziu resultados que ultrapassaram os limites das escolas. Das nove bolsistas da primeira etapa, quatro foram aprovadas em instituições de ensino superior, sendo duas no curso de Química da UENF e uma no curso de Engenharia de Telecomunicações do Instituto Federal Fluminense (IFF), além de outra aprovação na área de Computação. Para Maria Priscila, o resultado mostrou que a iniciação científica pode alterar a percepção das estudantes sobre suas próprias possibilidades. 

— Elas foram percebendo que poderiam fazer o Enem, entrar em uma universidade e construir uma carreira científica. Muitas não imaginavam, no início, que uma universidade pública e gratuita poderia fazer parte da trajetória delas — conta.

Priscila, ao receber homenagem na Faperj em 2024

Incentivo para estudantes 

Entre as estudantes, Marcelly Soares encontrou no Arduínas, ainda no Ensino Médio, um caminho para confirmar uma escolha profissional. Bolsista do programa Jovens Talentos em 2022, ela considera que a experiência foi decisiva, especialmente por ter vivido o primeiro contato com a universidade e com mulheres que já atuavam na área científica. 

— Para mim, foi muito importante ter esse primeiro contato com a universidade, principalmente por morar no interior e por conhecer mulheres que estavam nessa área. Eu já tinha decidido que seguiria pelas Ciências Exatas, mas ouvi muitas vezes que essa era uma área para homens e que mulher deveria escolher a Saúde ou a Educação. O Arduínas foi esse empurrão que eu precisava —  relata. 

A experiência contribuiu para que Marcelly prestasse o Enem e ingressasse na Licenciatura em Química da UENF. Hoje ela procura oferecer a outras meninas o mesmo incentivo que recebeu. 

— Agora estou ajudando outras meninas que, assim como eu, estudaram na escola pública, foram desacreditadas e querem ingressar na área das Exatas. Às vezes, elas só precisam de alguém que esteja ali e dê aquele empurrãozinho — afirma. 

Reconhecimento acadêmico

A trajetória das bolsistas também ganhou espaço em eventos científicos. O projeto foi apresentado no XV Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT), realizado em 2023, e em feiras de ciências nas escolas participantes. As estudantes também atuaram na divulgação dos materiais produzidos pelo grupo. Em 2024, Maria Priscila foi homenageada pela FAPERJ durante evento realizado no Auditório da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro, representando as coordenadoras dos projetos contemplados pelo edital “Meninas e Mulheres na Ciência”. 

A continuidade do trabalho encontrou no Mais Ciência uma nova frente de desenvolvimento. Em 2025, o projeto foi contemplado pelo programa municipal e passou a integrar as iniciativas de pesquisa e extensão apoiadas pela Seduct. Em novembro daquele ano, o projeto recebeu destaque na Mostra de Ciência e Tecnologia do Mais Ciência, realizada no Centro de Convenções da UENF. A participação também abriu caminho para novas apresentações e para a ampliação do protagonismo das bolsistas. 

Foi nesse novo ciclo que surgiu o subprojeto “Teto de Vidro: Disparidades de Gênero na Pesquisa Científica”, desenvolvido pela bolsista Maria Júlia Oliveira Mocaiber. Estudante de Licenciatura em Ciências da Natureza, com habilitação em Física, no Instituto Federal Fluminense (IFF), Maria Júlia integrou o programa Mais Ciência entre janeiro e julho de 2026 e atuou nos dois eixos do Arduínas, voltados à participação feminina na ciência e à cultura maker, com Arduino e programação.

Maria Julia Oliveira

— No eixo de gênero, produzi uma cartilha com trajetórias de mulheres cientistas e conceitos relacionados ao apagamento e à invisibilidade feminina nessas carreiras. Também desenvolvi dois jogos de cartas, o “Se Joga Mulher” e o “Mulheres em Jogo”. Na parte do Arduino, participei do desenvolvimento de um e-book para iniciantes, de um sistema de irrigação e de protótipos em maquetes 3D para ensinar Física térmica às meninas. Foi um projeto que abriu muito os meus horizontes, me fez conhecer novas áreas e pensamentos e me permitiu levar esses conhecimentos para outros lugares — relata Maria Júlia.

Os materiais produzidos foram apresentados no Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT), ampliando a divulgação das atividades desenvolvidas pelo projeto. Para Maria Júlia, a participação também teve impacto em sua formação. 

— Tenho um carinho enorme pelo projeto Arduínas. Foi uma experiência que abriu meus horizontes e me permitiu conhecer novas áreas, novos pensamentos e compartilhar esses conhecimentos — afirma.

Para Maria Priscila, o resultado reforça uma das principais características do Arduínas, que é formar estudantes para pesquisar, comunicar ciência e ocupar novos espaços. O projeto segue em expansão, com a produção de um e-book sobre suas experiências e novas bolsas Jovens Talentos da FAPERJ destinadas a estudantes do Ensino Médio, que deverão desenvolver propostas envolvendo impressão 3D e soligrafia como ferramentas de aprendizagem interdisciplinar.

Veja AQUI um vídeo sobre o projeto produzido pela ASCOM/UENF.

(Jornalista: Jorge Rocha / Fotos: Divulgação – ASCOM/UENF)

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