
Professor da UFBA, entrevistado do Bom Dia UENF, fala sobre reciclagem local e participa nesta quarta, 21/10, da Mostra de Extensão
O que acontece com o plástico depois que ele sai das nossas mãos? Em geral, ele segue para o lixo, para aterros ou para a natureza, onde pode permanecer por muito tempo. E se esse material virasse móveis e outros produtos e, ao mesmo tempo, gerasse trabalho e renda para quem precisa de oportunidades? Essa é a proposta do Projeto Zero, tecnologia social desenvolvida na Universidade Federal da Bahia (UFBA), apresentada nesta quarta-feira, 21/10/26, pelo professor Paulo Alberto Paes Gomes em entrevista à Rádio UENF 87,1 FM, no programa Bom Dia UENF Entrevista.
Graduado em Física pela Unicamp, com doutorado em Engenharia Elétrica, Paulo Gomes é professor da Escola de Belas Artes da UFBA. Às 17h15 desta quarta, ele ministra a palestra “Reciclagem local de plástico: arte, trabalho e renda” na XVIII Mostra de Extensão UENF UFF IFF e X UFRRJ: Mulheres Transformando Vidas ComCiência, que acontece desde segunda-feira no Centro de Convenções da UENF. Veja AQUI.
O projeto nasceu da percepção de que dois problemas costumavam ser tratados separadamente. O primeiro é a poluição por plástico: segundo o professor, a média global de reciclagem gira em torno de 10% do que é descartado, enquanto as latas de alumínio no Brasil têm índice de 99,5%.
— De cada dez baldes que você já viu na vida, um foi reciclado e nove estão jogados no aterro, no lixão ou na natureza — exemplificou. Ele alerta que a coleta seletiva facilita o trabalho do catador, mas não resolve o problema sozinha, porque é preciso saber qual é o destino do plástico depois da coleta.
O segundo problema é a falta de trabalho decente para pessoas com baixa escolaridade. Paulo Gomes estima que cerca de 45% dos brasileiros não concluíram o ensino fundamental, o que dificulta o acesso a um emprego formal.
A resposta foi criar as “oficinas de transformação”, empreendimentos sociais nos quais o plástico descartado pelo cidadão comum é transformado em objetos de valor por pessoas sem formação técnica.
O conceito central é o de reciclagem local. Para o professor, não faz sentido armazenar grandes quantidades de material e transportá-las em caminhões para outros estados. Na Bahia, por exemplo, o vidro não é reciclado e segue para São Paulo.
— Durante esse caminho, o caminhão consome petróleo e emite CO₂. Então a reciclagem não necessariamente é uma coisa boa para o meio ambiente, ela pode se tornar uma coisa ruim — afirmou. Segundo ele, reciclar localmente evita esse transporte e mantém os recursos na própria região.
Paulo Gomes trabalha com o tema há nove anos. Durante quatro ou cinco deles, o grupo desenvolveu, dentro da universidade, máquinas seguras, simples de operar, baratas e de fácil manutenção, características necessárias para que pessoas sem formação técnica possam usá-las. Em seguida, foram três anos de teste de campo em uma comunidade quilombola em Sergipe, onde marisqueiras que nunca tinham usado uma ferramenta elétrica aprenderam a transformar plástico descartado em placas e barras maciças e, depois, em objetos.
O modelo agora está em expansão. Há oficinas em São Luís (MA), Fortaleza (CE), Natal (RN), na Ilha de Itaparica e em Trancoso (BA), e em Itatiaia (RJ), entre outros locais. O professor espera que Campos dos Goytacazes seja a próxima.
— Uma das obrigações da universidade pública é solucionar problemas reais da comunidade. Isso não é uma opção, deveria ser uma obrigação — disse.
Para que a iniciativa seja sustentável, ele afirma que não basta produzir. É preciso que alguém queira comprar. Por isso, o físico mudou de unidade na UFBA e passou a integrar a Escola de Belas Artes, para trabalhar em colaboração com a graduação e a pós-graduação em design. Antes disso, ele desenhava os próprios móveis e conquistou o prêmio Design for a Better World com uma carteira escolar de plástico reciclado, mas reconhece que muitas peças saíam feias, desconfortáveis ou instáveis.
— Não é filantropia. Você não pode basear uma mudança social em filantropia. As pessoas têm que comprar esses objetos porque eles são bonitos, confortáveis e bem acabados. Também não podemos aceitar a ideia de que produto reciclado tem que ser “baratinho”. Tem que ser bonito e ter bastante valor — afirmou.
Serviço
O quadro “Bom Dia UENF Entrevista” vai ao ar às segundas, quartas e sextas-feiras, de 11h às 12h, na Rádio UENF 87.1 FM. A Rádio UENF pode ser ouvida na frequência 87.1 FM do Dial, pela internet (https://radio.uenf.br/) ou pelo aplicativo para Android. A Rádio UENF é a primeira rádio pública do interior do estado do Rio de Janeiro, uma emissora oficial da Rede Nacional de Comunicação Pública, gerida pela Empresa Brasil de Comunicação.
Equipe: Locutor: Giu de Souza / Produção: Giovanna Toledo, Tatiana Freire e Geovanna Cavoli / Suporte técnico: Thiago Henriques / Cobertura para redes sociais, fotos e vídeos: Lívia Guimenes, Raquel Carvalho, João Marcos Félix, Anna Letícia Bila e Giulia Maia. Direção geral: Vitor Sendra.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Raquel Carvalho – ASCOM/UENF)



