
As mulheres brasileiras hoje são maioria nos cursos superiores, mas nem sempre foi assim. Somente em 1879, através do Decreto-Lei nº 7.247, foi permitida a entrada das mulheres em uma faculdade. Mas a responsabilidade pela realização de suas matrículas ficava a cargo dos seus pais ou maridos.
O tempo passou e hoje as mulheres ocupam 57% das matrículas, segundo o Censo do Ensino Superior do Ministério da Educação. Nos cursos universitários, 60% dos que chegam ao final dos estudos também são do sexo feminino.
Uma pesquisa de mestrado realizada na UENF mostrou, no entanto, que a vida das estudantes universitárias está muito longe de ser um mar de rosas. De acordo com a pesquisa, a sobrecarga acadêmica impacta diretamente o bem-estar e a saúde mental das estudantes da pós-graduação.
— Os dados revelaram que muitas pós-graduandas enfrentam esgotamento, ansiedade e estresse, especialmente em períodos de maior pressão acadêmica, como prazos de entrega e defesa de projetos. A cultura de produtividade excessiva no mestrado e doutorado é um dos fatores que agravam o quadro — afirma a assistente social Laís Ribeiro Rangel, autora da pesquisa.
Intitulada “Saúde mental das universitárias na Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro: uma análise sobre os enfrentamentos cotidianos e a sobrecarga feminina no ambiente acadêmico”, a pesquisa teve a orientação do professor Leonardo Rogério Miguel, do Centro de Ciências do Homem da UENF (CCH).
A pesquisadora ouviu 40 pós-graduandas da UENF (de cursos de Mestrado e Doutorado), sendo 10 de cada um dos Centros: Biociências e Biotecnologia (CBB), Ciências do Homem (CCH), Ciência e Tecnologia (CCT) e Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA).
Os dados mostram que a sobrecarga feminina é desproporcional à masculina, uma vez que a maioria das mulheres acumula tarefas acadêmicas, domésticas e profissionais extras.
— A experiência é ainda mais intensa e desgastante para aquelas que desempenham múltiplos papéis, como mães e trabalhadoras, situação que agrava os níveis de estresse e ansiedade relativos ao cumprimento de seus deveres acadêmicos — explica Laís.
Segundo Laís, a interseccionalidade (interação ou sobreposição de fatores sociais) de raça e classe agrava a situação. Em outras palavras, é ainda mais difícil a permanência na pós-graduação para as mulheres negras e de baixa renda. Na pesquisa, elas relataram enfrentar barreiras adicionais no ambiente acadêmico, como a falta de representatividade e o preconceito.
— Foi possível constatar que, embora determinadas políticas públicas tenham contribuído para a ampliação do acesso ao ensino superior, ainda há carências no atendimento às especificidades de gênero, raça e classe, principalmente no que se refere às condições que previnam o adoecimento mental de discentes na pós-graduação — afirma.
Laís conta que a ideia de fazer a pesquisa veio de sua experiência no projeto de extensão “Cuca Legal”, da Universidade Federal Fluminense (UFF), do qual participou em 2017, quando ainda era aluna de graduação no curso de Serviço Social.
— O projeto, vinculado ao curso de Psicologia, atendia às demandas do alunado em questões de saúde mental. Ali eu percebi que a maioria dos alunos que participava do projeto era do gênero feminino. Quis explorar um pouco mais o tema no Mestrado, desta vez estudando as mulheres na pós-graduação — relata.
Para Laís, a pesquisa de campo confirmou sua hipótese: a de que as mulheres, devido às demandas maiores que possuem, historicamente, com o lar, filhos, somadas à pressão psicológica de ter uma formação para poder ingressar no mercado de trabalho, acabam por ter uma sobrecarga maior que redunda em problemas na saúde mental.
— E ainda a demanda acadêmica da graduação é diferente da pós-graduação. São muito mais cobranças, prazos a serem cumpridos. Entendo que é uma escolha. Ninguém entra na pós-graduação obrigado, mas porque quer se qualificar. No entanto, não deixa de ser um desafio constante — diz.
Uma das questões que apareceram nas entrevistas, segundo ela, foi o medo do desemprego. Para grande parte das pós-graduandas, a bolsa que recebem na pós-graduação é seu único meio de sustento.
— E ainda por cima o pós-graduando assume um termo de compromisso segundo o qual, se ele desistir do curso, é obrigado a devolver todo o dinheiro recebido. Dentre as entrevistadas, muitas disseram que só não desistiram porque não têm como devolver esse dinheiro.
Em sua parte teórica, a pesquisa apresenta aspectos históricos importantes da trajetória da educação brasileira, especificamente no que esse refere à inserção das mulheres no ensino superior. A contextualização histórica abrange desde o período Imperial até os dias de hoje, destacando que, por séculos, as mulheres foram excluídas da educação formal e destinadas a funções domésticas e ao matrimônio.
— Esse panorama começou a se transformar com as lutas e os avanços dos movimentos feministas. Com as mudanças sociais ao longo do século XX, especialmente a partir da década de 1960, houve um crescimento expressivo da presença feminina no ensino superior. Contudo, os resquícios dessa exclusão histórica ainda se fazem presentes, perpetuando desigualdades que afetam diretamente o ambiente acadêmico — conclui Laís.
Saúde mental dos estudantes está no foco da ProAC
A questão da saúde mental dos estudantes tem estado no centro das atenções da mais nova Pró-Reitoria da UENF, a ProAC — Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários. Aprovada em abril de 2022 pelo Conselho Universitário, a ProAC surgiu como um desmembramento da antiga Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários.
Em matéria publicada no site da UENF em 21/05/25, a professora Clícia Grativol — primeira pró-reitora de Assuntos Comunitários — disse que a ProAC surgiu em um momento desafiador, durante a pandemia da COVID-19, quando ficou claro que a saúde mental da comunidade universitária estava sendo impactada. Surgiu, então, a necessidade de pensar em políticas mais inclusivas e de apoio.
Segundo o pró-reitor atual, professor Milton Kanashiro, a ProAC possui uma equipe de psicólogos e pedagogos para dar suporte aos alunos e servidores da Universidade.
— Muitos alunos vêm nos procurar com crise de ansiedade por diversas razões, mas é muito comum eles nos procurarem nos momentos como prévia de qualificação, prévia de defesa de tese e dissertação. Além da autocobrança de ter produção científica, parte dessa cobrança vem também por parte de seus orientadores — diz.
Ele observa que, por sua vez, os orientadores também são cobrados em função da produção científica, pois precisam produzir para serem competitivos nas agências de fomento à pesquisa.
— Então é um ciclo que vai acontecendo com cobranças em vários níveis, no qual todos são colocados sob pressão e cobrados. O problema não está apenas dentro das universidades, mas acomete toda a sociedade — afirma o pró-reitor, lembrando que outro foco da ProAC são os alunos com deficiência ou neurodivergentes, que precisam muitas vezes de adaptações pedagógicas.
Kanashiro informa que há várias formas de acessar a ProAC quando o aluno precisa de ajuda. Uma delas é através do Sistema Acadêmico, onde existe um formulário no qual o aluno pode solicitar atendimento. Os alunos também podem se dirigir às coordenações dos cursos ou diretamente à ProAC, que fica no Prédio P9.
— Todos que vêm aqui são acolhidos, sejam servidores ou alunos. Quando necessário, encaminhamos para os CAPs (Centros de Atenção Psicossocial), como por exemplo, nos casos de alunos que necessitam de psicoterapia, que demandam um longo período de tratamento. A gente procura fazer a interlocução com eles para facilitar o atendimento, integrando também o Serviço Social para fazer essa interlocução e acompanhamento.
Ele ressalta que esse acompanhamento é importante para que a Pró-reitoria possa subsidiar os colegiados na análise de algum pleito realizado pelos discentes.
A equipe de apoio psicológico e pedagógico também analisa os laudos neuropsicológicos dos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH) ou outros tipos de neurodivergência. Faz também a orientação pedagógica e busca atender a outras necessidades demandadas pelos alunos, encaminhando-as aos seus respectivos professores.
— É importante ter o laudo e diagnóstico, porque ninguém pode se autodiagnosticar. A adaptação pedagógica não significa reduzir o conteúdo, mas torná-lo mais facilmente compreensível dentro das limitações do aluno, como a utilização de diferentes recursos pedagógicos para apresentar o mesmo conteúdo. Ao mesmo tempo, a ProAC vem atuando junto aos professores da Universidade sobre como fazer tais adaptações — diz, lembrando que diversas ações têm sido feitas nesse sentido.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Cassiane Falcão – ASCOM/UENF)



