Pesquisador da UENF explica como segurança e produtividade podem caminhar juntas nas organizações

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) vem ampliando o papel da Engenharia de Produção na gestão da segurança e saúde ocupacional. Com a consolidação do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a norma passou a exigir das organizações uma abordagem contínua de identificação, avaliação e controle dos riscos presentes nos ambientes de trabalho, incluindo fatores físicos, ergonômicos, organizacionais e psicossociais.
No Centro de Ciência e Tecnologia (CCT) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Engenharia de Produção (LEPROD) dialogam diretamente com essa nova realidade. O laboratório reúne estudos sobre ergonomia, organização do trabalho, gestão da qualidade, segurança e saúde do trabalho, análise da atividade laboral e construção de estratégias de prevenção, temas que passaram a ocupar posição central na aplicação da norma.
Para o coordenador do curso de Engenharia de Produção do CCT e pesquisador do LEPROD, Frederico Muylaert Margem, a principal transformação está na forma como as empresas passam a enxergar o trabalho.

— As empresas precisam olhar para o trabalho de forma mais ampla, considerando não apenas o ambiente físico, mas também a maneira como as atividades são organizadas e executadas. Dependendo dos riscos identificados, isso pode envolver adequações de mobiliário, equipamentos, ferramentas, movimentação de materiais, ritmo de trabalho, pausas e organização das atividades. Mais do que adotar uma solução padronizada, a NR-1 reforça a necessidade de identificar os riscos presentes em cada realidade de trabalho e estabelecer medidas de prevenção adequadas. O objetivo é antecipar os problemas, e não esperar que acidentes, doenças ou afastamentos aconteçam para então agir — declarou.
Segundo o pesquisador, a nova redação da norma aproxima a segurança ocupacional dos processos de gestão e planejamento que já fazem parte do campo de atuação da Engenharia de Produção. A prevenção deixa de ser tratada como uma obrigação documental isolada e passa a integrar a rotina das organizações. Além de estabelecer diretrizes para a gestão dos riscos ocupacionais, a NR-1 passou a destacar fatores relacionados à saúde mental, como excesso de carga de trabalho, pressão por metas, conflitos interpessoais e organização inadequada das atividades, ampliando o debate sobre a relação entre trabalho, produtividade e bem-estar.
— A questão deixa de ser apenas produzir um documento sobre determinada condição de trabalho e passa a envolver um processo contínuo de identificar riscos, estabelecer prioridades, implementar medidas de prevenção e acompanhar seus resultados. Essa é uma perspectiva muito próxima da Engenharia de Produção: analisar o processo, identificar problemas, estabelecer prioridades, propor melhorias e verificar se elas estão funcionando. Segurança, portanto, passa a ser cada vez mais integrada à gestão da operação — frisou Frederico.
Essa aproximação também pode ser observada nas linhas de pesquisa desenvolvidas pelo LEPROD. Estudos relacionados à ergonomia, à ergologia, à participação dos trabalhadores nos processos decisórios, à relação entre trabalho prescrito e trabalho real e à melhoria contínua de processos contribuem para compreender como os riscos surgem e como podem ser prevenidos antes de gerar acidentes, afastamentos ou perdas produtivas.
O pesquisador aponta ainda a elaboração do Inventário de Riscos, documento que reúne os perigos identificados em cada atividade e orienta a construção das ações preventivas, como outro aspecto relevante da NR-1. Para ele, a Engenharia de Produção possui ferramentas capazes de apoiar esse processo sem comprometer a eficiência operacional das empresas.

— A Engenharia de Produção pode contribuir justamente para integrar segurança e produtividade. O primeiro passo é compreender o processo real de trabalho: como as atividades são executadas, quais recursos são utilizados, onde estão os pontos críticos e quais riscos estão associados a cada etapa. Quando esse trabalho é bem realizado, o gerenciamento de riscos não precisa representar apenas mais burocracia. Ele pode contribuir para reduzir acidentes, afastamentos, retrabalho, perdas e interrupções da produção. A ideia é incorporar a prevenção ao próprio processo produtivo, tornando a operação mais segura e, consequentemente, mais eficiente — pontuou.
Frederico ressalta que um dos desafios mais frequentes nos diagnósticos organizacionais está na análise limitada dos postos de trabalho. Segundo ele, a observação isolada de equipamentos ou mobiliários nem sempre permite compreender os fatores que efetivamente geram riscos aos trabalhadores.
— Um dos principais pontos cegos é analisar apenas o posto de trabalho e não observar a atividade como ela realmente acontece. Uma bancada, uma cadeira ou um equipamento podem parecer adequados isoladamente, mas o risco pode estar na combinação entre postura, repetitividade, esforço físico, tempo de exposição, ritmo de trabalho e organização das atividades. Além disso, a nova abordagem amplia a atenção para fatores relacionados à organização do trabalho e aos riscos psicossociais. Por isso, é importante ouvir os próprios trabalhadores e compreender a realidade da atividade, e não fazer o diagnóstico apenas a partir de uma observação pontual ou de uma fotografia do posto — acrescentou.
Essa perspectiva encontra respaldo em abordagens estudadas pelo LEPROD, como a Ergologia, que busca compreender a atividade humana em situações reais de trabalho. A metodologia considera que a experiência dos trabalhadores é fundamental para identificar problemas que muitas vezes não aparecem em procedimentos formais ou avaliações superficiais dos ambientes laborais.
Pesquisa e formação de profissionais
Entre as ferramentas utilizadas pela Engenharia de Produção, o mapeamento de processos aparece como um dos instrumentos que podem facilitar a elaboração do Programa de Gerenciamento de Riscos. A técnica permite visualizar o funcionamento das atividades, identificar pontos críticos e estabelecer prioridades de intervenção.
— Antes de preencher planilhas ou elaborar documentos, é fundamental compreender o processo: quais atividades são realizadas, por quem, com quais equipamentos e quais são os seus pontos críticos. É uma abordagem bastante ligada à Engenharia de Produção, porque permite enxergar o sistema como um todo e tomar decisões com base em critérios objetivos — explicou Frederico.
Além das contribuições em pesquisa e inovação, o pesquisador frisa que a UENF também atua na formação de profissionais preparados para lidar com os desafios impostos pela nova legislação. A integração entre segurança, gestão, tecnologia, ergonomia e análise de processos faz parte da formação oferecida aos estudantes da área.
— A universidade tem um papel fundamental na formação de profissionais capazes de compreender que segurança não é uma atividade isolada dentro de uma empresa. Ela está relacionada aos processos produtivos, às pessoas, à tecnologia, à organização do trabalho e à gestão. O profissional precisa ser capaz de analisar processos, trabalhar com dados, identificar riscos, propor melhorias e avaliar os resultados dessas intervenções. A nova realidade da NR-1 reforça a importância de formar engenheiros capazes de integrar produtividade, qualidade, segurança, ergonomia, tecnologia e gestão de pessoas — concluiu.
Com a ampliação do escopo da NR-1 e a inclusão dos riscos psicossociais entre os elementos que devem ser avaliados pelas organizações, a Engenharia de Produção ganha espaço como área estratégica para apoiar empresas e instituições na construção de ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e sustentáveis. Nesse cenário, Frederico considera que o LEPROD fortalece sua atuação ao conectar pesquisa, ensino e extensão a um dos principais desafios contemporâneos da gestão do trabalho.
(Jornalista: Jorge Rocha – Fotos: Divulgação/Arquivo)



