Livro aborda ‘Religião em tempos de COVID-19’

Professor da UENF, Fábio Py é um dos organizadores, ao lado do professor Emerson Sena, da UFMG

Acaba de ser lançado o e-book “Religião em tempos de Covid-19: vírus, biopoder e vida”, organizado pelos professores  Fábio Py (UENF) e Emerson Sena (UFMG). O livro — que pode ser adquirido gratuitamente no site da UENF (AQUI— é dividido em 10 capítulos , com artigos abordando a questão da pandemia no Brasil, México e Estados Unidos. 

“O objetivo do livro é discutir as religiões no âmbito da Covid-19. O livro apresenta várias experiências, em várias partes do mundo. Pesquisadores de várias nacionalidades dialogam e falam sobre o processo da pandemia e como as religiões responderam e interpretaram este problema”, diz Fábio Py. 

No primeiro capítulo, intitulado “COVID-19 e Religião: um estado de arte por ser feito”, Emerson Sena e Fábio Py propõem a noção de que a COVID-19 não é uma pandemia, mas, sim uma sindemia (conjunto de problemas de saúde interligados, interagindo de maneira sinérgica e causando danos maiores do que os problemas de cada doença isolados). 

“A consequência mais importante de ver a COVID-19 como uma sindemia é sublinhar suas origens sociais. A vulnerabilidade dos cidadãos mais velhos, comunidades étnicas negras, asiáticas e minoritárias e trabalhadores-chave, geralmente mal pagos e com menor proteção de bem-estar, aponta para uma verdade mal reconhecida, ou seja, que não importa o quão eficaz um tratamento ou uma vacina possam ser; a busca de uma solução puramente biomédica para a COVID-19 falhará. A menos que os governos concebam políticas e programas para inverter profundas disparidades, as nossas sociedades nunca estarão verdadeiramente seguras”, escrevem. 

Para enfrentar uma sindemia, afirmam, é preciso entender a doença como “uma malha apertada em que pobreza, desigualdade social e racial, organização econômica da sociedade, geografia, vacinas, variações e mutações viróticas, educação e informação, gestão coordenada em rede, apoio social e econômico, ou sua ausência entram em sinergia”. Eles acrescentam que os elementos biológicos interagem com os vários aspectos do ser humano: “seu corpo individual e social, sistemas religiosos, políticos e econômicos, a cidade e seu modo de organização e os governos. Biologia e sociedade são distintas, mas formam uma rede única”. 

No segundo capítulo, intitulado “COVID-19, Biopoder e Campo Cristão: CNBB, católicos e evangélicos reacionários”, Emerson Sena traz um mapeamento das reações do setor cristão conservador à sindemia de CO-VID-19, mostrando as principais forças religiosas do cristianismo institucional e suas relações contraditórias em jogo. 

“Está em clara luz que o governo federal promoveu o desprezo pela ciência e por medidas sanitárias recomendadas por questões ideológicas (teorias da conspiração) e interesses econômicos imediatos (empresários e indústrias farmacêuticas doadoras de campanha eleitoral em 2018) e a falta de apoio social e econômico aos mais afetados econômica e socialmente. Inicialmente, não havia previsão de auxílio emergencial, depois o governo propôs algo em torno de 200 reais e, após pressão nacional, o Congresso aumentou para 600 reais, em média”, afirma.  

Segundo Sena, a aposta do governo na “imunidade de rebanho” é um agravante para a sindemia, contribuindo para a difusão de narrativas falsas nos meios religiosos e não-religiosos, amplamente derrubadas pela ciência e criticadas por amplo conjunto de cientistas e especialistas. 

“Por isso, é importante mudar a compreensão da doença como uma vingança do planeta, o ódio de um demônio, um imenso azar, diante do qual nada podemos fazer. Soma-se a esse trágico painel, a ideia de doença como castigo divino, algo inevitável ou irrefreável, algo ligado aos planos astrais ou às dívidas cármicas de vidas passadas. Essas ideias aumentam o fatalismo – a crença que a morte é destino inevitável – e o misticismo – a postura mágico-religiosa que se espalharam por muitas religiões e provocam sérios danos. A malha, com isso, fica mais apertada, vira uma gaiola de aço e fazem as sindemias mais mortais e prejudiciais”, escreve. 

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