Emissora combina divulgação científica, valorização de artistas regionais e autonomia para comunicar com a população

Luis Passoni e Vitor Sendra foram os convidados desta sexta-feira (16) do quadro “Bom Dia UENF Entrevista”, da Rádio UENF 87.1 FM, para discutir a trajetória da emissora, que completa um ano no ar, e seu papel na comunicação pública, na divulgação científica e na valorização da cultura regional. A conversa abordou a passagem da web rádio para a frequência modulada (FM), a importância da independência comunicacional e os desafios de ampliar o diálogo entre a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e a população.
A história da emissora começou no ambiente digital, durante a pandemia de Covid-19, quando a universidade identificou a necessidade de estabelecer uma comunicação mais efetiva com a sociedade. O diretor de Comunicação da UENF e coordenador da Rádio UENF, Vitor Sendra explicou que a implantação da web rádio permitiu à equipe adquirir experiência e compreender as necessidades de funcionamento de uma emissora antes de alcançar o dial FM.
— A gente começou com a Rádio Web. Então, a gente foi buscando essa experiência e, nesse primeiro momento, esse processo de implantação através da Rádio Web foi muito importante para que a gente começasse a ter uma certa rodagem e compreender o que é a rádio, como funciona a rádio, quantas pessoas a gente precisava ter aqui nessa rádio no momento — explicou.
Ciência acessível em tempos de desinformação
O ex-reitor da UENF e atual coordenador do projeto de extensão vinculado à emissora, Luis Passoni destacou que a iniciativa também surgiu em um contexto de circulação de informações falsas sobre saúde e de negacionismo científico. A aproximação entre profissionais da radiodifusão e a universidade, por meio da extensão, contribuiu para desenvolver uma estrutura de comunicação capaz de apresentar o conhecimento científico em linguagem acessível.
— A gente precisava melhorar a comunicação. Foi um momento em que começou o negacionismo científico, a gente estava no meio da pandemia, tinha a questão dos remédios falsos sendo divulgados como soluções para aquele problema, e a gente viu a necessidade de começar a comunicar com a sociedade a visão científica e o que é demonstrado sobre a verdade, sobre as vacinas, por exemplo — afirmou Passoni.
A comunicação pública constitui um dos eixos centrais da atuação da Rádio UENF. Em vez de orientar sua programação prioritariamente por interesses comerciais, a emissora integra a política pública de comunicação da universidade, divulgando atividades de ensino, pesquisa, extensão, educação e cultura. Para Sendra, essa função também está relacionada à prestação de contas à população sobre o trabalho desenvolvido pela instituição.
— A comunicação, dentro de uma universidade pública, passa a ser parte de uma política pública da universidade. Então, ela informa sobre a extensão, ela informa sobre a pesquisa, ela informa sobre cultura, ela informa sobre educação. Ela é parte da política pública implantada pela universidade em relação à sociedade — declarou o diretor de Comunicação.
Uma frequência própria para ampliar a autonomia
A existência de um canal próprio de radiodifusão também amplia a autonomia da universidade para alcançar públicos que não acompanham seus portais e perfis nas redes sociais. Sendra chamou a atenção para a dependência de plataformas privadas, cujas regras e algoritmos não estão sob o controle institucional. Nesse cenário, a transmissão pelo rádio representa uma alternativa para ampliar a circulação de informações confiáveis e reduzir a dependência desses ambientes digitais.
— Nós estamos pensando, estamos falando sobre uma soberania comunicacional. Porque nós temos as redes sociais, todo mundo se comunica através das redes sociais, mas a rede social não é da universidade. O Instagram não é da UENF, o Facebook não é da UENF, o Google não é da UENF, nós não temos nada disso — pontuou Sendra.
O alcance da FM contribui para levar a comunicação universitária para além dos espaços acadêmicos. Segundo Sendra, a Rádio UENF é a única emissora pública em funcionamento no interior do estado do Rio de Janeiro. O rádio permite que a população acompanhe a programação durante deslocamentos, atividades domésticas e momentos de lazer, criando oportunidades de contato com a universidade mesmo para quem nunca esteve no campus.
Música brasileira e espaço para novos públicos
A construção dessa proximidade também passa pela identidade editorial da emissora. A programação musical prioriza a música brasileira e busca contemplar diferentes estilos, artistas consagrados e produções locais e regionais que nem sempre encontram espaço nas rádios comerciais. Passoni explicou que essa escolha foi definida desde o início do projeto, com a proposta de não reproduzir simplesmente as tendências do mercado musical.
— A gente decidiu que não seria uma rádio comercial, que ia fazer uma programação diferente, que não ia seguir modismos, que ia trabalhar música brasileira, nacional, de boa qualidade. E boa qualidade quer dizer em todos os estilos. Toca pagode? Toca pagode de qualidade. Toca funk? Toca de qualidade — destacou Passoni.
A valorização cultural está associada à proposta de aproximar a população da universidade. Sendra explicou que o alcance linear da emissora se estende por aproximadamente 180 quilômetros ao longo de rodovias da região, possibilitando que ouvintes de diferentes municípios tenham contato com informações sobre a instituição, seus cursos gratuitos, projetos de extensão e iniciativas científicas e culturais. A programação também reserva espaço para artistas locais, incluindo representantes da música, do teatro e do cinema.
Conquistas em pouco tempo
Entre as conquistas do primeiro ano está o reconhecimento nacional do programa “Beco da Bossa”, dedicado à bossa nova, ao samba-jazz e a repertórios que recebem menos espaço na programação comercial. A produção conquistou o primeiro lugar em uma chamada pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e passou a integrar a programação da Rádio Nacional. O resultado demonstra a possibilidade de uma iniciativa universitária regional alcançar outros públicos por meio da articulação com a rede pública de comunicação.
O projeto de extensão também contribui para a formação da equipe e para a integração de conhecimentos de diferentes áreas. De acordo com Passoni, a universidade reúne profissionais com experiência acadêmica e científica, mas nem sempre dispõe internamente de especialistas em todas as atividades necessárias à produção radiofônica. A participação de profissionais externos permite compartilhar experiências e construir uma programação que combina os conhecimentos universitários com os saberes da comunicação.
— A extensão passa a ser esse momento de troca entre o saber da universidade e o saber popular, o saber social e o saber que não está dentro da universidade, que é o caso específico aqui da rádio. A gente consegue colocar a visão da universidade ao mesmo tempo associada com a visão de profissionais da área que tiveram oportunidade também de colaborar com a gente — explicou Passoni.
Comunicação de mão dupla para aproximar universidade e sociedade
A ampliação do diálogo com a população foi outro desafio destacado durante a entrevista. Para Sendra, divulgar pesquisas e resultados institucionais é apenas uma parte da comunicação pública. A universidade também precisa ouvir as demandas da sociedade, compreender suas necessidades e permitir que a população participe da avaliação de suas atividades, conforme ele pontua. Essa interação pode contribuir para aproximar a produção científica de questões cotidianas, como saúde, agricultura, educação e desenvolvimento regional.
— A gente precisa receber o que a sociedade diz. Nós não somos os donos da verdade. A gente precisa que a sociedade também entre em contato e fale, olha, a gente está precisando, a gente precisa estudar isso aqui, a gente precisa rever alguns conceitos. E esse é o papel também da comunicação na sociedade, da universidade com a sociedade. A gente precisa ouvir a sociedade também — afirmou Sendra.
Para ambos os entrevistados, ao completar um ano, a Rádio UENF mantém o desafio de ampliar sua presença regional e consolidar uma comunicação de mão dupla com a população. A continuidade da programação, a valorização de artistas, a divulgação científica e a integração com outras iniciativas de comunicação pública fazem parte desse percurso. Como ressaltaram Vitor Sendra e Luiz Passoni, o objetivo é levar a universidade para além de seus limites físicos e, ao mesmo tempo, criar condições para que as demandas da sociedade também cheguem à instituição.
Serviço
O quadro “Bom Dia UENF Entrevista” vai ao ar às segundas, quartas e sextas-feiras, de 11h às 12h, na Rádio UENF 87.1 FM. A Rádio UENF pode ser ouvida na frequência 87.1 FM do Dial, pela internet (https://radio.uenf.br/) ou pelo aplicativo para Android. A Rádio UENF é a primeira rádio pública do interior do estado do Rio de Janeiro, uma emissora oficial da Rede Nacional de Comunicação Pública, gerida pela Empresa Brasil de Comunicação.
Equipe: Locutor: Giu de Souza / Produção: Giovanna Toledo, Tatiana Freire e Geovanna Cavoli / Suporte técnico: Thiago Henriques / Cobertura para redes sociais, fotos e vídeos: Lívia Guimenes, Raquel Carvalho, João Marcos Félix, Anna Letícia Bila e Giulia Maia. Direção geral: Vitor Sendra.
(Jornalista: Jorge Rocha – Fotos: João Félix)



