
A desinformação tem sido um entrave à tomada de decisões efetivas de combate às mudanças climáticas. Esta foi a tônica da palestra “Emergência Climática e Integridade da Informação”, ministrada pelo cientista político e professor Carlos Milani, na manhã da última quinta-feira, 28/05/26 — último dia do XVIII Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT) e XI Congresso Fluminense de Pós-Graduação (CONPG).
Professor Titular do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), Milani disse que, embora exista um conjunto de evidências sistematizadas internacionalmente sobre a natureza antropogênica da mudança climática contemporânea, os tomadores de decisão têm falhado no enfrentamento ao problema.
— Os tomadores de decisão frequentemente dizem que precisam de evidências científicas para tomar decisões. Mas já temos evidências. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), criado em 1988, já tem seis rodadas concluídas de relatórios. Então por que não temos agido de modo responsável e contundente para responder a este drama planetário, a esse superproblema que diz respeito à nossa manutenção enquanto espécie no planeta, que é a emergência climática? — indagou.
A explicação, segundo ele, está na desinformação, reforçada atualmente por influencers e bloggers com milhões de seguidores nas redes sociais. De acordo com Milani, muitos tomadores de decisão vêm disseminando e reproduzindo informações totalmente equivocadas sobre a natureza das mudanças climáticas.
— Enquanto professores e pesquisadores que produzem dados, isso nos remete ao dever de refletirmos sobre como nos posicionarmos diante desse tema. E a gente, por vezes, nem se dá conta de que os nossos próprios dados podem ser manipulados e instrumentalizados para fins de desinformação neste vasto mundo das redes sociais e das tecnologias de informação — disse.
Segundo afirmou, uma das ideias fortemente disseminadas para invalidar as evidências científicas acerca da responsabilidade humana diante das mudanças climáticas é a de que “a ciência apresenta incertezas”.
— Isso é uma forma quase manipulada de apresentar a ciência diante do modo como ela atua no mundo. Dizer que a ciência apresenta incertezas é óbvio. Mas isso não significa que a gente não produza evidências que possam nutrir o processo de formulação de políticas públicas. E não significa que a gente não possa construir consensos onde as incertezas estão reduzidas a quase um mínimo, como é o caso da emergência climática — afirmou.
Lembrando que o conhecimento científico é cumulativo e construído a partir de dúvidas e da busca de respostas, ele ressaltou que a ciência climática nasceu no século XIX, mas foi só a partir do século XX que conseguiu reunir um conjunto de evidências contundentes sobre a natureza antropogênica das mudanças climáticas — ou seja, sobre o papel central das ações humanas neste fenômeno.

— Outros vão dizer que a mudança climática é uma invenção. Pessoas que podem ser presidentes da República de países importantes como os Estados Unidos. Não estou falando de tomadores de decisão que atuam junto a uma pequena comunidade, mas de tomadores de decisão com impacto político e poder de caneta tremendo para influenciar financiamentos científicos, desfinanciamento de programas de transição energética e de programas de transição de consumo e estilo de vida — disse.
Segundo afirmou, dados da Nasa provam que as temperaturas médias do planeta nas últimas décadas têm sido mais elevadas. Ao mesmo tempo, a curva de eventos climáticos extremos começou a se elevar em meados do século XX, justamente quando ocorre uma internacionalização dos processos de industrialização fóssil no mundo. De acordo com Milani, ocorre hoje um processo de globalização das emissões de gases de efeito estufa, e o Brasil está na lista dos maiores emissores desses gases.
— Nosso perfil nacional de emissões está profundamente ancorado no uso da terra, no desflorestamento e na agricultura/agronegócio. O setor agrícola hegemônico brasileiro é essencialmente pautado no agronegócio — disse.
Ele disse que o Brasil tem uma das mais matrizes energéticas mais limpas do planeta. Mais de 90% da eletricidade utilizada no país se origina de fontes não emissoras de gases de efeito estufa. O que não deixa de gerar impactos negativos para o meio ambiente.
— Sempre que produzimos energia em larga escala para demografias importantes como é o caso do Brasil, com mais de 200 milhões de habitantes, a gente vai gerar impactos negativos. É preciso, por exemplo, negociar com as comunidades que vão ser deslocadas, com populações indígenas . Isso tudo pode melhorar com mais inteligência e conhecimento gerado ao longo de 60 anos de historia de conflitos ambientais. Mas, na comparação com a economia fóssil, é muito mais favorável para a tentativa de construção de equilíbrio do sistema climático planetário — afirmou.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – Fotos: Cassiane Falcão – ASCOM / UENF)




