Livro, que conta a história dos cientistas Pierre e Marie Curie, busca aproximar estudantes da História das Ciências.

A história das ciências é uma das formas de mostrar o lado humano, social e cultural da construção do conhecimento científico. A doutoranda do Programa de Ciências Naturais da UENF Gisele Rangel encontrou uma forma inovadora de alcançar este objetivo, contando a história de dois cientistas — Pierre e Marie Curie — através de um mangá.
Ela é a organizadora do livro “Pierre Curie: Edição em Mangá — Uma adaptação da obra ‘Pierre Curie: com notas autobiográficas de Marie Curie’, publicado pela editora Encontrografia. Dividido em sete capítulos e com um total de 135 páginas, o livro tem ilustração de Kevin Areas e Hotallyp Franco.
A ideia surgiu quando Gisele participava de um projeto de extensão coordenado pelo professor Fernando Luna, do Laboratório de Ciências Químicas da UENF (LCQUI), que tinha por objetivo fazer a reedição de obras da história da ciência que já se encontram em domínio público, no contexto de formação continuada dos professores.
Ela conta que, ao fazer uma atividade com alunos de ensino médio de uma escola local, percebeu que eles não gostaram do livro — que reproduzia a biografia escrita por Marie Curie sobre seu esposo, o também cientista Pierre Curie, há mais de um século.
Não satisfeita, Gisele resolveu investigar uma outra maneira de fazer chegar as informações aos alunos. Então perguntou a eles qual tipo de literatura eles mais gostavam. A maioria revelou que gostava mesmo era de ler HQs e mangás.
— Quando coloquei a história na animação, eles se apaixonaram. Então pude perceber que o problema não era a história, mas a maneira como ela estava sendo contada — conta Gisele.
O livro foi o produto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Gisele, formada em Licenciatura em Química pela UENF. No mestrado em Ciências Naturais, também pela UENF — concluído em junho de 2025 —, ela aplicou o material em sala de aula. O doutorado, iniciado este ano, está sendo voltado para a formação continuada de professores de ciências na área de história das ciências.
— No mestrado, pude concluir que são necessários mais materiais de divulgação da história das ciências, que possam ser acessados livremente nas bibliotecas. Também observei uma necessidade muito grande de formação continuada de professores nessa área — diz.
Obra traz o lado humano dos cientistas
Segundo Gisele, a obra favoreceu o reconhecimento do lado humano dos cientistas e isso ajudou a despertar nos alunos o desejo de, um dia, também se tornarem cientistas — algo que estava completamente fora de suas aspirações.
— Por acharem que o cientista é um gênio solitário, com uma inteligência sobrenatural, muitos não se viam em condições de ser cientista um dia. Ao reconhecerem o lado humano do cientista, que vive naturalmente como todo mundo vive, eles passaram a se ver como alguém que um dia pode passar a fazer ciência também — afirma.
Gisele gostaria, no entanto, de que o material pudesse ser trabalhado com mais tempo, para que os alunos pudessem reconhecer um pouco mais sobre a epistemologia da ciência.
— Apesar de os estudantes terem reconhecido esse lado mais humano da ciência, não foi possível identificar que eles tivessem construído o conhecimento acerca de como a ciência é feita no dia a dia. A questão das disputas, das rupturas de um conceito — ressalta.

Escolas carecem de professores especializados
Ela observa que, embora a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabeleça que o ensino de ciências tem que ser contextualizado historicamente, existe um abismo muito grande dentro da sala de aula, que dificulta essa abordagem.
— A primeira questão é a falta de material didático adequado para o contexto da sala de aula, porque o livro didático apresenta o resultado das pesquisas, mas na maioria das vezes não contempla o processo de construção desses conceitos. Além disso, existe também a dificuldade por parte dos professores de elaborarem sequencias didáticas pela abordagem da história das ciências, uma vez que este conteúdo tende a ser negligenciado nas ementas das licenciaturas — diz.
Busca histórica motivou designer a realizar o trabalho
O designer Hotallyp Franco, um dos desenhistas do livro, conta que sempre gostou muito de histórias em quadrinhos e, especificamente, de mangá. Foi justamente lendo um mangá que ele decidiu cursar a graduação em Design Gráfico, ao descobrir que o autor havia se formado nessa área.
Ele afirma que, quando foi convidado para realizar esse trabalho, chegou a ficar com receio de não dar conta pelo fato de haver conteúdo científico, que requer maior atenção.
— Mas, conforme fui ilustrando quadro por quadro, fui me interessando mais pelo casal. Ao realizar buscas por referências e fotos históricas, sempre gerava aquela motivação de saber o que era aquele momento, o que eles faziam ali e o que os levou até lá. Foi muito importante para mim, como ilustrador, representar parte de uma história que mudou o mundo — disse.
Participação feminina na ciência
Gisele conta que escolheu o conteúdo por ter sido escrito por uma mulher cientista. Uma espécie de resgate histórico, uma vez que, ainda que as mulheres historicamente possam ter tido influência na produção do conhecimento científico, quando os resultados são divulgados, na maioria das vezes, são os homens que recebem os créditos.
— Quando a Marie ganhou o primeiro Prêmio Nobel, o Pierre e outro colega de pesquisa iam ser premiados e retiraram o nome dela unicamente por ser mulher. E o Pierre na época se recusou a receber o prêmio sem ela, pois os dois tinham trabalhado juntos. Isso ainda é muito real na nossa sociedade — conta.

Para ela, uma questão muito importante do livro é mostrar a vida da mulher enquanto pesquisadora. Na sua opinião, a realidade da mulher pesquisadora, ainda na atualidade, é muito diferente da realidade do homem pesquisador.
— No livro ela fala das dificuldades que tinha para sair de casa e ir para o laboratório. Se não fosse o apoio do sogro, que cuidava das crianças, talvez ela não tivesse concluído a pesquisa. Isso é bem atual. Se a mulher não tiver uma rede de apoio, acaba tendo um declínio na pesquisa.
Primeira mulher a receber um Prêmio Nobel e única pessoa a vencer em duas áreas distintas (Física em 1903 e Química em 1911), Marie Curie escreveu a biografia de seu marido e colega de trabalho, Pierre Curie, após a sua trágica e prematura morte, ocorrida em 1906, ao ser atropelado por uma carroça.
Trabalhando juntos, os dois revolucionaram a história da ciência com seus estudos sobre a radioatividade. Eles descobriram os elementos polônio e rádio. Suas pesquisas abriram caminho para tratamentos de câncer e o uso de raios-X. Os efeitos da exposição prolongada à radiação prejudicaram a saúde de Marie, que faleceu em 1934 devido a uma anemia aplástica.
(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – ASCOM/UENF)



