Mulher, mãe e cientista

Professora e cientista da UENF Olga Tavares é exemplo de vida para todas as mulheres

A vida da professora e cientista da UENF Olga Tavares poderia inspirar um livro ou um filme. Foram muitos os obstáculos que esta petropolitana, penúltima filha de um ferroviário e uma dona de casa, esposa e mãe de quatro filhos teve que superar para chegar onde se encontra hoje: no lugar das mulheres que, mesmo nascendo numa época em que não havia leis para proteger o trabalho da mulher — ela chegou a ser demitida quando engravidou de seu primeiro filho —, soube dar a volta por cima e brilhar naquilo que faz. Hoje, Dia Internacional da Mulher, ela foi a escolhida como símbolo da luta de outras tantas mulheres que, lutando contra todas as adversidades, estão ajudando a construir um mundo melhor.

Quem vê Olga hoje em seu Laboratório na UENF — O LQFPP, Laboratório de Química e Função de Proteínas e Peptídeos do Centro de Biociências e Biotecnologia  (CBB) — nem imagina que sua vida profissional começou quando ainda era adolescente, na função de costureira.  “Aos 15 anos, ganhei de meu pai uma máquina de costura e um curso de costureira. Meu primeiro emprego foi em uma das malharias da famosa Rua Tereza, como costureira, quando tinha 16 anos”, conta Olga, que guarda até hoje, como um “tesouro”, a máquina de costura que seu pai lhe deu.

Olga Tavares

Olga trabalhava e, ao mesmo tempo, cursava o último ano do ensino médio (na época chamado “segundo grau”), fazendo o curso técnico “Laboratório de Análises Clínicas”. “Ao conhecer a química e a bioquímica tive certeza que ali existia um mundo incrível e fascinante para ser explorado”, lembra a professora, que, com a ajuda de um professor que soube identificar sua situação financeira, conseguiu uma bolsa em um curso pré-vestibular. Em 1974/1975, ela foi aprovada no vestibular para o curso de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A alegria de passar num vestibular tão competitivo, porém, logo foi confrontada com a morte prematura de seu pai, em um acidente automobilístico. Além da dor da perda, a família ainda teve que arcar com imensas dificuldades financeiras. Nesse momento, Olga chegou a pensar em trancar a faculdade. “Não tinha como pagar alimentação e hospedagem no Rio de Janeiro”, recorda. “Mas, ao mesmo tempo, eu lembrava que meu pai sempre me aconselhava a não parar de estudar. Ele dizia que a nossa ‘arma’ na vida era o estudo”.

Foi então que uma amiga a levou ao Serviço Social da UFRJ e, como aluna carente, órfã de pai, Olga foi selecionada para morar no alojamento estudantil e conseguiu uma bolsa. “A UFRJ passou a ser a minha casa”, conta. No segundo ano do curso, ela começou um estágio de Iniciação Científica, trabalhando no Laboratório de Bioquímica. O casamento com Luiz Machado, seu namorado de muitos anos, aconteceu em maio de 1978. O “pedido oficial” ocorreu na última conversa com o pai de Olga. Ela conta que ele aprovava o relacionamento, mas, como Olga ainda era muito nova, aconselhou-a a esperar um pouco mais. E assim foi.

Faltando seis meses para concluir o curso, Olga conseguiu o que, à primeira vista, parecia o emprego dos seus sonhos. Foi contratada como química em uma indústria de laticínios, recebendo um salário “espetacular” de 12 salários mínimos. “Era a minha chance de mudar de vida”, diz. Mas havia uma condição no contrato: ela não poderia engravidar. “Não havia leis de proteção à mulher naquela época. Engravidei de meu primeiro filho, Talles, e fui sumariamente dispensada. Chorei muito”, conta.

Se a indústria perdia uma funcionária, a Academia começava a ganhar, ali, uma cientista. Pois foi assim que Olga, contrariando sua ideia anterior de não voltar à Universidade e ouvindo o conselho de uma amiga, resolveu fazer o mestrado. A pesquisa mudou radicalmente sua percepção sobre a ciência. “O mundo passava pela crise do petróleo, e o professor Júlio Silva Araújo, do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), me apresentou um projeto sobre o tratamento da madeira para transformá-la em um material fermentável para a produção de etanol. Amei! Meu conceito de pesquisa mudou”, lembra.

No ano seguinte, Olga engravidou de seu segundo filho, Thiago. “Um mestrado, dois filhos, morando em uma cidade distante da família. Era um desafio. A solução foi terminar o mestrado rapidamente, antes que o segundo filho nascesse. Consegui”, conta Olga, lembrando que por diversas vezes embalava os filhos lendo artigos em voz alta. “Eles curtiam, sorriam”’.

Ao terminar o mestrado, ela conseguiu uma bolsa de pesquisador III CNPq/Finep e voltou a trabalhar na UFRJ. “Um ano depois, nasceu minha terceira filha, Thais.  Como a bolsa atrasava muito, precisava de mais um emprego. Comecei a dar aulas na Gama Filho para o curso de Medicina e fui também contratada como Química na UFRJ. Após um intervalo de cinco anos, 1987, iniciei o doutorado. Em 1989, nasceu meu quarto filho, Vinicius. Em 1992, quando terminei o doutorado, fui aprovada em um concurso para professora da Uerj”, conta.

“Cuidava de quatro filhos que, para mim, são filhos únicos: Não abria mão de ter minutos com cada um, ouvia, ensinava como resolver os exercícios escolares, participava das reuniões em escola, escovava os dentes de todos eles, lia história para dormirem. Após esta jornada no fim da noite, preparava minhas aulas durante a madrugada.  Sorte ou não, o marido trabalhava à noite; eu chegava, ele passava as coordenadas e saía.  Nossos encontros eram nos finais de semana”, recorda Olga.

Após a conclusão do doutorado, surgiram quatro oportunidades: assumir uma carreira mais definida e mais intensa  na Gama Filho; mudar para um regime 40 horas DE na UERJ; realizar um pós-doc no Instituto Pasteur em Paris; e participar da criação da UENF. A última opção falou mais alto.

“Conheci os professores Jorge Guimarães, Celia Carlini, Wanderley de Souza e o fantástico senador  Darcy Ribeiro e me apaixonei pelo Projeto Universidade do Terceiro Milênio. Criar uma Universidade, voltada para a pesquisa, sem obrigações administrativas, com um ‘cartão de crédito’ liberado para montar o melhor laboratório que eu pudesse idealizar. Não tinha o que pensar.  Além disto, tinha o projeto familiar que sempre caminhou junto:  morava no subúrbio do Rio, próximo a uma comunidade, tinha filhos entrando na adolescência, morria de medo de criá-los no Rio; Campos seria a cidade perfeita”, lembra.

Na UENF, Olga já contribuiu diretamente, como orientadora, para a formação de 12 doutores, 23 mestres e 22 biólogos. “Com orgulho, tenho todos como amigos”, diz. No seu trabalho, duas linhas de pesquisa são conduzidas: a) Estudos de proteínas alergênicas e proposições de novas abordagens preventivas (vacinas) e desenvolvimento de novas drogas para o tratamento de doenças alérgicas; e b) Identificação de compostos bioativos vegetais para o combate de alguns protozoários causadores de doenças como T. cruzi, T gondii e outros com atividades larvicidas para o combate de insetos vetores como o mosquito A. aegypti.

Para Olga, a participação da mulher na ciência é de suma importância neste momento. “Há um projeto de desmanche da Educação, da Ciência no Brasil, e este é um problema de todos os brasileiros e não uma particularidade para a mulher cientista. É determinante que ocupemos nossas posições a todo momento em defesa das Universidades, dos Centros de Pesquisa, de mais verbas e respeito com a educação em todos os seus níveis”, afirma.

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