UENF aproxima ciência e campo com mestrado voltado ao desenvolvimento rural sustentável 

PPAGROECO articula ciência, saberes tradicionais e experiência de quem atua no campo no Norte Fluminense

A relação entre universidade e território está no centro da proposta do Programa de Pós Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável (PPAGROECO) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Em vez de restringir a pesquisa às questões definidas no ambiente acadêmico, o programa incorpora demandas apresentadas por agricultores, organizações sociais e outros atores locais como elementos capazes de orientar a produção científica. A proposta é transformar problemas identificados no campo em pesquisas, intervenções e conhecimento aplicável ao desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense.

Essa perspectiva orienta um ciclo em que uma necessidade identificada por uma comunidade pode se transformar em objeto de investigação e, posteriormente, em um resultado voltado ao próprio território. O coordenador do PPAGROECO, Fábio Cunha Coelho, docente do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA), explica que o programa foi concebido para aproximar formação acadêmica e realidade profissional. Segundo ele, o rigor da pesquisa não é separado dos conhecimentos construídos pelos agricultores e pelas comunidades.

— O rigor acadêmico não se impõe de cima para baixo, mas é construído coletivamente com os saberes tradicionais e a vivência dos agricultores — declarou.

Uma pós-graduação construída a partir do território

A origem do PPAGROECO antecede sua aprovação formal. A UENF já mantinha, desde 2003, a disciplina de Agroecologia na graduação e desenvolvia ações de extensão relacionadas à agricultura familiar e à Assistência Técnica e Extensão Rural Agroecológica (ATERa). A partir de 2004, o Programa Universidade Aberta (PUA) ampliou esse percurso, com mais de 50 projetos ligados à Agroecologia e à extensão rural. A experiência mostrou a necessidade de oferecer formação científica e metodológica a profissionais que já atuavam diretamente com agricultores.

A criação do mestrado também esteve relacionada a uma demanda apresentada por 38 organizações da sociedade civil que integravam o Colegiado Territorial do Norte Fluminense. Entre os segmentos envolvidos estavam movimentos sociais, sindicatos, cooperativas, associações, comunidades quilombolas e instituições ligadas ao desenvolvimento rural. Para Fábio Cunha Coelho, essa origem ajuda a explicar a identidade do programa.

— O programa nasceu com uma base social muito forte, criado para atender a uma demanda explícita de 38 organizações da sociedade civil que integram o Colegiado Territorial do Norte Fluminense — afirmou.

A proposta foi aprovada pelo Conselho Universitário da UENF em 2021 e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em dezembro de 2024, na área de Ciências Agrárias I. A homologação pelo Ministério da Educação ocorreu em junho de 2025, por meio da Portaria MEC nº 425/2025. Com a primeira turma iniciada em março de 2026, o PPAGROECO está em fase inicial de implantação, ainda sem dissertações concluídas.

A característica profissional do curso aparece também na organização das atividades. O programa adota um regime de alternância, permitindo que os estudantes conciliem períodos de formação acadêmica com suas atividades profissionais. A proposta é especialmente dirigida a pessoas que já atuam com assistência técnica, pesquisa, extensão rural ou outras atividades relacionadas à Agroecologia.

— O programa foi estruturado para capacitar profissionais que já atuam na Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). Sua importância se dá pelo compromisso de integrar a academia aos desafios reais do campo no Norte Fluminense, promovendo o desenvolvimento sustentável de forma interconectada — pontuou o coordenador.

Formação profissional e novas oportunidades

A dimensão regional também orienta a missão do programa, que busca contribuir para o desenvolvimento rural sustentável por meio de ferramentas científicas e tecnológicas da Agroecologia. A proposta considera questões relacionadas à agricultura familiar, aos assentamentos rurais, à segurança alimentar, à preservação ambiental e às transformações econômicas e sociais do campo no Norte Fluminense. A formação procura reunir conhecimento científico, experiência profissional e saberes construídos pelas comunidades.

O corpo docente reúne cerca de 12 professores permanentes e colaboradores ligados principalmente à UENF e ao IFF, além da participação eventual de aproximadamente 29 professores e profissionais de outras instituições. Como a primeira turma iniciou as aulas em março de 2026, os primeiros trabalhos de conclusão ainda estão em desenvolvimento. O programa também mantém iniciativas de divulgação científica voltadas à transformação dos resultados das pesquisas em materiais acessíveis às comunidades.

O processo seletivo para 2027 está em andamento. O edital oferece 30 vagas, sendo 21 para concorrência geral e nove destinadas às cotas. As inscrições podem ser feitas até o dia 27 de outubro e o processo inclui homologação, prova escrita com avaliação do pré-projeto, análise do currículo e prova oral com defesa do pré-projeto e memorial. As aulas da nova turma serão realizadas na UENF e no IFF Cambuci.

— O processo seletivo procura avaliar não apenas a trajetória acadêmica, mas também a experiência profissional e a capacidade de formular um problema de pesquisa e intervenção — destacou Fábio.

Ciência aplicada aos desafios do campo

Conforme explica o coordenador do programa, as pesquisas estão focadas em quatro linhas principais. Fundamentos da Agroecologia é voltada às bases teóricas e ao planejamento de sistemas produtivos, enquanto Manejo Ecológico dos Solos é dedicada à conservação, fertilidade e uso de práticas e insumos biológicos. Já Saúde dos Sistemas Agroecológicos, aborda o manejo de pragas, doenças e processos de equilíbrio dos agroecossistemas e Sociedade e Desenvolvimento e Segurança Alimentar  reúne temas como extensão rural, desenvolvimento, educação do campo, tecnologias sociais e segurança alimentar.

A formação reúne conhecimentos das Ciências Agrárias e de outras áreas, incluindo dimensões ambientais, econômicas e sociais. O currículo está organizado em cinco módulos formativos e inclui atividades de estudo dirigido e pesquisa. Para obter o título, o estudante precisa cumprir pelo menos 24 créditos, conforme o regimento do programa. O trabalho final também pode assumir diferentes formatos, desde uma dissertação até produtos como cartilhas, projetos técnicos, relatórios de intervenção, capacitações, documentários e outras soluções relacionadas à demanda estudada.

Essa característica amplia a possibilidade de a pesquisa ultrapassar os limites do texto acadêmico e chegar às comunidades por diferentes meios. A proposta do PPAGROECO prevê que a relevância do tema seja relacionada a uma demanda dos agricultores e de suas organizações. O resultado esperado, portanto, está vinculado à capacidade de responder a questões identificadas no território.

Da infraestrutura acadêmica à realidade do campo

A estrutura disponível para esse trabalho reúne laboratórios e áreas experimentais da UENF e do Instituto Federal Fluminense (IFF). O programa conta ainda com parceria direta com o IFF Campus Cambuci e articulação com instituições como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro (EMATER RJ), o Instituto de Agroecologia e Meio Ambiente (IAMA), a Feira Agroecológica Solidária de Campos e o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA ZM). Também há colaboração com movimentos como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A infraestrutura inclui laboratórios voltados a solos, fitotecnia, tecnologia de alimentos, engenharia agrícola, entomologia e fitopatologia, sanidade animal, zootecnia, ciências ambientais, cognição e linguagem e estudos do espaço antrópico. O programa dispõe ainda de uma área experimental de 10 hectares no Solar dos Jesuítas, em Tocos, além de estruturas do IFF em Cambuci. A articulação entre esses espaços permite que diferentes dimensões dos sistemas agroecológicos sejam estudadas de forma integrada.

— O programa atua fortemente em rede, com acordo de cooperação direta com o Instituto Federal Fluminense, além de envolver outros centros da própria UENF e instituições como o Instituto de Agroecologia e Meio Ambiente — acrescentou o coordenador.

O percurso proposto pelo PPAGROECO parte, assim, de uma questão concreta e procura fazer com que ela percorra diferentes etapas dentro da universidade sem perder sua relação com a origem. Para Fábio, o campo apresenta uma demanda, a pesquisa organiza a investigação, a formação oferece ferramentas científicas e o trabalho desenvolvido pelo estudante busca produzir uma resposta que possa retornar ao território. Ele considera que em uma região marcada por diferentes realidades rurais e desafios sociais, ambientais e produtivos, o programa estabelece uma ponte entre a capacidade científica da UENF e problemas que já existem fora de seus muros.

(Jornalista: Jorge Rocha – Fotos: Divulgação)

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