O teólogo e historiador Fábio Py foi o entrevistado da última sexta-feira, 16/05/26, do programa ‘Bom Dia UENF Entrevista’

O uso do discurso religioso como arma política da extrema-direita brasileira vem crescendo na esteira do vácuo deixado pela esquerda nas periferias urbanas e rurais — locais onde a religião ocupa um espaço central. É o que acredita o teólogo e historiador Fábio Py, que participou na manhã da última sexta-feira, 16/05/26 do Programa ‘Bom Dia UENF Entrevista’, transmitido pela Rádio UENF 87,1 FM.
Professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e coordenador de disciplina do curso de Pedagogia da UENF/CEDERJ, Fábio Py afirmou que, embora historicamente o PT tenha se organizado a partir de movimentos religiosos e sociais, com o passar do tempo passou a predominar dentro do partido uma intelectualidade refratária ao elemento religioso.
— A Teologia da Libertação foi um elemento importante na organização do PT. Mas sempre existiu um tensionamento entre essa tendência teológica tão importante para o mundo e o setor dessa intelectualidade. Sempre houve uma diferenciação muito direta entre o discurso político progressista e o religioso — disse.
Segundo Py, a partir de 2016 o quadro político brasileiro começa a ser reconfigurado, quando a extrema-direita traz o discurso religioso para a pauta.
— Nesse momento, a esquerda brasileira fica inerte, porque não há esse diálogo entre religião e política. Na eleição à Prefeitura do Rio em 2016 vimos isso claramente, quando Crivela nadou no discurso religioso, enquanto Freixo teve muita dificuldade de se conectar com a periferia carioca. Porque a periferia carioca fala religião o tempo todo — afirmou.
O professor ressaltou que, na sua última campanha eleitoral, o presidente Lula prometeu criar núcleos nas comunidades que pudessem fomentar esse diálogo, o que não aconteceu.
— Aí está o problema. Apostou-se em figuras que não circulam nas comunidades de forma tão direta. O setor evangélico que está nas periferias segue sendo tracionado por quem está perto. E quem está perto? As diferentes formulações de igrejas: Assembleia de Deus, Batista, Universal — disse.
Py também chamou a atenção para a necessidade de novas estratégias midiáticas. Segundo ele, os fatos, por si só, não são suficientes para gerar efeitos. O que conta é a forma como são construídos os discursos em torno deles. Tudo depende, segundo Py, do chamado “curto-circuito das informações”, ou seja, como as informações vão sendo construídas.
— As redes sociais hoje são mais importantes que os antigos canais de TV aberta. As figuras de extrema direita são repostadas e publicizadas pelo menos três vezes mais do que os setores críticos ao sistema. Então temos um problema. As formas de informação dos trabalhadores urbanos são, por definição, instrumentos políticos financiados pela extrema direita mundial — disse.
Py fez uma análise também do fenômeno da polarização política. Segundo o professor, a polarização é uma estratégia da extrema direita mundial, que se aproveita dela para criar a ideia de que o adversário político é um “inimigo”.
— Esta figura política que está do outro lado, contra mim, não é só um opositor, ela é um inimigo. E essa noção está absolutamente ligada aos monoteísmos. O monoteísmo coloca essa oposição entre “Deus” e o “Diabo. Nas tradições politeístas isso não existe, são várias divindades — explicou.
A entrevista também abordou o “cristofascismo brasileiro”, termo criado por Py a partir do conceito da teóloga alemã Dorothee Sölle — que em 1970 chamou de cristofascismo as relações entre o partido nazi e as igrejas cristãs no desenvolvimento do Terceiro Reich.
Segundo afirmou, o cristofascismo brasileiro se expressa no uso de narrativas cristãs para a implantação de uma política neoliberal autoritária e de desprezo à população.
— Isso instrumentalizou a falta de políticas públicas, especialmente na época da pandemia da covid. A gente não pode esquecer que, no meio da pandemia, enquanto morriam cerca de 4 mil pessoas por dia, o governo retirou os dados das mortes que poderiam ajudar as políticas públicas. Isso é a expressão de uma política de estado fascista. Não é uma prática dos setores conservadores da arena pública, mas de setores ligados ao fascismo mundial — afirmou.
Apresentado pelo comunicador Giu de Souza, o Programa ‘Bom Dia UENF Entrevista’ vai ao ar todas as segundas, quartas e sextas-feiras, de 11h a 12h, na Rádio UENF 87,1 FM.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Lívia Gimenes – ASCOM/UENF)



