Pesquisa da UENF aponta níveis preocupantes de elementos tóxicos em aves marinhas da região

Lara Silva de Paula

Pinguins e atobás, entre outras aves marinhas que habitam o Norte Fluminense e Baixadas Litorâneas do Estado do Rio de Janeiro, vêm acumulando em seus organismos níveis preocupantes de elementos tóxicos. Foi o que mostrou a pesquisa de mestrado realizada pela médica veterinária Lara Silva de Paula no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da UENF.

Segundo a pesquisadora, foram detectadas elevadas concentrações de Cádmio (Cd) e Mercúrio (Hg), além de elevadas concentrações e relações com os biomarcadores MT e GSH, bem como com o elemento Selênio, os quais sugerem toxidade principalmente em pinguim e atobá (S. magellanicus e S. leucogaster).

Os biomarcadores são indicadores biológicos que podem mostrar mudanças na saúde, exposição a substâncias ou a presença de doenças nos organismos. Os biomarcadores MT e GHS são usados sobretudo em estudos ambientais para avaliar a exposição de organismos a poluentes.

— Essa contaminação pode levar a diversos efeitos deletérios, desde alterações bioquímicas, estresse oxidativo, danos celulares e a tecidos, além de problemas reprodutivos. Esse cenário pode levar ao declínio populacional dessas espécies — explica.

O estresse oxidativo ocorre quando o organismo não consegue neutralizar os radicais livres. Em excesso, estes podem danificar células, afetando o DNA, proteínas e membranas celulares.

Segundo Lara, as aves marinhas atuam como sentinelas da saúde ambiental porque são animais de elevado nível trófico — ou seja, ocupam os níveis mais altos da cadeia alimentar, sendo predadores de outros animais.

Além disso, essas aves têm um tempo de vida mais longo. Desta forma, muitos contaminantes são acumulados em seus tecidos em elevadas concentrações. Desta forma, é possível investigar contaminações ambientais.

O estudo teve por objetivo investigar a presença e concentração de metais e metaloides e de biomarcadores em amostras biológicas de cinco espécies de aves marinhas: pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus), atobá-marrom (Sula leucogaster), gaivotão (Larus dominicanus), fragata (Fregata magnificens) e trinta-réis-real (Thalasseus maximus).

Ave arribada na praia

As aves foram escolhidas por serem espécies que são frequentemente encontradas arribadas (encalhadas na praia) pelo projeto de monitoramento de praias (PMP), na região Norte Fluminense e Baixadas Litorâneas do estado do Rio de Janeiro.

Orientada pelo professor Salvatore Siciliano e co-orientada pela professora Rachel Ann Hauser-Davis, a dissertação de mestrado foi defendida neste mês de março, tendo como título “Aves marinhas como sentinelas de saúde ambiental: contaminação por metais e metaloides e associações com estresse oxidativo no Rio de Janeiro”.

No estudo, foi quantificada a presença de arsênio (As), cádmio (Cd), chumbo (Pb), ferro (Fe), mercúrio (Hg), rubídio (Rb), titânio (Ti) e zinco  (Zn) (metais e metaloides); o elemento selênio (Se) e biomarcadores de estresse oxidativo envolvidos na destoxificação de metais em tecidos de aves marinhas.

— Os ambientes marinhos e costeiros são constantemente expostos a diversas fontes de contaminantes provenientes de atividades antrópicas (relacionadas à ação humana). E as aves marinhas são frequentemente expostas a diversos contaminantes, devido à sua ampla distribuição geográfica e ao elevado nível trófico, pois são predadoras e/ou necrófagas — explica a pesquisadora.

Segundo ela, as principais fontes antropogênicas de emissão de metais e metaloides são as atividades industriais (como fabricação de baterias, eletrônicos, pigmentos e plástico), a mineração e a metalurgia, a queima de combustíveis fósseis, as atividades agrícolas (uso de pesticidas e fertilizantes) e os efluentes (tanto industriais como urbanos).

— A avaliação das concentrações de metais e metaloides se faz uma estratégia importante de monitoramento desses contaminantes e de seus impactos nas populações de aves marinhas. Além de fornecer um perfil da saúde ambiental e da saúde de espécies silvestres, o monitoramento contribui com a análise de risco e previsão de problemas futuros, viabilizando estratégias de mitigação.

(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – ASCOM/UENF)

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